Morador de Paraisópolis sobre PM: “Se fosse no Morumbi, chegavam pedindo licença”

Comunidade de Paraisópolis, zona sul de São Paulo, palco de um massacre por parte da PM em primeiro de dezembro de 2019: ninguém punido – Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

Publicado originalmente no site Brasil de Fato

POR LU SUDRÉ

Medo, violência cotidiana e sede por justiça. Essa é a realidade ainda vivida pela população de Paraisópolis um ano após a morte de nove jovens em decorrência de truculenta ação policial contra o Baile da DZ7.

Naquele 1º de dezembro de 2019, as batidas do funk, abruptamente, foram substituídas por bombas de gás lacrimogêneo, agressões e balas de borracha. O episódio, cujos responsáveis estão impunes até hoje, ficou conhecido como o Massacre de Paraisópolis.

Vídeos dos adolescentes encurralados em vielas da comunidade e cercados pelos policiais, que fecharam as possíveis rotas de saída, registram o desespero e o tumulto causado pela ação dos agentes.

Entre as vítimas fatais estão Denys Henrique Quirino, Mateus dos Santos Costa, Eduardo Silva, Bruno Gabriel dos Santos, Dennys Guilherme dos Santos Franca, Luara Victoria Oliveira, Gabriel Rogério de Moraes, Gustavo Cruz Xavier e Marcos Paulo Oliveira dos Santos, jovens de 14 a 23 anos.

Em entrevista ao Brasil de Fato, o pastor Igor Alexsander Gonçalves, uma das lideranças comunitárias locais, afirma que a ostensividade agressiva da PM é frequente no bairro da zona sul da capital paulista. No entanto, após a tragédia, a ameaça da repressão policial passou a amedrontar ainda mais os moradores.

“Tem gente que não pode ver uma viatura da polícia que corre e se esconde. Só de ver a viatura na entrada da comunidade, a pessoa acha que vão bater, matar, espancar. Isso faz com que a gente tenha medo e receio de andar na rua. Isso não deveria acontecer porque a polícia deveria estar aqui para nos proteger e não para nos matar”, critica Gonçalves.

Segundo o pastor, o episódio evidencia a criminalização do funk e da juventude periférica de Paraisópolis.

“Parece que é proibido querer se divertir dentro da comunidade à noite. Se fosse aqui do lado, no Morumbi eles [PM] chegavam pedindo licença. Aqui, não. É tiro, porrada e bomba, igual a música fala”.

Alexsander é conhecido como “Pastor do Funk” por realizar um trabalho social dentro do  Baile da DZ7 há cerca de quatro anos, atuando na intermediação de conflitos, pronto atendimento e conscientização.

No dia do ocorrido, foi impedido de se aproximar da viela onde os jovens supostamente vieram à óbito. “Me lembro do que aconteceu aqui, me lembro dos gritos, do desespero. Me lembro até pra entrar dentro da viela. Eu escuto até hoje os meninos gritando. Eu escuto até hoje as pessoas gritando pedindo ajuda pra viver”.

Nesta terça-feira (1), familiares das vítimas e moradores de Paraisópolis realizam um ato público em memória dos jovens em frente ao Portão 2 do Palácio dos Bandeirantes do Governo do Estado de São Paulo.

A manifestação também irá cobrar do poder público respostas sobre o andamento das investigações. Os 31 policiais afastados por envolvimento com as mortes ainda não foram indiciados.

“Houve um despreparo, mas não somente um despreparo. Houve algo que foi planejado e essas pessoas deveriam pagar pelo que elas fizeram. Um ano se passou. Eu tenho uma camisa com a foto do Dennys [uma das nove vítimas] e a camisa se apagou. A foto se apagou e a justiça não veio”, lamenta Alexsander.

Confira a entrevista na íntegra:

Brasil de Fato – Como esse episódio de violência policial marcou a comunidade de Paraisópolis?

Pastor Igor Alexsander – Infelizmente é normal a polícia entrar com a agressão na comunidade, não estão nem aí. Já tinha acontecido várias coisas e nesse dia o que marcou foi a forma de fazerem aquilo. A gente vê que foi algo planejado por parte da Polícia Militar.

A gente viu claramente que eles entraram. Eles riram, eles ameaçaram, falavam assim para os moradores: “Continua aí, continua aí [indo ao baile], que vai dar certo”. Antes mesmo eles entraram na viela, passaram por lá, onde aconteceu o massacre.

Imaginávamos que isso ia acontecer algum desastre porque um mês antes, no dia 1º de novembro, ocorreu a morte de um sargento na entrada da comunidade. Eu estava viajando e os moradores começaram a me ligar dizendo pra voltar, que a polícia tinha entrado ameaçando todo mundo, dizendo que ia ser 1 por 30, 1 por 50. Se um deles morrerem, então seriam 30 mortes em Paraisópolis.

