
A operação deflagrada nesta semana contra o Banco Master teve como base suspeitas de um esquema de fraude para desvio de recursos que pode chegar a R$ 5,7 bilhões. A apuração envolve uma clínica médica e um hospital infantil localizados em Contagem, na região metropolitana de Belo Horizonte, segundo documentos da investigação.
De acordo com decisão judicial obtida pela colunista do UOL, Natália Portinari, o inquérito conduzido em 2024 pelo Ministério Público Federal em São Paulo apontou que o banco direcionou parte relevante dos valores captados por meio de CDBs para fundos de investimento dos quais era cotista único.
Esses fundos, na sequência, passaram a adquirir títulos emitidos por empresas ligadas aos próprios sócios da instituição. A investigação descreve que essas empresas mantinham “vínculos societários ou relações pessoais com os sócios do Banco Master”.
Um dos repasses identificados foi uma transferência de R$ 9 milhões, feita por um intermediário, para Henrique Vorcaro, pai de Daniel Vorcaro, o que, segundo o MPF, reforça os indícios de desvio de recursos. Entre os casos analisados está o da Clínica Mais Médicos, que emitiu R$ 361 milhões em notas comerciais “sem quaisquer garantias”.
Conforme o inquérito, a empresa possuía capital social zero e uma dívida 6.500 vezes superior à sua receita anual bruta, que somou R$ 54 mil em 2023. Para os investigadores, os números indicam “uma alavancagem manifestamente incompatível com qualquer parâmetro de viabilidade econômica”.
A presidente e sócia da clínica, Valdenice Pantaleão, foi alvo de busca e apreensão. Segundo o MPF, “apesar de presidir uma sociedade que captou milhões, (Valdenice) não possui patrimônio e foi beneficiária de auxílio emergencial em 2020 e 2021”, o que, na avaliação dos procuradores, demonstra que ela atuava como interposta pessoa, ou “laranja”.

O mesmo padrão teria sido reproduzido pelo Hospital da Criança de São José, também em Contagem, que emitiu R$ 372 milhões em notas adquiridas por fundos ligados ao Master. A investigação aponta ainda que outras empresas vinculadas aos sócios, como Holding AF S.A. e Simetria Planos de Saúde Eireli, adotaram mecanismo semelhante de emissão de títulos comprados pelos fundos do banco.
No total, dos mais de R$ 3,5 bilhões aplicados pelo Master em fundos exclusivos, cerca de R$ 1,8 bilhão teria sido usado para adquirir papéis emitidos por empresas relacionadas aos próprios controladores. Ao somar operações correlatas, o MPF chegou ao montante de R$ 5,7 bilhões para o qual foram solicitadas medidas de bloqueio judicial.
A apuração também identificou indícios de gestão fraudulenta e lavagem de dinheiro envolvendo administradoras de fundos como Reag, Ruby Capital e Trustee DTVM. Relatório do Banco Central, citado pela Procuradoria-Geral da República, aponta que João Mansur, ex-controlador da Reag, teria usado a gestora para desviar recursos do Master, com participação de familiares como laranjas.
Segundo a PGR, parte dos valores passou por uma empresa chamada Brain Realty, que recebeu cerca de R$ 460 milhões em empréstimos considerados fictícios. “Tais fluxos, que ocorreram entre abril e maio de 2024, totalizaram um desembolso de R$ 1,45 bilhão pelo Banco Master, com um retorno de R$ 1,38 bilhão via aquisição de CDBs”, diz a manifestação.
Após a operação, a defesa de Daniel Vorcaro afirmou que o banqueiro “tem colaborado integral e continuamente com as autoridades competentes”. Já a defesa de Fabiano Zettel declarou que ele está “à inteira disposição das autoridades” e que suas atividades são “lícitas”.
Em nota, representantes de Nelson Tanure negaram qualquer vínculo societário com o Master, enquanto o advogado de João Mansur afirmou que ainda não teve acesso integral aos autos, mas se colocou à disposição para prestar esclarecimentos.