Moradores de Paraisópolis desmentem PM: ‘Mataram os meninos na porrada, spray de pimenta e bombas de gás’

Publicado no Vio Mundo

Bairro de Paraisópolis

Moradores da Favela de Paraisópolis que presenciaram o massacre que matou nove pessoas que participavam de um baile funk, na madrugada deste domingo, 1/12, desmentem a versão da polícia.

Falando para o Viomundo na condição de anonimato, por temerem represálias dos policiais, moradores contam que as vítimas não morreram pisoteadas como a mídia chegou a informar inicialmente.

De acordo com relato das testemunhas, os jovens foram muito espancados e teriam sido asfixiados pelo gás lacrimogêneo e spray de pimenta ao serem encurralados em uma das vielas da favela.

A maioria dos mortos não morava em Paraisópolis, segundo os moradores.

Por não conhecerem as ruas da favela, correram justamente para uma viela que não tinha rota de fuga.

Uma senhora conta que os corpos ficaram espalhados pelo chão, vários deles na escada que dá acesso ao beco.

“Não consegui dormir depois das cenas que vi. Foi desesperador ver o que esses meninos passaram. Os PMs bateram sem dó. Mataram na porrada e com spray de pimenta e bombas de gás. Não foram pisoteados”, revela.

“Os meninos pediam socorro, estavam passando mal. Tinha muito gás lacrimogêneo, não dava para respirar. Sete já saíram daqui mortos. Alguns estavam com os lábios roxos.”

O processo de asfixiamento pode ter sido agravado pelo fato de a viela estar localizada há mais de um metro abaixo do nível da rua e entre altas paredes.

A moradora também desmente a versão policial de que os PMs perseguiam uma moto quando deram de cara com o baile funk.

“A história da moto é mentira, balela. Não tinha moto nenhuma.”

Outro morador que concordou contar o que viu, sem revelar o nome por temer pela vida, também contesta a versão policial.

“O que o delegado está falando é mentira. Eles já vieram determinados a matar a meninada na maldade. Encurralaram e bateram com cacetete de madeira na nuca, nas costas. Foi um massacre.”

Ele explica que viaturas da Força Tática teriam chegado primeiro ao local e só posteriormente é que chegou o reforço da Rocam, a ronda motorizada.

O morador também afirma que ninguém que estava no baile atirou contra os policiais. “Eles dizem que foram recebidos à bala, mas não foram.”

Valdemir José Trindade, o Guga, que é dirigente da associação de moradores União em Defesa da Moradia, conta que a polícia age com truculência contra os moradores de Paraisópolis há muito tempo.

Vivendo em Paraisópolis desde que nasceu, há 38 anos, ele recorda que em 2010, um grupo de extermínio integrado por PMs, conhecido como Bonde dos Carecas, agredia os moradores da favela.

“Cegaram inclusive uma menina com uma bomba. A Daiane era bonita e ficou revoltada por ter ficado cega de um olho. Se entregou às drogas e hoje mora no cemitério São Luiz.”

A família da jovem denunciou o caso e passou a ser ameaçada pelos policiais.

“A denúncia não deu em nada e os familiares tiveram de se esconder. Por isso as pessoas têm medo de falar”, ressalta.

Sobre o massacre deste domingo, Guga explica que vários dos feridos não estavam nem participando do baile.

“A rua faz uma encruzilhada. De um lado tem o baile funk, de outro tem forró, de outro tem samba, do outro tem barzinhos.”

Ele critica o preconceito contra o estilo musical. “Vai matar as pessoas porque estão ouvindo funk?”

Valdemir afirma que dias antes do massacre, áudios recebidos no whatsapp por ele e outros moradores alertavam para a chacina que estava prestes a ocorrer.

“Recebemos áudios dizendo que a polícia ia fazer uma tragédia na comunidade Paraisópolis de vingança. Mas ninguém acreditou.”

Ele não aceita a postura do governador João Doria (PSDB) frente ao massacre.