Eu peguei um avião, voltei pra cá e alguns dias depois realmente aconteceu o que eles prometeram. Não foram só nove famílias que foram atingidas. Foram mais de 100 mil habitantes que temos aqui em Paraisópolis porque depois disso o povo tem medo de andar na rua.

Tem gente que não pode ver uma viatura da polícia que corre e se esconde. Só de ver a viatura na entrada da comunidade, a pessoa acha que vão bater, matar, espancar. Isso faz com que a gente tenha medo e receio de andar na rua. Isso não deveria acontecer porque a polícia deveria estar aqui para nos proteger e não para nos matar. Infelizmente essa não é a realidade.

Tem gente que só tem julgamento. Mas ninguém sabe a história de cada um. O que acontece. O porquê de eles estarem ali querendo ser feliz, se divertir. Se a molecada tivesse dinheiro pra ir para o Rock in Rio, eles iriam. Mas hoje eles não têm condição.

Eu não tenho nada contra o baile funk em si, contra o funk. A molecada está se divertindo mas é que nem quando o rap e o hip hop chegaram aqui. Eram recriminados.

Então houve uma piora na atuação da PM depois do massacre? Como ficou a comunidade?

Depois do massacre a comunidade travou. Mães não queriam levar seus filhos para a escola, pessoas com medo de sair de casa. Mas aí veio a mídia e certa pressão, então a polícia deu uma maneirada.

Com a covid-19, os bailes e aglomerações pararam, amenizaram, mas na semana passada mesmo teve uma ação da polícia pela madrugada, jogando bomba nas pessoas que estavam em bares. Machucou algumas pessoas e elas ligam desesperadas.

Parece que é proibido querer se divertir dentro da comunidade à noite. Se fosse aqui do lado no Morumbi eles chegavam pedindo licença. Aqui, não. É tiro, porrada e bomba, igual a música fala.

Muita gente critica mas quando a gente estoura essa bolha e as pessoas passam a ver a realidade da comunidade, da periferia, passam a ver que realmente existe preconceito.

Parece que eles [policiais] têm sede de sangue, que eles vêm para brincar. Parece um  parquinho, um carrossel. Isso infelizmente acontece diariamente e não era para acontecer.

Depois das mortes, o Baile da DZ7 continuou e continua acontecendo todo fim de semana? Qual a importância desse evento para a comunidade?

O Baile da DZ7  tem seu lado bom e seu lado ruim. Eu vou começar pelas coisas boas. Hoje o Baile da DZ7 emprega muita gente. Muita gente vive do fluxo. Lanchonetes, bares, restaurantes. Dá sustentabilidade para as famílias de Paraisópolis.

Mas o problema do baile hoje é que não tem um lugar adequado para acontecer. É muito barulho para os moradores. No final do baile tem muito lixo.

O pessoal fala que tem muita droga mas a droga tem em todo lugar. Na festa de rico e em festa de pobre.

Se existisse uma política pública para mudar essa situação… Por exemplo, a gente tem o Parque Paraisópolis que faz dez anos que está no papel. Prometendo, prometendo acontecer.  Eu acredito que o governo poderia fazer algo nesse parque, nesse terreno que tem aqui na frente de Paraisópolis, e fazer um lugar para colocar o Baile da DZ7.

É uma movimentação cultural. Hoje a molecada quer vir porque tem ostentação né. ‘Eu estou no Baile da DZ7’;  E vem caravanas de fora de São Paulo. De Minas Gerais, do Rio de Janeiro, vem muita gente de fora.

Me perguntam se eu sou a favor ou contra o baile. Eu sou a favor da vida, da paz, do lazer, da educação, da cultura. Existe um lado bom que o povo quer acabar com esse lado.

[O funk] é uma cultura da periferia e muita gente tenta acabar com a cultura. Mas se acontecesse isso no Mackenzie, se acontecesse isso no Morumbi, em Higienópolis, seria tudo tranquilo. Mas como é dentro da favela o bagulho fica doido.

Ninguém merece ser reprimido daquele jeito. Só porque queria se divertir, você vai ser morto?

Eu fui muito criticado e ameaçado na época quando aconteceu o massacre porque levantei as manifestações. As pessoas mandavam mensagem dizendo que eu seria o décimo a morrer, que se eles [as vítimas] estivessem na igreja não teriam morrido.

Eu fico muito triste. Infelizmente até os evangélicos, os cristãos, atacando esses jovens. Crianças de 14 anos de idade que só queriam se divertir. Passaram a semana trabalhando e só queriam um lazer no final de semana.

