
O número oficial de mortos após os dois terremotos que atingiram a Venezuela em 24 de junho chegou a 1.719, segundo a contagem mais recente das autoridades locais, mas especialistas em resposta a desastres afirmam que o balanço ainda pode subir por semanas e talvez nunca chegue a um total exato. Com informações do Globo.
Ilan Kelman, professor de desastres e saúde na University College London, afirmou em entrevista na segunda-feira que a dimensão da tragédia ainda não entrou nas estatísticas. “Infelizmente, veremos o número de mortos continuar a subir”, disse.
Emily So, professora de engenharia arquitetônica na Universidade de Cambridge, também prevê aumento significativo no número de vítimas. Ela citou o volume de desaparecidos, a destruição visível em edifícios e as dificuldades de acesso às áreas mais atingidas. “Tragicamente, enquanto os corpos não forem resgatados debaixo dos escombros, a contagem permanecerá baixa”, afirmou.
Kelman disse que não há como prever com precisão o patamar final de mortos e avaliou que existe grande probabilidade de o total jamais ser conhecido. Ele também citou como plausível, embora sombria, uma projeção preliminar do Serviço Geológico dos EUA segundo a qual as mortes poderiam ultrapassar 10 mil, com base na magnitude dos tremores, na densidade populacional e nas condições da infraestrutura local.
Busca em escombros e acesso a La Guaira atrasam balanço

Equipes de resposta costumam priorizar a busca por sobreviventes nos primeiros dias após um desastre, o que torna lento o trabalho de recuperação de corpos. O tamanho da área atingida amplia a demora: mais de 100 edifícios desabaram e outras centenas sofreram danos, enquanto análises citadas pela imprensa apontam que quase 60 mil prédios podem ter sido danificados ou destruídos, conforme o método e os critérios usados no levantamento.
La Guaira, estado mais atingido pelos terremotos, enfrenta obstáculos adicionais nas operações de socorro. A resposta sofreu atrasos por causa do trânsito na principal rodovia de acesso à região, da falta de maquinário pesado e da insuficiência de suprimentos médicos. O governo interino declarou a área como “zona de desastre”.
So afirmou que, mesmo em respostas bem organizadas, amigos, familiares e vizinhos sem treinamento retiram muitos sobreviventes dos escombros. “No entanto, a extensão dos danos e o colapso total de edifícios de concreto armado pesado tornam essa tarefa difícil sem o uso de maquinário”, acrescentou.
Kelman também apontou que outras pessoas podem morrer em consequência dos ferimentos, já que o sistema de saúde venezuelano opera no limite de sua capacidade. Em alerta paralelo sobre a crise humanitária, a ONU apontou escassez de alimentos e risco de doenças após os terremotos, enquanto o PNUD estimou danos de US$ 6,7 bilhões.
O professor atribuiu a escala provável de mortes a padrões precários de construção. Segundo engenheiros estruturais, muitos edifícios que desabaram tinham concreto frágil e reforço insuficiente de aço. “Nenhum edifício deveria ter desabado naqueles terremotos”, declarou Kelman. “Dispomos de todo o conhecimento, a ciência e a engenharia necessários para construir em zonas sísmicas sem que um terremoto resulte em um desastre catastrófico”.