
A modelo gaúcha Gláucia Fekete tinha 16 anos em 2004 quando foi convidada para um concurso de modelos no Equador organizado pelo francês Jean-Luc Brunel. A competição oferecia US$ 300 mil e a promessa de contratos internacionais em Nova York.
Hoje, aos 38 anos, ela faz uma reflexão: “Se eu tivesse desobedecido a minha mãe, o que será que teria acontecido comigo?”. Brunel, que morreu na cadeia em 2022, era amigo e sócio de Jeffrey Epstein, o bilionário americano acusado de comandar uma rede de tráfico sexual de menores. Na época do concurso, porém, nenhuma acusação formal havia sido feita contra eles.
Foi a mãe de Gláucia, Bárbara, quem evitou o pior. Quando a filha recebeu o convite, Bárbara desconfiou. Para convencê-la, Brunel viajou pessoalmente até Santa Rosa, no interior do Rio Grande do Sul, onde a família morava. “Minha mãe no início achou ele simpático”, lembra Gláucia em entrevista à BBC News Brasil.

Bárbara acabou concordando com a viagem, mas não acompanhou a filha. No Equador, a jovem participou do Models New Generation ao lado de 50 jovens de diversos países. Durante a estadia, não conseguia se comunicar com a família.
“Fiquei preocupada. Não conseguia notícias dela”, lembra a mãe. Antes de voltar ao Brasil, Gláucia recebeu a proposta de viajar com Brunel para Nova York com tudo pago. A mãe negou na hora: “Não. Nem pensar”.
Documentos do Departamento de Justiça dos EUA revelam que Epstein esteve em Guayaquil exatamente nos dias do concurso. Há ainda um depoimento à Justiça americana de uma ex-funcionária de Brunel afirmando que, quando Epstein foi ao Equador, o francês lhe “levou garotas”.

Investigações também mostram que a dupla atuava no Brasil: quatro garotas brasileiras teriam sido levadas à casa de Epstein para festas, duas delas menores de idade.
Gláucia só descobriu a real dimensão do que viveu há alguns anos, quando jornalistas a procuraram durante as investigações do caso Epstein. A mãe só soube das acusações contra Brunel recentemente.
“Eu tinha uma coisa na minha cabeça, que isso não era coisa certa. Procuravam só crianças, menores”, disse Bárbara. Hoje, Gláucia é grata: “Realmente foi um livramento. Minha mãe me salvou”.