Mito ou arruaceiro? Por Wellington Diniz

O presidente Jair Bolsonaro durante solenidade de Ação de Graças, no Palácio do Planalto.
Marcelo Camargo/Agência Brasil

Por Wellington Diniz

Na mitologia, temos muitas histórias que servem para dar sentido à vida de determinadas sociedades, em alguma época da humanidade. O mito é uma narrativa explicativa de algum fenômeno como a origem da vida, a origem do mundo, a relação do homem com o divino ou com a natureza, entre outros fenômenos.

Temos conhecimento de diversos mitos, sobretudo no mundo grego. Um dos mais conhecidos e populares é o mito da caverna, do livro 7°da república de Platão, onde o filósofo explica pela imagem metafórica da caverna  que  o homem se encontra na escuridão do conhecimento e, através da razão,  descobre a luz, o conhecimento das coisas. Outro mito famoso é a Odisseia, de Homero, que narra o retorno do soldado Ulisses da guerra de Troia. No Brasil, temos alguns mitos e lendas que fazem parte do nosso folclore, como é o caso do Saci Pererê e do Boitatá, dentre outros.

Estou lembrando dos mitos clássicos e folclóricos para falar da nossa realidade política atual. Na campanha eleitoral de 2018, alguns apoiadores  do então candidato a presidente Jair Bolsonaro começaram a chamá-lo de “mito”, o que prosseguiu após a eleição e ainda hoje há quem o chame assim. Associar o nome de Bolsonaro à palavra mito é deturpar a figura do mito tal como é descrita na história da humanidade. Mais do que isso, é demonstrar não ter noção alguma do verdadeiro significado da palavra mito. Jair Bolsonaro está – como sempre esteve – mais para um arruaceiro do que para mito. O mito personifica um feito excepcional ou mesmo heroico ou um acontecimento muito singular que diz respeito à relação do homem com sua divindade ou do homem com a natureza, como podemos ver em livros ou em filmes. O arruaceiro, por sua vez, é um sujeito que não se preocupa com as pessoas, com as consequências éticas e morais de suas ações. O arruaceiro se coloca como valentão e busca “causar” – para usar um verbo da moda – de alguma forma e lança mão de expedientes como bater em alguém, provocar pessoas ou  acabar com uma festa, entre outras coisas absurdas. Quem já não presenciou  alguma situação desse tipo.

A história do Sr. Jair Messias Bolsonaro é repleta de acontecimentos e comportamentos similares a de sujeitos que praticam arruaças.  Ainda quando estava na carreira militar, nos anos 80, planejou explodir bombas em quartéis do exército. Entrou para a política e no longo período como vereador e deputado federal acumulou episódios de quebra de decoro parlamentar por ameaças verbais, xingamentos ou atitudes incendiárias e antiéticas.

Como presidente, não é diferente. Bolsonaro está sempre atacando os demais poderes da República e os críticos de seu governo. Ele afronta a nossa democracia permanentemente com reiterados elogios a torturadores da ditadura militar e frequentes ameaças às demais instituições, seja o Supremo Tribunal Federal (STF), o Congresso ou a imprensa. Basta se sentir acuado com alguma situação – invariavelmente provocada por ele próprio ou por seus filhos ou por seus ministros – para que solte o verbo e aja de forma autoritária. Nunca faltam xingamentos e palavras de baixo calão como fez agora com a imprensa mandando-a para a PQP no caso do escândalo das compras superfaturadas de itens supérfluos de alimentação, que incluíam até chicletes.

Como não tem projeto para o pais, sobretudo, para o povo pobre, ele toca o governo com mentiras, ameaças, arruaças e, assim, entrega o nosso Brasil para o sistema financeiro e para uma elite atrasada que não tem compromisso que não o de lucrar a qualquer custo. Enquanto isso, o Brasil sucumbe à crises sanitária (pandemia) e econômica sem precedentes. Grandes empresas estão abandonando o país, os pequenos e médios comércios estão fechando suas portas, pois não há apoio nem incentivo do governo, o trabalhador não tem  reajuste salarial, o desemprego só faz crescer e os milhões de desempregados brasileiros não tem mais o auxílio emergencial.

Bolsonaro está, literalmente, destruindo o Brasil. Mas seus apoiadores insistem ainda em dizer que o problema é dele e não deixam ele trabalhar. Cabe perguntar: será que Bolsonaro sabe, de fato, o que é trabalhar? Sabe o que é governar um país? Se soubesse governar com certeza o Brasil não estaria hoje mendigando vacinas contra a Covid-19 nem teríamos mais de 220 mil vidas perdidas por causa da doença.

Importante destacar que o governo Bolsonaro tem maioria no Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado). Os parlamentares fisiológicos do Centrão que ele tanto criticava, estão todos apoiando seu governo. Então, não falta apoio parlamentar para aprovar projetos, o que não existe é projeto decente para o país.

O lema de sua campanha: “Brasil acima de Tudo, Deus acima de Todos” nada é mais do que uma grande farsa. O “Brasil acima de tudo” hoje está rebaixado a pária global e as crises que estamos vivendo como a sanitária, a econômica, social e política são a mais cristalina expressão da falta de governo e de liderança. O “Deus  acima de Todos” é outra grande mentira de sua campanha. Esse “deus” utilizado por ele e seus aliados, além de uma ofensa ao segundo mandamento bíblico, acoberta uma ideologia de busca pelo poder autoritário, baseado na força bruta, na violência, no ódio. O Deus verdadeiro é aquele que emana o bem, a igualdade entre as pessoas, a caridade, a solidariedade, a justiça e o amor.  O presidente Bolsonaro encarna exatamente o contrário disso. Para ele, a lei não é para estabelecer a justiça e o equilíbrio.  O mais forte é quem prevalece.  Por isso, a pose de valentão – aliás, típica de arruaceiros –  nada mais é do que um sintoma de sua fraqueza espiritual e ética, da escassez de ideias.  É a expressão da cultura do autoritarismo que ainda reina em nosso país. Infelizmente, ainda não há cura para a pandemia que assola o mundo. Mas o Brasil tem como se curar desse presidente que está levando o nosso país para o abismo e o tratamento começa pelo IMPEACHMENT JÁ!

Wellington Diniz Monteiro- é bacharel em filosofia, foi superintendente do Incra/SP. Atualmente trabalha no mandato do deputado federal Paulo Teixeira.

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