Mulher transformada em símbolo da rebelião iraniana é do Canadá

Atualizado em 12 de janeiro de 2026 às 11:40
“Morticia Addams”, pseudônimo da usuária do X que viralizou queimando imagem de Ali Khamenei com cigarro em foto registrada em Richmond Hill, no Canadá. Foto: Reprodução X (@melianouss)

A imagem que entusiastas ocidentais de mudança de regime tentam consagrar como ícone da rebelião iraniana não foi feita no Irã.

A mulher da foto vive no Canadá. Ainda assim, a cena corre o mundo como se fosse um retrato direto das ruas de Teerã. A pergunta que fica é simples: desde quando propaganda de guerra precisa ser fiel aos fatos?

A foto mostra uma jovem acendendo um cigarro com um retrato em chamas do líder supremo Ali Khamenei. O gesto foi tratado como símbolo máximo de desafio nas atuais manifestações iranianas.

Circulou com comparações cinematográficas, alusões a cenas famosas e reproduções simbólicas em protestos de iranianos no exterior. A imagem ganhou status de emblema antes mesmo de se discutir onde, quando e por quem foi produzida.

Queimar imagens do líder supremo não é novidade. Esse tipo de ato aparece em protestos no Irã desde pelo menos 2008 e carrega forte carga simbólica, já que o governo costuma rotular manifestantes como “vândalos” ou “agitadores”. O problema não está no significado político do gesto, mas na forma como ele é embalado e vendido ao público internacional.

A mulher da foto usa o nome Morticia Addams na rede X. Segundo suas próprias postagens, tem 25 anos, mora no Canadá e afirma ter sido presa durante os protestos de novembro de 2019 no Irã. Em uma publicação, escreveu: “todo tempo eu estava nas ruas. Desta vez não pude estar. Me perdoe, Mãe Irã.”

Usuários no exterior reagiram com ironia e indignação. Uma conta chamada “Iran-Dokht” escreveu: “Não fumo, mas agora deu muita vontade de acender um cigarro.”

A projeção internacional da imagem cresceu quando J.K. Rowling a compartilhou, acompanhada de um discurso moral contundente. Segundo a autora da série Harry Potter, quem diz apoiar direitos humanos, mas não demonstra solidariedade aos iranianos, revela indiferença diante da opressão praticada por “inimigos dos seus inimigos”. O site europeu Nexta TV reforçou a leitura política, descrevendo a cena como desprezo aberto por um regime que controla a vida das mulheres há décadas.

Nada disso responde a uma questão central: por que esse tipo de indignação visual nunca se repete quando a repressão vem de aliados estratégicos do Ocidente? Onde estão as imagens viralizadas de mulheres sauditas enfrentando um sistema que prende e silencia dissidentes? Onde estão os ícones da repressão no Egito ou nos Emirados Árabes Unidos, países sustentados política e militarmente por Estados Unidos e Reino Unido?

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.