Moro e os dedos que prometiam a salvação do governo Bolsonaro. Por Moisés Mendes

Antes de assumir o Ministério da Justiça, Sergio Moro esteve na casa de Bolsonaro, no famoso condomínio da Barra da Tijuca. Foi ali, no dia 1º de novembro de 2018, que ele aceitou o cargo e lançou o aceno com os dedos, ao lado de Paulo Guedes.

Não era uma saudação simples com a mão estendida, era com os dedos mesmo. Tinha uma certa leveza, uma imitação da bênção de Jesus Cristo e tantos outros que tentaram copiá-lo.

Gandhi gostava de fazer essa saudação, usando quase sempre dois dedos. Moro tinha as versões com dois e com três dedos.
Havia no gesto uma tentativa de transmitir transcendência. Moro apresentava-se como o ser iluminado do governo Bolsonaro, o que veio para curar.

Estava ali uma marca, um logotipo, uma imagem para ficar gravada, mesmo que já fosse batida. João Paulo II também gostava de usá-la.

Mais um pouco e alguém imaginaria um facho de luz bíblico saindo da mão do ex-juiz. Até ao encerrar as entrevistas, que costumava conceder em pé e num púlpito, como se estivesse abençoando, Moro erguia a mão com os dedos cuidadosamente organizados. E abençoava a imprensa amiga.

O indicador e o médio mais na vertical, levemente dobrados, o anelar um pouco solto, no meio do caminho, e o mínimo, o mindinho, recolhido. Se virasse santo, Moro já teria uma imagem pronta e cheia de simbolismos.

Mas aos poucos essa leveza inicial foi sendo consumida pelo estresse das relações problemáticas com Bolsonaro, com a Polícia Federal e com os rolos pesados dos filhos do homem com milicianos.

Moro deixou de saudar os jornalistas e quem estava ao redor. O gesto, que às vezes parecia querer confundir como se fosse também um V de vitória, perdeu-se num desses acenos, enquanto o poder se esfarelava aos seus pés.

Moro desistiu de santificar. Ninguém sabe se ele poderá, como político, retomar uma imagem ícone de alguma coisa, que hoje talvez nem Moro saiba direito o que possa ser.

Como ex-bolsonarista e agora como antibolsonarista, o ex-juiz terá de se acomodar em espaços congestionados. Deixa a extrema direita, onde fez o jogo de Bolsonaro enquanto esteve no governo e defendeu até os tiros para matar, e corre para o centro.

Fica sem o bolsonarista de raiz, mas de imediato parece que ganha mais do que perde. A classe média que estava com Bolsonaro, como órfã com a morte dos tucanos, tem em quem se agarrar.

As pesquisas o favorecem, junto com a incapacidade de Doria Junior, Luciano Huck e outros de se apresentarem com candidatos com alguma consistência.

Moro é com certeza um ex-juiz, um ex-chefe de Deltan Dallagnol, um ex-ministro da Justiça e um ex-candidato a ministro do Supremo, mas não sabe direito o que pode vir a ser.

Está aí, com os 10 dedos e uma imagem que poderá resgatar. Lula se elegeu com nove. Mas Lula, que foi caçado por ele e sobreviveu, nunca precisou ensaiar nada para que sua mão esquerda fosse também sua marca.

Moro apresenta-se como o novo, mas que se expressa com o que existe de mais antigo e manjado, até quando acena para alguém.

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