Motociata de Bolsonaro tem 3% da adesão planejada

Do Jornalistas Livres:

A “motociata” organizada pelo presidente Jair Messias Bolsonaro foi um banho de água fria em seus apoiadores. Previam a presença de 400.000 motos. Compareceram apenas 12.000, ou 3% do que pretendiam. A decepção estava estampada nos rostos dos organizadores ao final do percurso, no Ibirapuera.

A praça Armando Salles de Oliveira, onde se localiza o Monumento às Bandeiras, o chamado “empurra-empurra”, tinha apenas ¼ de sua área tomada pela militância de direita e de extrema-direita. Ou seja, apenas 3.000 pessoas escutaram o “Mito” defendendo de cima de um carro de som, como sempre, a cloroquina e a ivermectina.

Tanto que Eduardo Bolsonaro, discursando depois do pai, reconheceu que muitos ali deviam estar se sentindo desanimados… Foi nesse diapasão da derrota que as redes sociais repercutiram a manifestação das motos em São Paulo.

E onde estavam os demais participantes da “motociata”? Estavam postados ao lado de suas motos, estacionadas na avenida Pedro Álvares Cabral, já que a área reservada para o comício de Bolsonaro não permitia a entrada das motocicletas. E eles não largaram suas motos. Nem pra ouvir o Messias pregar contra as vacinas, contra o isolamento social, contra o fechamento do comércio.

“A gente é conservador, é de direita, é capitalista e não damos mole pro amigo do alheio”, disse à reportagem dos Jornalistas Livres o feliz proprietário de um triciclo novinho Can-Am Spyder RT, que carrega propulsor de 1.330 cilindradas. O preço do brinquedo: R$ 120 mil.

Foi um show de motos reluzentes, Harley Davidson, Kawasaki, BMW R 1200 GS Adventure, Triumph Tiger Explorer XC, Yamaha Factor, e outras, que não saíam nunca do campo de visão dos seus donos ciosos, playboys mauricinhos engomados em trajes espaciais. Sim, donOs. Porque foi uma manifestação de homens, por homens e para homens como Bolsonaro. E de homens brancos, e sua esmagadora maioria. No máximo, via-se aqui e ali, uma mulher pregada na garupa de um piloto com jaqueta de couro.

Mas também tinha aqueles esquisitões barbudos e grisalhos, com longas cabeleiras, em velhuscas Harleys. A associação imediata é com o clube americano de motociclistas, conhecido como Hells Angels (Anjos do Inferno), sobre os quais Hunter S. Thompson escreve em seu livro “Hells Angels, medo e delírio sobre duas rodas” (1967). Thompson descreve a masculinidade tóxica dessa organização de motociclistas, que a um só tempo é obcecada por ânus e por símbolos fálicos –como Bolsonaro e seus filhos, aliás.

Segundo Hunter Thompson os Hells Angels são como “Gênghis Khan em um cavalo de ferro, um corcel monstruoso com um ânus faiscante”, referindo-se ao escapamento. Hummm. Mas também refere-se a esse estranho amor pelas máquinas potentes, cultivado por machões inseguros como são os fascistas, da seguinte forma:

(para eles) “A motocicleta é claramente um símbolo sexual. É um símbolo fálico. É uma extensão do pênis, uma protuberância que demonstra poder entre suas pernas”.

Perfeito! O ditador Benito Mussolini, além de Bolsonaro, também gostava de ostentar essa “protuberância que demonstra poder entre suas pernas”.

Nos Estados Unidos, os Hells Angels são tratados como gangues de estupradores, assassinos, gente fora da lei, um tipo de sindicato do crime… E racistas! E eles não fazem questão de esconder sua má índole: entre seus símbolos mais fortes estão a caveira com cabeleira flamejante, cruzes como as usadas pelos nazistas e os dois raios paralelos, que identificavam as SS de Hitler. No Brasil, imitadores dos Angels também usam esses símbolos, acompanhados de rótulos como “Infectante”, “Abutre’s” e “Bodes do Asfalto” (que mistura bolsonarismo com maçonaria), entre outros.

