Morte de criança em Serra Leoa expõe avanço de rituais clandestinos e falhas de investigação

Atualizado em 30 de novembro de 2025 às 13:06
Rua de Serra Leoa
Rua de Serra Leoa – BBC

O filho de Sally Kalokoh, Papayo, foi morto com 11 anos em Serra Leoa, quatro anos atrás. A suspeita registrada pela família é de assassinato para rituais de magia, prática conhecida no país como juju. Até hoje, ninguém foi responsabilizado pela morte do menino, e a mãe relata que vive um período de incertezas sobre o caso.

“Hoje, estou sofrendo. Eles mataram meu filho e, simplesmente, está tudo em silêncio”, disse Kalokoh à BBC. Segundo ela, o corpo do menino foi encontrado com órgãos vitais removidos, além dos olhos e de um dos braços. Papayo havia saído para vender peixe no mercado e desapareceu. Sua família passou duas semanas realizando buscas até localizar o corpo em um poço.

Kalokoh afirma que famílias costumam alertar crianças a não aceitarem presentes de desconhecidos e evitar locais isolados. Segundo ela, relatos desse tipo são frequentes no país, especialmente em regiões onde há maior presença de curandeiros tradicionais e praticantes clandestinos de rituais.

Rituais de magia e dificuldades de investigação

O crime aconteceu em Makeni, no centro de Serra Leoa. Relatos envolvendo mortes associadas ao juju são recorrentes, mas raramente investigados de forma completa. No caso de Papayo, a polícia não confirmou se houve motivação ritualística, classificação usada quando partes do corpo são removidas para rituais clandestinos.

Os praticantes prometem prosperidade e poder aos clientes, que pagam valores elevados acreditando que partes humanas fortalecem feitiços. As autoridades enfrentam limitações estruturais: há apenas um patologista para uma população de 8,9 milhões de pessoas, o que reduz a capacidade de coleta de evidências. Além disso, a crença em bruxaria é disseminada no país, incluindo entre policiais, o que dificulta investigações.

Infiltração da equipe da BBC e encontro com praticantes de juju

A equipe do programa BBC Africa Eye investigou a prática clandestina e encontrou dois homens que afirmaram realizar rituais usando partes humanas. Ambos relataram fazer parte de redes extensas e mencionaram ter clientes em diferentes países da África Ocidental. A BBC não conseguiu confirmar essas declarações.

Para documentar o funcionamento dessas redes, um integrante da equipe, sob o pseudônimo Osman, se passou por político disposto a recorrer a sacrifícios humanos para obter poder. A primeira viagem ocorreu no distrito de Kambia, no norte do país, onde encontraram um praticante chamado Kanu em um santuário escondido na mata.

Kanu usava uma máscara vermelha cobrindo todo o rosto e declarou ter vínculos com políticos de Guiné, Senegal e Nigéria. Ele afirmou que seu santuário recebe mais visitantes durante períodos eleitorais. Em uma segunda visita, mostrou ao repórter disfarçado um crânio humano e indicou um fosso onde, segundo ele, seriam penduradas partes humanas usadas em rituais.

O preço citado por Kanu para fornecer partes do corpo de uma mulher era de 70 milhões de leones (cerca de US$ 3 mil). Após essa etapa, a equipe optou por não retornar ao santuário e entregou as evidências à polícia local.

Presidente do Conselho de Curadores Tradicionais de Serra Leoa, Sheku Tarawallie, falando
Presidente do Conselho de Curadores Tradicionais de Serra Leoa, Sheku Tarawallie – BBC

Crescimento de curandeiros tradicionais e denúncias internas

Alguns praticantes de rituais se identificam como herbalistas, o mesmo termo usado para curandeiros tradicionais que atuam com medicina baseada em plantas. Serra Leoa viveu uma guerra civil na década de 1990 e enfrentou epidemias severas, como o surto de ebola. Dados da OMS mostram que, em 2022, havia cerca de mil médicos registrados no país, enquanto estimava-se a presença de 45 mil curandeiros.

