Moro vira bate-pau do capitão: Lula não pode entrar nessa dividida. Por Ricardo Kotscho

Sérgio Moro e Jair Bolsonaro. (Marcos Correa/PR)

PUBLICADO NO BALAIO DO KOTSCHO

POR RICARDO KOTSCHO

No Fantástico de domingo, a Globo mostrou qual é o jogo: colocou na sequência os ataques de Bolsonaro e Lula à emissora para mostrar que os dois são iguais e ela é isenta.

Daqui para a frente, como já fez no fim de semana, a tendência da imprensa é mostrar que os dois são igualmente radicais e perigosos e a salvação do país é o “centro democrático” pregado por FHC, Doria, Huck e companhia bela.

Lula não pode entrar nessa dividida porque é muito mais que eles todos juntos e agora pode falar diretamente com quem interessa: sua excelência, o eleitor brasileiro, sem dar bola para a torcida das milícias virtuais.

É natural e humano que em seus dois primeiros discursos o ex-presidente desabafasse toda sua indignação, após passar 19 meses preso injustamente, graças a um conluio da Lava Jato com a mídia.

Agora, o que todo mundo espera de Lula é apontar caminhos para tirar o Brasil do buraco e reacender a esperança.

Bolsonaro já escalou o ex-juiz que virou ministro da Justiça para bater em Lula, enquanto o capitão e se resguarda como “grande estadista” que pensa ser.

O que eles querem é exatamente isso: que o ex-presidente morda a isca e radicalize nos seus discursos, para atiçar os militares e seus fanáticos seguidores.

Numa operação casada, articulam no Congresso a volta da prisão em segunda instância, que foi derrubada na semana passada pelo STF.

Depois de transmitir ao vivo na Globo News os dois discursos após a sua libertação, já apagaram Lula do noticiário.

Todos os comentaristas já foram convocados para criticar a “polarização” e montar o jogral “contra a impunidade”.

É isso que vai dominar os noticiários nas próximas semanas, como fizeram na campanha pela aprovação da reforma da Previdência.

Correm contra o tempo antes que Lula consiga novamente mobilizar a oposição e formar uma frente democrática de resistência ao arbítrio e à perda de direitos.

O jogo é pesado e não adianta alimentar ilusões.

Quem derrubou Dilma e elegeu Bolsonaro, ou seja, a grande aliança do “centro” com a extrema direita, vai se unir novamente para evitar que o PT catalize a insatisfação popular já nas eleições do ano que vem.

Os ventos mudaram. Fracassaram olimpicamente os protestos do fim de semana contra o STF e Lula, convocados pelos movimentos MBL e Vem Pra Rua, aquela mesma turma dos patos amarelos que marchou contra Dilma e bateu panelas contra a corrupção.

Lula já esta outra vez com a agenda lotada e marcou sua primeira viagem ao nordeste no próximo domingo, para participar do Festival Lula Livre no Recife, que já estava programado quando ele ainda não tinha saído da prisão.

Segundo a direção do PT, como informa o Painel da Folha, “a expectativa é que o evento seja transformado em um ato de comemoração pela liberdade do ex-presidente e que ele aproveite o palco para agradecer e falar ao povo nordestino”.

Se o governo quer guerra, a melhor resposta de Lula é fazer uma grande festa popular no Recife.

Afinal, foi lá, na campanha de 2002, numa conversa ao pé do palanque, que um petista anônimo lhe falou para ser mais “Lulinha, paz e amor”, em vez de atacar os adversários.

Lula gostou da ideia, amenizou seu discurso, e foi eleito presidente pela primeira vez.

Chega de tristeza, a esperança voltou.

Vida que segue.

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