Moro faz em público o que Joesley só teve coragem de fazer nos subterrâneos do Jaburu. Por Carlos Fernandes

Moro com Álvaro Dias e o maestro João Carlos Martins na festa da Istoé

O circo montado pela revista IstoÉ! para a entrega da premiação dos ilustres agraciados com o título “Brasileiros do Ano 2017” serviu, para além da confirmação do quão descolada está dos tempos em que vivemos, para ser mais um palco da degradação pública de nossas instituições.

Não bastasse a insignificância política, econômica, social, educacional e cultural da imensa maioria de seus “escolhidos” – uma boa parte já bastante afeiçoada aos gracejos dos holofotes da grande mídia brasileira –, o evento tornou-se, já há muito, uma extensão da politicagem rasteira tanto praticada no submundo do poder nacional.

Não é surpresa, pois, que tenha sido justamente neste evento que o mais festejado dos atuais “super-heróis” de nossa indefectível classe média, o também juiz federal Sérgio Moro, fez uso de sua palavra para escandalizar de vez o resto de decência que ainda sobrou das ruínas desse país destroçado pelo desprezo às regras democráticas.

Como que num surto de completo desprezo pela sagrada independência dos poderes, Moro não se intimidou ao pedir ao denunciado Michel Temer que utilizasse de seu poder para intervir nos julgamentos do Supremo Tribunal Federal.

Referia-se, claro, ao novo julgamento que pode reverter a possibilidade de prisão de réus condenados em segunda instância. O próprio Girolamo Savonarola não teria descido tão baixo para saciar sua sede inquisitória.

A coisa continuou.

Inebriado pelos efusivos aplausos que emergiam de uma plateia bestificada pela degradação ética pela qual passamos, o herói da paulicéia mambembe aproveitou o momento para fazer o seu lobby e arrecadar mais verbas para o que considera, acredito eu, suas próprias empresas.

Dirigindo-se para o ministro da fazenda, Henrique Meirelles, a quem atribuiu um “magnífico trabalho”, o agora também especialista em economia exigiu mais verbas para a Polícia Federal.

Não entendeu – os se fez de desentendido – que falava para uma profusão de criminosos investigados na sua própria operação Lava Jato cujos interesses apesar de serem infinitos, passam longe de querer fortalecer a PF.

Gafes e constrangimentos à parte, a noite foi uma festa à altura de seus partícipes.

Guardadas as devidas proporções impostas pelas condições e particularidades de cada personagem, o que Moro fez em público e frente as câmeras, foi exatamente o mesmo que Joesley Batista fazia na garagem do Palácio do Jaburu nos seus encontro noturnos com Michel Temer.

Utilizar do cargo para intervir nas investigações, processos e julgamentos que faz parte no judiciário e exigir dinheiro e benefícios para suas empresas eram pedidos recorrentes do senhor Joesley Batista ao presidente da República.

Ele, ao menos, meio que seguindo o “protocolo” das negociatas de Brasília, os fazia às escondidas. Moro, por sua vez, sequer se ruboresce ao querer se meter em assuntos que não estão em absoluto sob sua competência.

Isso é o que resultou do poder dado pela grande imprensa brasileira a um servidor público que deveria ater-se exclusivamente a fazer uso da lei para que a justiça se exerça plenamente, sem autopromoção, sem espetacularidades, com isenção e sobriedade. Exatamente o que se espera de um representante honesto e competente do poder do Estado.

Na contramão desse funcionário exemplar, forjaram, na ânsia de redimir os próprios pecados, um monstro que já não reconhece mais os seus próprios limites.

Cabe agora a todos, desconstruí-lo. Afinal, como, sem querer, nos ensinou o hipócrita Titirica: pior do que está, pode ficar.

Em tempo. Uma única mulher das escolhidas para ser a “Pessoa do Ano” da revista Time por não se calar frente aos abusos sexuais que sofrera, já supera em muito todos os agraciados pela revista IstoÉ! de 2017.

Ao folhetim brasileiro, um único conselho: melhore.

 

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