A dependência da população por esses profissionais é alta, sobretudo em comunidades rurais. Eles costumam tratar doenças comuns e transtornos mentais em santuários onde elementos culturais e espirituais são presentes.

Sheku Tarawallie, presidente do Conselho de Curandeiros Tradicionais, afirma que praticantes “diabólicos” estão manchando a reputação dos herbalistas. “A pessoa comum não compreende e, por isso, nos classifica a todos como maus herbalistas. Somos curadores, não assassinos”, declarou. Ele tenta implementar, com apoio do governo e de uma ONG, uma clínica de medicina tradicional formalizada.

Tarawallie sustenta que alguns assassinatos têm motivações ligadas ao poder e ao dinheiro. Segundo ele, certos indivíduos recorrem ao sacrifício humano em busca de liderança e influência.

Falta de dados confiáveis e impunidade

Não há número oficial de mortes associadas a rituais em Serra Leoa. No país, a população é composta majoritariamente por muçulmanos e cristãos. Segundo o pesquisador Emmanuel Sarpong Owusu, da Universidade de Aberystwyth, no Reino Unido, muitos casos deixam de ser classificados como assassinatos para rituais e são registrados como acidentes, ataques de animais, suicídios ou mortes naturais. Ele afirma que a maior parte dos criminosos não é presa.

Novo suspeito e operação policial

A reportagem identificou outro suspeito em Waterloo, região conhecida por consumo de drogas e criminalidade. O homem, que se apresentou como Idara, afirmou ter até 250 herbalistas subordinados. Ele relatou trabalhar com partes humanas fornecidas por colaboradores que capturariam vítimas mediante solicitação.

Durante uma das visitas da equipe da BBC, Idara mostrou áudios de supostos integrantes de sua rede dizendo estar preparados para sair à noite em busca de uma vítima. Após nova ligação do suspeito informando que uma pessoa havia sido identificada, a equipe contatou o comissário de polícia Ibrahim Sama.

A operação policial teve participação de Tarawallie. Durante a batida, Idara foi encontrado escondido no teto, armado com uma faca. Policiais relataram ter localizado ossos, cabelos humanos e um material semelhante a poeira de cemitério. Idara e outros dois homens foram presos e acusados em junho de prática de feitiçaria e posse de armas tradicionais usadas em assassinatos. Eles se declararam inocentes e aguardam novas investigações em liberdade sob fiança.

Casos paralisados e dificuldades das famílias

A BBC não obteve novas informações da polícia de Kambia sobre Kanu. Em outro caso, um professor universitário desapareceu em Freetown dois anos atrás. Seu corpo foi encontrado enterrado em um local identificado pela polícia como santuário de um herbalista em Waterloo. O processo foi encaminhado para julgamento em agosto de 2023, mas não houve avanço e os detidos foram liberados sob fiança.

Durante a investigação da BBC, a autora relata que sua prima, Fatmata Conteh, de 28 anos, foi morta em Makeni. A vítima foi encontrada ao lado da estrada, no dia seguinte ao aniversário, e moradores mencionaram casos recentes de outros corpos abandonados na mesma área. Tinha dentes da frente faltando, o que levantou suspeitas de morte para ritual. A família arcou com os custos de transporte do corpo para autópsia, mas o exame foi inconclusivo e não houve prisões.

Assim como no caso de Papayo, famílias afirmam enfrentar dificuldades para obter respostas das autoridades, o que mantém a sensação de insegurança em comunidades pobres e dependentes de serviços limitados de investigação.

Jessica Alexandrino
Jessica Alexandrino é jornalista e trabalha no DCM desde 2022. Sempre gostou muito de escrever e decidiu que profissão queria seguir antes mesmo de ingressar no Ensino Médio. Tem passagens por outros portais de notícias e emissoras de TV, mas nas horas vagas gosta de viajar, assistir novelas e jogar tênis.