Muito além do jacaré: o que precisamos saber sobre as vacinas e qual delas devemos tomar. Por PH Arantes

Profissional de saúde prepara dose da vacina contra a Covid-19 da Pfizer/BioNTech em Ashkelon, sul de Israel, no dia 20 de dezembro. — Foto: Gil Cohen-Magen/AFP

Por Paulo Henrique Arantes

A ciência nunca desempenhou seu papel com tanta celeridade quanto nesta pandemia, ultrapassando a inação de governos obscurantistas, como o brasileiro, e alcançando a vacina contra o coronavírus em um prazo extremamente curto. A aplicação e a imunização das populações são o novo desafio, este mais dependente da ação logística governamental. Com ansiedade crônica, quase que em depressão generalizada, as pessoas desgastam-se frente à dúvida do momento: estaremos seguros se tomarmos uma vacina cuja eficácia seja, por exemplo, de 60%?

A resposta óbvia, e correta, é que estaremos muito mais seguros com ela do que sem ela. Mas a questão da eficácia das vacinas tem sido tratada pela imprensa equivocada e isoladamente – há outros dois fatores que determinam a qualidade de um imunizante. A análise tem de ser feira a partir do trinômio eficácia-eficiência-efetividade.

Por eficácia, entende-se o efeito do medicamento puro numa situação ideal de pesquisa – a chamada “fase 3”. Por eficiência compreendem-se tempo e custos de produção. Já a efetividade de uma vacina depende do impacto da logística – armazenamento, distribuição, etc  – numa situação real de vacinação da população.

O que torna uma vacina mais adequada que outra a determinada população é justamente a mensuração dos três fatores conjuntamente.

“Não vejo ninguém falar de efetividade”, queixa-se o epidemiologista Naomar de Almeida Filho, professor titular do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia.

Tome-se a vacina da Pfizer, cuja eficácia anunciada é de 95%. O ideal seria levá-la a todos os brasileiros, mas as exigências logísticas para tanto são inalcançáveis, a não ser nos centros mais desenvolvidos.

“Nos Estados Unidos (onde a população já está recebendo a vacina da Pfizer), a vacinação está caótica. Uma vacina com eficácia de 60%, por exemplo, porém barata e com elementos de transporte e conservação favoráveis, será mais efetiva que outra com 95% de eficácia, mas que precisa de superfreezers e zero de exposição à luz solar”, explica Almeida Filho.

A Organização Mundial de Saúde estabelece o índice de 50% como eficácia mínima para que uma vacina seja aprovada para uso. Algumas das vacinas integrantes do programa brasileiro de vacinação, como a da gripe e a do papilomavírus, têm eficácia considerada baixa, e os resultados são satisfatórios quanto à redução dos casos das doenças na população.

O adiamento do anúncio dos resultados da fase 3 de testes da Coronavac pelo governo paulista, com o governador João Doria em Miami, acendeu a luz amarela, sugerindo a ineficácia do produto a ser desenvolvido conjuntamente pelo laboratório chinês Sinovac e o Instituto Butantan.

A eficácia da Coronavac está devidamente demonstrada, acredita a comunidade científica, ainda que o índice seja por ora desconhecido e possa vir bem próximo da linha de corte de 50%. Em contrapartida, em termos de eficiência e efetividade, ela pode ser considerada ótima.

O DCM perguntou ao professor Naomar de Almeida Filho se ele tomaria uma vacina com 60% de eficácia em janeiro ou esperaria por uma 90% eficaz em fevereiro. Ele não pestanejou: “Deve-se tomar a primeira que chegar”.

“A pessoa vacinada não terá um atestado de imunidade, pois ela pode tomar uma vacina com eficácia de 99% e estar entre o 1% não imunizado. De todo modo, é importante salientar que algumas vacinas, mesmo quando não imunizam totalmente, reduzem a gravidade da doença na pessoa infectada”, esclarece, observando que, dentre as vacinas que estão postas, nenhuma demonstrou tal detalhamento até agora.

Hordas bolsonaristas gostam de achincalhar a vacina chinesa com as mais estúpidas mentiras, como sempre desprezando a ciência e desconhecendo a presença de insumos daquele país em muitas vacinas usadas no mundo inteiro. Um dos argumentos da chusma é que a Coronav sequer é testada entre os chineses. Bobagem.

“A China não está produzindo novos casos de infecção por coronavírus, por isso não está testando a vacina lá”, explica Almeida Filho. Simplesmente não há gente suficiente para amostragem. Em outros países, é diferente. Na Turquia, a vacina da Sinovac apresentou eficácia de 91,25% na fase 3 de testes.

Já a vacina da AstraZeneca/Oxford apresentou eficácia de 70% até agora, e o laboratório estuda o desenvolvimento de um produto combinado com a Sputnik russa para aumentar sua eficácia.

“Não se devem enxergar vacinas como concorrentes. É possível que combinações resultem produtos mais eficazes”, diz Almeida Filho, destacando, de outra parte, que ainda não há orientação científica sobre o uso pela mesma pessoa de duas vacinas diferentes: “É preciso fazer o teste disso. Nosso sistema imunológico é muito complexo”.

O professor da UFB considera a vacina um aditivo importante na luta contra a covid-19 – não a solução completa da pandemia. Longe disso. Sem a conscientização das pessoas sobre a importância do distanciamento social, a pandemia não cessará.

“Há uma desobediência civil da população quanto às medidas restritivas, o que nos leva a crer que a situação vai piorar ainda mais antes de começar a melhorar. Tivemos um rebate dos casos logo após as eleições, e as festas de fim de ano fazem antever esse quadro mais uma vez. Os brasileiros não incorporaram a noção do perigo”, avalia Naomar de Almeida Filho.

O epidemiologista também tem críticas ao modelo de vacinação que se anuncia no Brasil. Para ele, a redução de danos, primeiro, aos mais vulneráveis deveria vir acompanhada de ações regionalizadas para conter surtos locais.

“É preciso proteger a vida dos vulneráveis e, ao mesmo tempo, controlar as epidemias regionalizadas”, adverte.

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