“O Doria mora aqui do lado, no Palácio (dos Bandeirantes). Não adianta dizer que lamenta. Ele está dando apoio para que isso aconteça. A Polícia Militar tem uma facção miliciana.”

Valdemir também critica a falta de áreas de lazer na favela para que os jovens possam se divertir.

A mesma preocupação é compartilhada pelo presidente da Associação, José Maria Lacerda, que mora em Paraisópolis há 40 anos.

“Se não dão espaço para os jovens se divertirem. Eles vão se divertir nos bailes funk. Eles não têm dinheiro para pagar entrada em salão, com o desemprego que está aí.”

“Se não tem espaço para eles se divertirem, eu sou a favor dos meninos (se divertirem no baile). O filho do pobre não tem direito a divertimento. A gente tem filhos jovens. Conforme aconteceu com o filho dos outros poderia ter acontecido com os meus.”

José Maria também contesta a versão policial sobre a existência de uma moto que teria irrompido pelo baile. “Como uma moto entra no meio de cinco mil pessoas e não atropela ninguém?”

Esse é o mesmo questionamento feito pelo ex-tenente-coronel Adilson Paes de Souza.

“Há uma falha na narrativa, não faz sentido. Entraram com a moto no meio de cinco mil pessoas? E onde está a moto? Naquela confusão dizem que encontraram o cartucho de uma bala. Mas não encontraram uma moto?”, indaga o militar, que saiu da corporação por não concordar com o modo de atuação da tropa.

Paes de Souza preferiu trilhar o caminho universitário. Mestre em Direitos Humanos pela Faculdade de Direito da USP, diz que a versão da PM tem muitas lacunas.

“Essa história contada pela polícia está muito estranha. Há uma falha na narrativa, não faz sentido. Tudo leva a crer que foram lá para acabar com o baile funk.”

“Foi uma ação abusiva. Os PMs deveriam ter sido presos em flagrante”, enfatiza o ex-militar.

Ele defende a entrada do Ministério Público na apuração do massacre.

“A polícia não admite suas falhas. Existe o espírito de corpo. Por isso, tem de ter uma investigação isenta. É imprescindível que o MP assuma as rédeas (do processo).”

“Não dá para deixar a investigação só nas mãos da Polícia Civil e da PM. Já tem delegado dizendo que foi uma fatalidade. E a PM diz que vai investigar, mas afirma que os policiais se defenderam. Já estão emitindo juízo (em apoio aos policiais).”

O presidente do Condepe (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), Dimitri Sales, quer saber quem ordenou e quem executou a operação que ele classifica como desastrosa.

“Não dá para aceitar a versão da PM de que foram atacados. As pessoas caíram em uma emboscada. Não havia rotas de fuga”, critica.

Ele conta que o órgão já solicitou o laudo das nove mortes que ocorreram no massacre.

De acordo com Dimitri, os legistas não estavam fotografando os cadáveres. “Pedimos para fazerem as fotos para ver em que condições os corpos ficaram.”

Débora Maria da Silva, fundadora do Movimento Mães de Maio, ficou estarrecida com o massacre dos nove jovens.

Há mais de 13 anos ela perdeu o filho assassinado por policiais militares no episódio que ficou conhecido como Crimes de Maio.

Ela considera que a não punição dos culpados pelas 564 mortes, que ocorreram em maio de 2006, é combustível para o massacre que ocorreu no último domingo.

“É revoltante. Se tivesse ocorrido a punição, não teriam novas mortes nos becos e nas vielas das favelas.”

E antecipa que as Mães de Maio vão recorrer ao Tribunal Internacional de Haia para buscar justiça para a morte de seus filhos.

Débora considera que o massacre de Paraisópolis pode contribuir para sensibilizar as autoridades contra o projeto de excludente de ilicitude, que libera policiais de responderem pelos crimes que cometerem.

“Esse massacre demonstra que o excludente de ilicitude é uma carta branca para os policiais matarem. Vamos barrar isso.”

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