
O ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, afirmou nesta quinta-feira (02) que “atropelos” provocados por terceiros atrapalham as negociações entre Brasil e Estados Unidos sobre o tarifaço anunciado pelo presidente Donald Trump. O governo brasileiro tenta chegar a um acordo antes de 15 de julho, prazo fixado pela Casa Branca.
Elias Rosa deu a declaração no Rio de Janeiro, onde cumpriu agenda, após conversar com Jamieson Greer, representante do escritório comercial da Casa Branca. O ministro disse que o Brasil “corre contra o tempo” para tentar construir um consenso com os norte-americanos.
“Todas as vezes em que nós caminhamos positivamente parece que surge algum empecilho ou atropelo e nós precisamos superar. […] O presidente Lula esteve com o presidente Trump na Malásia, depois daquele encontro na ONU, depois tivemos seguidos encontros, vários telefonemas, e sempre foram muito positivos”, declarou.
Ao explicar o que chamou de “atropelos”, o ministro citou uma ordem executiva de julho do ano passado, que teria anunciado a necessidade de interferir no julgamento do Supremo Tribunal Federal sob pena de tarifa de 40% somada a outra de 10%. Ele também mencionou “um ex-deputado federal” que estava nos Estados Unidos e se dizia “autor ou patrocinador do tarifaço de encomenda”, além de pessoas no Brasil que celebraram a medida nas redes sociais.
O governo Lula atribui as ameaças tarifárias dos EUA a articulações da família Bolsonaro contra instituições brasileiras, sobretudo do ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) já chamou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro de “traidores da pátria”.

No ano passado, quando a gestão Trump estabeleceu uma tarifa de 50% contra produtos brasileiros, Eduardo Bolsonaro agradeceu publicamente ao presidente dos Estados Unidos pela medida. Para Elias Rosa, esse tipo de comportamento “polui o diálogo” entre os negociadores dos dois países.
“Não cabem na mesa de negociação da economia, do comércio bilateral, questões ideológicas, eleitoreiras, pessoalmente oportunistas, isso não tem cabimento”, disse o ministro. Ele afirmou que o governo enfrenta o tema “com a serenidade que exige”, mas ressaltou a urgência: “Em cada uma dessas reuniões, temos avançado um pouco. Mas volto a dizer, o tempo conspira contra. Temos que chegar até 15 de julho com um acordo”.
Auxiliares de Lula no Palácio do Planalto não esperam mais uma reversão completa do tarifaço. A avaliação interna é que o governo deve esgotar as negociações, apresentar números do comércio bilateral e insistir em argumentos técnicos, mas a decisão do USTR teria motivação política; nesse cenário, o máximo esperado seria alguma exceção ou eventual redução de taxa.
No Itamaraty, integrantes da diplomacia brasileira avaliam que documentos do USTR sobre a investigação baseada na seção 301 têm caráter político, não técnico nem comercial. Relatos à GloboNews indicam que as alegações iniciais, de julho de 2025, são “praticamente iguais” à recomendação final, de junho de 2026, apesar dos argumentos apresentados pelo Brasil, incluindo dados sobre queda do desmatamento no governo Lula em comparação com o governo Bolsonaro.