E aí aconteceu essa desgraça que até hoje marca muita gente. Um ano e nada aconteceu. Não tem Justiça.

E em relação às investigações? Como integrante da Comissão Externa que acompanha as investigações junto ao governo estadual, como avalia esse processo?

Montamos duas manifestações. A primeira no dia 02 [dia seguinte às mortes] e depois fomos até o Palácio do governador. Chegando lá falamos com ele e pedimos que fosse montada uma Comissão Externa pra gente acompanhar as investigações, para as famílias acompanharem, a comunidade acompanhar, os humanos.

Uma coisa que infelizmente o governador prometeu e não cumpriu, uma das, é que ele falou que assinaria um termo de compromisso conosco, com essa comissão. De tudo o que fosse registrado seria passado para a Comissão Externa e até hoje eles não assinaram. Então a gente tenta buscar o máximo de informações para que venha acontecer a justiça. Para que a gente saiba o que está acontecendo de verdade.

Temos que correr atrás pra saber. O único órgão que nos ajuda hoje é a Defensoria Pública. Parece que o papel entrou em uma gaveta e nada rola. Eles tentam, de todas as formas, apagar isso. Encobrir.

Eu nem sei se realmente algum desses policiais foi afastado de verdade. Antes eram 38 envolvidos, caiu para 35, depois para 31.

Cadê esses outros que sumiram? Quem são eles, os grandões que sumiram e que tiraram os deles da reta?

A gente sofre não só fisicamente mas psicologicamente. A gente fica buscando algo que eles tentam encobrir de uma maneira que a gente fica sem esperança. Sem esperança de um governo justo, da Justiça de verdade.

Como falei, o único órgão presente é a Defensoria Pública. Agora o restante… É a mesma coisa agora com o covid. Da mesma forma eles não ajudaram. Eles não fizeram o papel deles né.

Todos os dias a gente luta. Já lutamos normalmente por ser favela. E a gente não quer esquecer, não quer apagar isso da nossa vida, da nossa história. Porque o que aconteceu dentro de Paraisópolis foi algo que não deveria acontecer em lugar nenhum do mundo.

Houve um despreparo e não somente um despreparo. Houve algo que foi planejado e essas pessoas deveriam pagar pelo que elas fizeram. E que a justiça seja feita, um ano se passou. Eu tenho uma camisa com a foto do Dennys [uma das vítimas] e a camisa se apagou. A foto se apagou e a justiça não veio.

Me desculpa me emocionar mas eu me lembro da cena. Me lembro do que aconteceu aqui, me lembro dos gritos, do desespero. Me lembro até pra entrar dentro da viela. Eu escuto até hoje os meninos gritando. Eu escuto até hoje as pessoas gritando pedindo ajuda pra viver.

Eu não aceito nove jovens morrendo porque queriam se divertir. Se eles vieram de outras comunidades era porque já não tinha lazer lá.  Eles saem de suas comunidade pra ir para outra comunidade para tentar buscar o lazer. E a culpa é das mães? A culpa é deles?

A culpa não é do governo, dos governantes que não dão oportunidade para os jovens, que não tem condição de ter um lugar apropriado, de ter segurança? De ter banheiro público?

Ficamos indignados com isso. Um ano se passou e nos prometeram R$ 250 milhões de investimento na periferia de Paraisópolis. Foram colocados três postes.

Pedimos ajuda no combate à covid, fomos até o Palácio e eles nem nos atenderam. O Brasil tem que parar e olhar para dentro das comunidades. São 14 milhões de periféricos no Brasil. É muita gente.

Infelizmente ainda tem gente que bate de frente com isso e diz que “morreu por que quis” e que “quem procura acha”. Pior são aqueles que dizem que os CPFs foram cancelados. Isso machuca muito porque são vidas, são famílias, futuros que foram travados. Então eu acredito que se tem que falar, continuar batendo nessa tecla, mesmo cansados.

Tive uma conversa com uma das mães há 20 dias e ela disse: “Eu vou desistir.” E eu briguei com ela e disse pra ela não desistir. Disse : “Enquanto a gente lutar, seu filho ainda vai estar vivo”.

Então a gente procura todos os dias tentar mobilizar mais pessoas, correr atrás, para que não acabe como outros. Que não fique só na memória como Candelária e outros abusos que aconteceram.  contra isso para que não se venha a acabar com várias outras coisas que são na memória que na Candelária e vários outros abusos o que aconteceu em outros massacres.

O que pensa sobre essa narrativa apresentada pela polícia de que foi um pisoteamento e que eles não foram culpados?

