
A imagem que entusiastas ocidentais de mudança de regime tentam consagrar como ícone da rebelião iraniana não foi feita no Irã.
A mulher da foto vive no Canadá. Ainda assim, a cena corre o mundo como se fosse um retrato direto das ruas de Teerã. A pergunta que fica é simples: desde quando propaganda de guerra precisa ser fiel aos fatos?
A foto mostra uma jovem acendendo um cigarro com um retrato em chamas do líder supremo Ali Khamenei. O gesto foi tratado como símbolo máximo de desafio nas atuais manifestações iranianas.
Circulou com comparações cinematográficas, alusões a cenas famosas e reproduções simbólicas em protestos de iranianos no exterior. A imagem ganhou status de emblema antes mesmo de se discutir onde, quando e por quem foi produzida.
Queimar imagens do líder supremo não é novidade. Esse tipo de ato aparece em protestos no Irã desde pelo menos 2008 e carrega forte carga simbólica, já que o governo costuma rotular manifestantes como “vândalos” ou “agitadores”. O problema não está no significado político do gesto, mas na forma como ele é embalado e vendido ao público internacional.
A mulher da foto usa o nome Morticia Addams na rede X. Segundo suas próprias postagens, tem 25 anos, mora no Canadá e afirma ter sido presa durante os protestos de novembro de 2019 no Irã. Em uma publicação, escreveu: “todo tempo eu estava nas ruas. Desta vez não pude estar. Me perdoe, Mãe Irã.”
A new trend has emerged among Iranian women. pic.twitter.com/G038L2URrd
— Visegrád 24 (@visegrad24) January 8, 2026
Usuários no exterior reagiram com ironia e indignação. Uma conta chamada “Iran-Dokht” escreveu: “Não fumo, mas agora deu muita vontade de acender um cigarro.”
Iranian woman goes viral lighting her cigarette with a burning photo of the ayatollah.
She’s braver than any American feminist of the 21st century. pic.twitter.com/a7rLqaEk5Z
— TaraBull (@TaraBull) January 11, 2026
A projeção internacional da imagem cresceu quando J.K. Rowling a compartilhou, acompanhada de um discurso moral contundente. Segundo a autora da série Harry Potter, quem diz apoiar direitos humanos, mas não demonstra solidariedade aos iranianos, revela indiferença diante da opressão praticada por “inimigos dos seus inimigos”. O site europeu Nexta TV reforçou a leitura política, descrevendo a cena como desprezo aberto por um regime que controla a vida das mulheres há décadas.
Nada disso responde a uma questão central: por que esse tipo de indignação visual nunca se repete quando a repressão vem de aliados estratégicos do Ocidente? Onde estão as imagens viralizadas de mulheres sauditas enfrentando um sistema que prende e silencia dissidentes? Onde estão os ícones da repressão no Egito ou nos Emirados Árabes Unidos, países sustentados política e militarmente por Estados Unidos e Reino Unido?
If you claim to support human rights yet can’t bring yourself to show solidarity with those fighting for their liberty in Iran, you’ve revealed yourself. You don’t give a damn about people being oppressed and brutalised so long as it’s being done by the enemies of your enemies. pic.twitter.com/eK3jjh3pD6
— J.K. Rowling (@jk_rowling) January 11, 2026