Mourinho é o retrato acabado do perfeito idiota racista europeu. Por Kiko Nogueira

Atualizado em 19 de fevereiro de 2026 às 7:52
Vini Jr e Mourinho após o gol do Real Madrid. Foto: Angel Martinez/Getty Images

O jogo conturbado em Lisboa, marcado por versões conflitantes e à espera da apuração sobre o episódio envolvendo o argentino Gianluca Prestianni, trouxe à tona algo que não admite relativização: a tentativa de sugerir que Vinicius Jr teria “provocado” o racismo que sofre.

Essa linha de raciocínio, ecoada por José Mourinho, técnico do Benfica, não é apenas equivocada — é sintoma de um pensamento ultrapassado que insiste em deslocar a culpa do agressor para a vítima. Racismo não é reação a drible, comemoração ou palavra dita em campo. Racismo é escolha de quem ofende.

Vinicius afirmou ter sido alvo de ataque racista durante a partida. Prestianni negou e disse que houve mal-entendido. O caso será analisado pela UEFA.

Enquanto a investigação segue, um ponto permanece inalterado: nada do que um jogador faça em campo serve de justificativa para insulto racial. A responsabilidade pertence exclusivamente a quem pratica o ato.

Se Mourinho optou por insinuar que Vinicius “incita” reações, Kylian Mbappé seguiu caminho oposto. O atacante francês declarou apoio público ao companheiro e afirmou que ninguém tem o direito de determinar como ele deve celebrar seus gols. Também disse ter ouvido a ofensa repetidas vezes.

A postura de Mbappé foi direta: não há comportamento esportivo que autorize racismo.

Mourinho afirmou que “algo acontece em todo estádio” onde Vinicius joga e concordou quando questionado se o brasileiro teria incitado a torcida. Em outro momento, mencionou Eusébio para sustentar que o Benfica não seria racista.

O argumento é frágil. A existência de um ídolo negro na história de um clube não elimina a possibilidade de atos racistas cometidos por indivíduos. Ninguém acusou a instituição como um todo. O debate diz respeito a condutas específicas.

Ao sugerir que o comportamento de Vinicius contribui para as agressões que recebe, Mourinho revive uma narrativa antiga: a de que a vítima deveria agir de modo diferente para evitar o ataque. Essa lógica desloca o foco do agressor e normaliza o preconceito.

Após o jogo, Vinicius declarou que racistas são covardes e que contam com proteção de quem deveria puni-los. Questionou o cartão amarelo recebido por comemorar o gol e criticou o protocolo adotado na partida.
O técnico do Real Madrid, Álvaro Arbeloa, foi visto consolando o atacante após o tumulto.

O episódio reforça uma discussão que o futebol europeu ainda insiste em tratar de maneira ambígua. Não existe “provocação” capaz de explicar racismo. Quando uma figura experiente como Mourinho sugere o contrário, expõe não apenas um erro de análise, mas um atraso moral incompatível com o tempo presente.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.