Mino Carta: “Desculpe, Lula, mas em São Paulo era hora de apoiar Guilherme Boulos”

Por Mino Carta

A prefeitura de São Paulo é uma pista de lançamento para candidaturas maiores. Trata-se da cidade mais reacionária do País, mas também da mais importante. Em geral, quem foi prefeito paulistano caminhou bastante e com destaque política adentro. Não é o caso de Fernando Haddad, que apreciava, sobremaneira, dar entrevistas à Folha de S.Paulo e não costumava visitar a periferia. O PT continuou a apostar nele até a candidatura à Presidência da República ao atribuir-lhe as qualidades que lhe faltam.

Lula disse recentemente que apoiaria qualquer candidato capaz de retirar do palco o ex-capitão Jair Bolsonaro. Já às vésperas do pleito para a prefeitura paulistana, o ex-presidente e líder inconteste do PT apresenta um candidato de escassa popularidade para o comando da capital. Acredito que meu grande amigo cometa um grave erro. Deveria, sempre segundo a minha ótica, apoiar o candidato Guilherme Boulos, algo mais do que uma promessa de futuro, de qualidades expostas. Figura claramente de esquerda, ligada a Lula, que, aliás, acompanhou no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema à espera da prisão determinada por Sérgio Moro, baseado no grotesco PowerPoint excogitado por Deltan Dallagnol. Haveria de apoiar também a companheira de chapa de Boulos, a indômita Luiza Erundina, que foi excelente prefeita pelo PT.

Podemos deduzir que Lula, neste lance, cogita de eventuais interesses do seu partido, embora pouco claros, sobretudo depois da sua determinação em tentar livrar o Brasil da presença de um presidente da República que envergonha o País. Ao apoiar Boulos, ele mostraria sua disponibilidade em relação à criação de uma frente ampla para unir a dita esquerda contra o inimigo comum. Nesta moldura, Boulos é, certamente, qualificado para representar os mais respeitáveis adversários de Bolsonaro e do bolsonarismo. A ocasião de mostrar esta abertura destinada a ampliar uma aliança benéfica não haveria de ser desperdiçada. Mas é, em nome de quais interesses não chego a perceber e, de todo modo, menores diante da importância do pleito e da gravidade da situação nacional.

Como é sabido, tenho por Lula um grande afeto de 43 anos. Não seria esta a primeira vez que o critico abertamente, em nome justamente da amizade. A qual exige franqueza, tanto mais na perspectiva de um futuro cada vez mais sombrio, a julgar pelas intenções do vilão-mor em busca da reeleição, que se prepara a enfrentar, imitando o próprio Lula. Bolsonaro inventa o seu “Bolsa Família” com êxito inegável, é forçoso e muito triste admitir. Também por isso o PT paga, com seu propósito de deixar todos contentes, ricos e pobres, sem cuidar de politizar o povo, operação de resto nunca buscada com a determinação que as circunstâncias recomendavam. Infelizmente, Bolsonaro aí está para provar que o povo brasileiro, ignaro das suas reais­ necessidades, contenta-se com as migalhas caídas da mesa dos poderosos.

Falta a consciência da cidadania, daí a verdadeira ameaça que o bolsonarismo representa em todo o seu espectro de prepotência doentia, de demência escancarada.

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