Jair Bolsonaro em concentração para “motociata”

Mas a principal diferença é que, no Brasil, esses caras são tratados como guardiões da moralidade fundamentalista das Igrejas Neopentecostais mais aguerridas. Não por acaso, a “motociata” de Bolsonaro combinava os Hells Angels com um movimento de motociclistas cristãos chamado “Acelera para Cristo”. Inferno e Cristo, na mesma frase.

Um sujeito, de colete de couro, fez questão de comparecer à manifestação pró-Bolsonaro a bordo de um triciclo forrado com dezenas de bonecas nuas, sujíssimas, pregadas à carroceria. Por cima delas, caveiras e dragões com chifres, pra mostrar quem manda. Ao alcance da mão do piloto, um taco de beisebol. Cena de trem fantasma de parquinho de diversões. Que medo!

Tudo tinha um ar de terrível degradação. A “motociata” de São Paulo saiu do Sambódromo, na zona Norte da cidade de São Paulo, deu um rolê pelo Rodoanel, e então se dirigiu ao Ibirapuera, local preferido por bolsonaristas desempregados, pobres, lúmpens, que montaram nas imediações da Assembléia Legislativa de São Paulo dois acampamentos imundos, decorados com faixas contra o governador João Doria e contra o PT –para eles duas forças “comunistas”.

Não é, contudo, o Parlamento paulista que atrai esses bolsonaristas sem motos e sem casas para aquelas imediações, e sim o quartel do Comando Militar do Sudeste. Toda semana eles promovem atos para incentivar a soldadesca à aventura de uma “Intervenção Militar com Bolsonaro”. Também querem um novo o Ato Institucional número 5, aquele que inaugurou o período mais violento da Ditadura Militar (1964-85).

A manifestação pró-Bolsonaro foi praticamente ignorada pela população em geral. Na avenida Paulista, enquanto os Hells Angels locais circulavam no eixo Norte-Sul da cidade, ciclistas passeavam tranquilamente, alheios ao ronco dos motores. Entregadores de aplicativos, que compõem a maior parte da frota de um milhão de motos existentes na cidade, trabalhavam como sempre, atentos aos chamados de seus celulares. Resultado: não se viam os imensos cubos de cores chamativas da Rappi, ou do Ifood, circulando na “motociata”com Bolsonaro.

Também continuou funcionando normalmente o Dinner in the Sky, plataforma içada a 50 metros de altitude, em que 22 comensais comiam entrada, prato principal e sobremesa, pagando cada um a salgada quantia de R$ 440. Tudo isso com vista privilegiada para o desfile de motos e para Bolsonaro.

A cidade, contudo, pagou um preço alto pela mobilização. Os 6.000 policiais da PM convocados para garantir a segurança do evento trancavam ruas, avenidas e eixões da cidade, causando um congestionamento impressionante em plena manhã de sábado do Dia dos Namorados. Os comerciantes que Bolsonaro tanto diz defender pagaram o pato. Para cúmulo do desgosto, o erário público foi o financiador de 1,5 km de gradis, espalhados pela extensão do percurso. Valor pago pelo cidadão paulista: R$ 75.243,17. Dinheiro seu, meu, nosso, que queremos o fim do governo Bolsonaro.

No final do evento, senhoras vestidas com camisetas da seleção, a maioria sem máscara, que moram nos bairros “nobres” de Moema ou Paraíso, saíram a pé para suas casas. Encontraram três viaturas da Polícia Rodoviária Federal com seis agentes “gatíssimos”, como uma delas me assegurou, cada um portanto os moderníssimos fuzis AR, recém-comprados pela força. Necessário tirar fotos com eles e os netos.

Foi lindo, só que não.

Fora Bolsonaro!

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