“Moro foi recompensado por Bolsonaro. Lula não pode ser preso de novo”, diz senadora francesa ao DCM

A senadora Laurence Cohen

A líder do grupo França-Brasil no Senado francês, Laurence Cohen, celebra a libertação de Lula mas chama a atenção para os próximos passos dessa batalha política. Para ela, o ex-presidente foi condenado sem provas e “isso não muda” com o fato de estar livre. Na sua visão, a imparcialidade da justiça ainda não é uma garantia.

Nesta entrevista ao DCM, entre uma sessão e os trabalhos no Senado para definir o orçamento público, Cohen afirma que a prisão de Lula não foi somente uma tentativa de impedi-lo de concorrer às eleições, mas de acabar com ideias de esquerda, com o que ele representa para a América Latina e o mundo. “Lula ultrapassa as fronteiras do Brasil”, diz.

Ela aponta o preocupante cenário social e ambiental com que o ex-presidente tem de se confrontar frente às políticas do atual governante.

DCM: O que significa para a política brasileira e internacional a libertação de Lula?

Laurence Cohen: Por todos aqueles que se mobilizaram por sua libertação é uma primeira etapa importante. É uma decisão do Supremo Tribunal Federal, que beneficiou Lula, e que beneficia a outros prisioneiros, ao menos 5 mil, e permite respeitar a presunção de inocência, o que me parece interessante e importante.

Depois, é preciso continuar a batalha para que ele não seja de novo preso, que seja uma verdadeira liberdade, sem suspeitas. Antes de tudo, eu já disse várias vezes, ele foi acusado de corrupção, mas nada foi provado.

Para mim, o julgamento contra Lula foi um julgamento político. Ele foi condenado sem provas. Isso não muda.

Quiseram criminalizá-lo e criminalizar também a esquerda como um todo. O juiz Sergio Moro foi acusado de não ter sido imparcial. Ele se tornou ministro de Bolsonaro. Isso mostra que ele foi “recompensado” pelo serviço que ele prestou a Bolsonaro e seus amigos.

Eu fui impedida de visitar Lula em 2018 porque só havia um dia de visita para pessoas externas e eu não estava presente nesse dia, o que mostra uma perseguição política contra ele.

Lula foi preso para não concorrer às eleições, mas o objetivo era também quebrar não apenas um homem, mas ideias de esquerda e da história que ele trazia para a América Latina e para o mundo como um todo. Lula ultrapassa as fronteiras do Brasil.

Assim como a prefeita de Paris disse desejar recebê-lo em Paris pois ele é cidadão honorário aqui, a senhora também pretende encontrá-lo?

Laurence Cohen: Eu penso que Lula, nesse momento, deve ter muitas coisas a fazer no Brasil, para trabalhar com seus advogados, todos os seus apoiadores, para restabelecer primeiramente seus direitos, sua saúde, contra a política conduzida pelo presidente Bolsonaro, que minam todas as políticas sociais implementadas por Lula e Dilma Rousseff, que são não apenas políticas sociais mas também ambientais.

Há uma catástrofe acontecendo em grande parte da Amazônia via grandes proprietários de terra, produtores de soja, contra as populações autóctones. Populações autóctones, por sua vez também criminalizadas, alvos de crimes encomendados. Eu penso que Lula, neste momento, deve estar muito ocupado e preocupado pela situação que vive o Brasil para vir à Europa.

DCM: Como a senhora avalia a reação na classe política francesa?

Laurence Cohen: Não vou falar pela classe política francesa. Para os progressistas, houve uma grande satisfação. O que me parece importante dizer sobre o combate que eu faço pela democracia, na França e no Brasil, é de continuar a trabalhar com os progressistas.

Estive em contato com representante da APIB (Articulação dos Povos Indígenas do Brasil), atualmente em um tour pela Europa, no décimo país, dentre doze, denunciando a situação atual.

Como senadora, vou continuar trabalhando para que meus colegas senadores e senadoras possam lhes acompanhar e proteger de maneira simbólica das ameaças de que são alvo, visto que houve indígenas assassinados.

DCM: De que maneira percebe os últimos acontecimentos políticos na Bolívia?

Laurence Cohen: Há uma ascensão da extrema direita no mundo por toda parte, o que é preocupante.

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