Mulher assassinada por agente do ICE disse “não estou brava com você” antes de ser morta

Atualizado em 9 de janeiro de 2026 às 19:52
Renee Good dirigindo seu carro antes de ser morta por agente do ICE em Minneapolis. Reprodução

Um vídeo divulgado nesta sexta-feira mostra que Renee Nicole Good falou de forma tranquila, dizendo que estava “tudo bem” e que “não estava brava”, segundos antes de ser morta a tiros por um agente do Serviço de Imigração dos EUA (ICE), em Minneapolis, enquanto se afastava com o carro. As imagens foram compartilhadas pela Casa Branca de Donald Trump após terem sido publicadas inicialmente pelo site partidário Alpha News.

O clipe, de 47 segundos, foi divulgado pela Alpha News na plataforma X e mostra a ação a partir da câmera corporal do agente do ICE. O vídeo também registra a voz de um homem chamando Good de “vadia” depois que ela já havia sido baleada mortalmente. Mais tarde, o material foi repostado pela conta oficial de resposta rápida da Casa Branca e pelo vice-presidente JD Vance. Em sua publicação, Vance disse concordar que a morte de Good foi “uma tragédia”, mas acusou a imprensa de relatar de forma desonesta as circunstâncias do assassinato.
Nas imagens, Good aparece sentada no banco do motorista de um Honda Pilot marrom parado na estrada, enquanto uma sirene toca ao fundo. “Tudo bem, cara”, ela diz pela janela aberta, enquanto o agente caminha à frente do carro, passa pela janela e segue até a traseira. Em seguida, ela afirma: “Eu não estou brava com você”.

O reflexo do agente mascarado surge na lateral do veículo. Outra pessoa, que parece ser Rebecca Good, esposa de Renee, é ouvida dizendo: “Ei, mostra seu rosto, garoto”. Rebecca aparece segurando um celular e comenta: “A gente não troca a placa todo dia, só para você saber. Vai ser a mesma placa quando você vier falar com a gente depois”.

Ela diz ainda que é cidadã dos Estados Unidos e provoca: “Você quer vir até a gente? Quer vir até a gente? Eu sugiro ir almoçar, garoto. Vai lá”. Em seguida, ela se vira para entrar no banco do passageiro, enquanto outro agente mascarado se aproxima do lado do motorista e grita: “Sai do carro. Fora do carro. Sai da porra do carro. Sai do carro”.

O agente que grava o vídeo volta a caminhar pela frente do veículo, do lado do passageiro para o do motorista. Good recua um pouco e depois avança lentamente, virando à direita. O celular do agente aponta de repente para o céu, e ele exclama: “Uau!”.

Esse trecho coincide com outro vídeo que circula nas redes, no qual o agente é apenas levemente tocado pelo carro, que se move tão devagar que ele consegue manter o equilíbrio sem dificuldade. Mesmo assim, tiros são disparados, sem que o telefone seja desligado. Uma voz xinga em seguida, e o carro de Good aparece por um instante enquanto se afasta. Logo depois, um estrondo alto é ouvido.

O agente do ICE que matou Renee Good foi identificado como Jonathan E. Ross. Mãe de três filhos, Good era cidadã americana. Ross tem dez anos de experiência na equipe de resposta especial do setor de fiscalização e remoção do ICE e participava de uma operação migratória em Minneapolis quando atirou nela, na quarta-feira. Em junho, Ross havia sido arrastado por um carro durante a prisão de um imigrante sem documentos, que tinha um mandado em aberto do ICE e uma condenação por agressão sexual contra a enteada de 16 anos, em 2022.

Diversas agências policiais nos Estados Unidos proíbem disparos contra veículos que avançam lentamente, a menos que o motorista use outro tipo de força, como apontar uma arma. Ainda assim, Vance afirmou na sexta-feira, no X, que o vídeo divulgado pela Alpha News mostra que “a vida do agente estava em risco” e que ele atirou em legítima defesa.

“Se você quer dizer que a morte dessa mulher é uma tragédia, que devemos rezar por sua alma como cristãos e americanos, eu concordo”, escreveu Vance, após antes ter se juntado a integrantes do governo Trump para, sem provas, associar Good a “terrorismo doméstico”. “Mas esse policial tem família? Sim. Ele foi gravemente ferido por um veículo há apenas seis meses? Sim. Ele tinha motivo para temer pela própria vida? Sim. Ele tem direito à segurança enquanto trabalha? Sim.”

Autoridades e moradores de Minnesota reagiram com dureza à versão apresentada pelo governo Trump. O prefeito de Minneapolis, Jacob Frey, chegou a pedir que o ICE “caísse fora” da cidade — a mesma onde George Floyd foi assassinado por um policial diante de uma câmera de celular, cinco anos atrás, episódio que gerou protestos em todo o mundo.

Manifestações perto do local onde Good foi morta reuniram milhares de pessoas. Alguns democratas no Congresso ameaçaram barrar o financiamento do Departamento de Segurança Interna, ao qual o ICE está subordinado.

A Alpha News divulgou o vídeo na sexta-feira depois que sua repórter, Liz Collin, participou na quinta-feira do programa Jesse Waters Primetime, apresentado por um apoiador declarado de Trump.

Rebecca Good divulgou um comunicado dizendo: “Na quarta-feira, 7 de janeiro, paramos para apoiar nossos vizinhos. Nós tínhamos apitos. Eles tinham armas. Estávamos criando nosso filho para acreditar que, não importa de onde você vem ou como você se parece, todos merecem compaixão e gentileza. Renee vivia isso todos os dias. Ela era puro amor. Pura alegria. Puro sol. Renee era cristã e sabia que todas as religiões ensinam a mesma verdade básica: estamos aqui para amar uns aos outros, cuidar uns dos outros e manter uns aos outros seguros e íntegros.”