Primeiro: eles alegam que estavam fazendo uma perseguição a dois caras de moto que entraram dentro do baile, se dispersaram, e o povo do baile começou a jogar pedra e garrafa. Agora imagina uma rua estreita, com mais de cinco mil pessoas, como é que uma moto passa? É uma coisa fora de lógica. Eu trabalhando, a pé, para atravessar o ponto que eles falam que a moto atravessou eu demoro cerca de uma hora. Imagine alguém de moto.

Normalmente quando a polícia entra no meio do baile, eles fecham apenas um lado da entrada e coloca o outro lado para dispersar. Nesse momento não. Eles fecharam os dois lados, as duas vias, concentraram o povo. E o povo correu para dentro da viela mas já tinha policiais dentro da viela na outra saída.

Nesse dia eu estava com muita dor de cabeça e não consegui trabalhar na madrugada. Mas eu não consegui dormir e no momento que estava acontecendo o massacre, eu desci para comprar um remédio e nisso tinham pessoas correndo procurando minha casa.

“Pastor, a polícia entrou e está matando um monte de gente lá na viela”. Eu corri desesperado e quando cheguei a polícia não me deixou entrar. Imagina colocar mais de mil pessoas numa viela estreita daquela, jogarem bomba de efeito moral, gás de pimenta, baterem, espancarem até a morte. E falar que foi pisoteamento.

Ai falam que fizeram exame toxicológico e que estavam drogados. E uma pessoa drogada pode morrer? Podem matar porque ela está drogada, porque ingeriu álcool? Não pode.

Foi algo horripilante porque a gente vê, não só nos vídeos, mas a comunidade gritava. Eu nunca tinha visto a comunidade gritar daquela forma.

Tem jovens que trabalham lá, que moram ao lado, que até hoje tem problemas psicológicos. Passaram por psicólogos, psiquiatras. Um deles gritava: “deixa eu ajudar, pelo amor de Deus, não mate ele”.

Jovens que eram conhecidos um do outro e até hoje a vida transformou totalmente. Tem medo de andar na rua, vive trancado dentro de casa. Vê uma ambulância e corre, tem medo da sirene. Marcou muito a comunidade, a vida das famílias.

E os bailes estão voltando, mesmo em meio à pandemia?

Eu sentei com os comerciantes aqui que tem os comércios em torno do baile em março, expliquei da pandemia e entramos no consenso deles fecharem bares, restaurantes e lanchonete. Por conta disso não ocorreu, porque o baile não tem uma organização. O baile é um fluxo de pessoas que vão se aglomerando, se aglomerando e acontece.

Quando não tem comércio aberto, não tem fluxo, não tem baile. Conseguimos conter mas agora está voltando mas não como era antes. Há dois, três finais de semana. Mas já teve ação da polícia semana passada. Soltaram bombas e correram atrás de bastante gente.

Os governos são omissos, não estão nem aí para a favela. Nessas eleições, muitos fizeram grandes campanhas políticas na televisão. Bonito de se ver, milhões investidos, mas não vimos isso aqui.

Já faz um ano que aconteceu o massacre mas não tem ninguém que responsabilize as pessoas que cometeram isso. Mas enquanto a favela tiver voz, a gente vai vencer.

Os 9 de Paraisópolis (Da esquerda para direita): Eduardo, Denys Henrique, Dennys Guilherme, Gabriel. Luara, Mateus, Gustavo, Bruno e Marcos Paulo (Foto: Reprodução/Internet)

Quando fala a “favela venceu” é ainda termos voz. É o joelho no nosso pescoço mas gritamos que somos famílias, somos vidas e não só isso que a mídia mostra em relação às drogas, ao tráfico. Somos pais de família que acordamos 4h da manhã para trabalhar e dar o pão à classe alta.

Como eu sempre falo e vou bater de frente, o Brasil só será melhor quando as comunidades forem melhores. Quando as favelas forem melhores. Paraisópolis só será melhor quando o Morumbi for melhor.

Usualmente as pessoas falam sobre aquele dia?

Essa semana estão falando muito. Muitos moradores perguntam: “O que vai acontecer? Já passou um ano e nada aconteceu”. Só vamos ter paz de andar na rua, andar tranquilo, de viver, quando a gente ver que a justiça aconteceu.

Normalmente se fala, quase diariamente. Muita gente pergunta o que aconteceu, se vai continuar da mesma forma. E como somos lideranças comunitárias as pessoas cobram.

Acha que é algo que pode se repetir?

Com certeza. E pode ser pior. Porque estamos falando e as pessoas ficam com raiva.  Quando vê o favelado tendo voz, as pessoas ficam com ódio. E esse ódio gera perseguição, conflito e algo muito pior. Se não tiver um ponto final nisso, vai acabar acontecendo algo pior dentro das comunidades.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!