Muhammad Ali e a arte da paciência diante do inimigo. Por Kiko Nogueira

Ali e Foreman no Zaire em 1974
Ali e Foreman no Zaire em 1974

 

O documentário “Quando Éramos Reis”, sobre a luta de Muhammad Ali com George Foresman no Congo, então Zaire, em 1974, entra fácil em qualquer lista dos filmes de esporte da história.

Eu o vi em San Francisco no fim dos anos 90 e foi amor imediato pela fita e pelo personagem central.

O confronto, batizado “Rumble in the Jungle” — um de uma série de apelidos fantásticos dados às disputas de título de Ali, como “Thrilla in Manilla” —, foi maior do que a vida, como tudo em se tratando do boxeador.

Os promotores acharam que Ali estava se arriscando a morrer no ringue. Tinha 32 anos, sete a mais do que Foreman, então no auge, campeão olímpico, atropelando os oponentes com imensa facilidade.

Ali havia perdido quatro anos da carreira ao se recusar a servir no Vietnã. Voltaria só em 1970, por decisão da Suprema Corte americana. Seus melhores anos de atleta haviam ficado para trás. Era considerado um completo azarão.

Para quem, como eu, estava acostumado com a violência blitzkrieg de Mike Tyson, o encontro entre Ali e Foreman parecia, inicialmente, lento e anticlimático. Até que, num determinado momento, você passava a entender o que ele estava fazendo.

Ali passou sete rounds nas cordas, numa tática que batizou de “rope-a-dope”. Foreman batia sem dó.

Enquanto se defendia, tomando uma saraivada de marretadas em cima e em baixo, ele dizia no ouvido de Foreman: “É o melhor que você consegue, George?” Sim, ele deu tudo o que tinha.

Havia uma sabedoria naquele ato de guardar energia (Como pregavam Churchill e Mae West, nunca corra quando puder andar, nunca ande quando puder ficar de pé e nunca fique de pé quando puder sentar.).

Era uma lição de paciência.

No oitavo assalto, Foreman era um lutador visivelmente esgotado. Ali sai das cordas e acerta-lhe um, dois, três, quatro, cinco socos. O sexto ele interrompe no meio do caminho, ao ver que o gigante desabar como um bêbado diante dele. Foreman, hoje, diz que isso é uma prova da grandeza do adversário.

Li em algum lugar que foi um triunfo do cérebro sobre os músculos. A paciência, sozinha, não é nenhuma virtude. Pode se confundir com inação. A diferença está no momento de sair para o contra ataque. Às vezes não é ruim que seu inimigo pense que você está morto. Basta esperar a hora correta para reagir. O inimigo, eventualmente, é você mesmo.

Ali nunca foi invencível. Perdeu para Joe Frazier e Ken Norton. Seus dois últimos combates, contra Larry Holmes e Trevor Berbick, já com sinais da doença neurológica, foram tristes caça níqueis. Hoje ninguém se lembra deles dois.

Como ele mesmo falou: “Somente um homem que sabe o que sente ao ser derrotado pode ir até o fundo de sua alma e tirar dali aquilo que lhe resta de energia para vencer um combate equilibrado”.

No final da batalha de mais de três décadas contra o Parkinson, Ali saiu do córner para abraçar a imortalidade.

 

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