MP abre investigação sobre show de Gusttavo Lima que custou R$ 1,5 milhão ao Mato Grosso

Atualizado em 28 de abril de 2026 às 21:08
Tudo em família: ex-governador de MT Mauro Mendes contratou o amigo pessoal Gusttavo Lima para fazer um show por R$ 1,5 milhão; na foto, governador, sua esposa e filhos recebem o cantor em jantar familiar (crédito: divulgação)

O Ministério Público do Estado de Mato Grosso instaurou um inquérito para investigar a contratação no final do ano passado, por parte do governo estadual de MT, do cantor Gusttavo Lima, por R$ 1,5 milhão, para que o sertanejo bolsonarista realizasse um único show na capital Cuiabá, no dia 19 de dezembro de 2025.

A 36ª Promotoria de Justiça Cível, autora da ação, argumenta que há necessidade de se verificarem a legalidade e a moralidade administrativa na contratação do artista, além de registrar o fato de que a contratação foi feita com dispensa de licitação, beneficiando um cantor que é assumidamente amigo pessoal do então governador que assinou o contrato, o bolsonarista e pré-candidato ao Senado Mauro Mendes (União).

Em março do ano passado, Lima foi jantar na casa do então governador, em evento pessoal que foi registrado pela então primeira-dama de Mato Grosso, Vírginia Mendes, em suas redes sociais, com a foto e o texto que seguem abaixo:

“Que honra e alegria receber em casa um amigo tão especial como você, @gusttavolima! Sua presença ilumina qualquer lugar, e hoje não foi diferente. Risadas, histórias e claro uma boa comida e boa conversa!”

Gusttavo Lima janta na casa de Mauro Mendes, que o contrataria dois meses depois para fazer um show em Cuiabá recebendop R$ 1,5 milhão de dinheiro público (crédito: arquivo pessoal de Virgínia Mendes)

A contratação foi feita pela Secretaria de Estado de Cultura, Esporte e Lazer (Secel). O contrato recebeu o nº 061/2025/Secel. O que chamou a atenção é que a contratação do cantor foi realizada na modalidade de inexigibilidade de licitação. Isso ocorre quando não há possibilidade de competição, considerando nomes consagrados pela opinião pública.

O promotor Clóvis de Almeida Júnior, do Núcleo de Defesa do Patrimônio Público e da Probidade Administrativa, disse que a abertura da investigação é pela “necessidade de zelar pelo patrimônio público e pela transparência na gestão dos recursos estaduais”.

Apesar da entrada “gratuita” na pista, e o valor do cachê, pago diretamente pelo Governo do Estado, os organizadores do evento também lucraram com a venda de espaço no camarote e nos “bangalôs”. Ingressos foram cobrados e engordaram o cachê do cantor e da empresa contratada, sem qualquer divisão dos valorfes com o governo estadual.

O contrato do Governo de Mato Grosso contraria a Lei 12.082/2023, sancionada pelo próprio Mauro Mendes, que limita em R$ 600 mil, o repasse de recursos estaduais para realização de shows e eventos em Mato Grosso. A lei determina que aqueles que descumprirem a norma terão a prestação de contas reprovadas “sem prejuízo de outras medidas cabíveis”.

A norma, no entanto, tem um dispositivo curioso: o próprio governador pode “revogá-la”, se quiser fazer contratações em valores mais altos. Apesar disso, não foi publicado qualquer documento no Diário Oficial do estado invocando esse dispositivo por parte do governador.

No Diário Oficial, foi publicado apenas o extrato do contrato. O contrato em si, onde é possível verificar detalhes do negócio, não foi publicado no Portal da Transparência do Governo do Estado, como determina a lei.

O Extrato do Contrato nº 061/2025/SECEL, com valor total de R$ 1.500.000,00, foi firmado entre a Secel e a empresa Balada Eventos e Produções Ltda (CNPJ 21.363.253/0001-08) para a “contratação de apresentação musical do artista Gusttavo Lima”. O documento estabelece um período de vigência de 90 dias, a partir de 18 de dezembro de 2025.

O governo do estado não informa à população quanto custou ao todo o “show gratuito” de Gusttavo Lima. Além da montagem do palco e demais custos ligados à produção do evento, a Polícia Militar mobilizou 538 policiais, sendo agentes da Força Tática, das Rondas Ostensivas Tático Móvel (Rotam), da Companhia de Rondas e Ações Intensivas e Ostensivas (Raio), do Batalhão de Operações Especiais (Bope), do Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPMTran), além da Cavalaria Montada.

O Corpo de Bombeiros disponibilizou 115 homens, que atuaram juntamente com o Serviço Móvel de Urgência (Samu), com quatro viaturas de salvamento e uma de combate a incêndio, além de uma ambulância avançada, três básicas e seis motos-resgate do Samu.