Mulheres heteros que experimentam sexo com outras mulheres. Por Nathalí Macedo

Cena do filme Henry & June
Cena do filme Henry & June

A bicuriosidade – estímulo de pessoas heterossexuais a experimentarem relacionamentos amorosos e/ou sexuais com pessoas do mesmo sexo – é uma mania moderna mais comum do que se pode imaginar. Cada vez mais pessoas têm se desafiado a descobrir um prazer homossexual que a sociedade condena – só que anonimamente, em um esconderijo seguro da hostilidade de seu círculo social.

Talvez pensando nisso a Youtuber Jaclyn Glenn fez um experimento no mínimo ousado: desafiou quatro mulheres heterossexuais a manterem relações físicas com outras mulheres e responderem a uma entrevista (veiculada no youtube) sobre as sensações provocadas pela experiência. Duas delas disseram preferir intimidade física com outras mulheres, mas a posição final foi unânime: nenhuma delas buscaria relacionamentos homossexuais duradouros.

O óbvio deste resultado é o medo de represálias sociais que nos levam, muitas vezes, a nos mantermos na confortável zona da heterossexualidade ainda que relações homossexuais nos dêem prazer.

Mas, para ir além do óbvio, esse experimento é um convite à reflexão sobre a simbologia social das relações heterossexuais, especialmente para nós, mulheres. Em português claro: ter um homem ao lado é mais importante do que sentir prazer, realizar-se intimamente, ser feliz, enfim.

Então, o fato de muitas lésbicas não saírem do armário tem uma íntima ligação com aquele velho comentário repetitivo das tias (e mães, e pais, e avós): ‘ e os namoradinhos?’

O mundo nos convence, dia após dia, de que precisamos de um homem. Mesmo que estejamos em uma solteirice desejada, ou passando por uma fase de dedicação máxima aos estudos ou projetos profissionais, ou sejamos lésbicas. Ter um par – masculino, necessariamente – tem que ser a coisa mais importante de nossas vidas.

Nos convencemos disto quando somos importunadas por outros homens em uma mesa de bar porque “uma mulher tão bonita não pode estar sozinha”, ou quando tentam nos convencer de que não podemos viajar ou fazer qualquer coisa que seja sozinhas por sermos mulheres, ou quando nossas amigas nos perguntam porque ainda estamos solteiras, ou quando a tia chata nos indaga pelos tais namoradinhos.

E isso influencia nossas decisões muito mais do que pode parecer, à primeira vista. Faz com que mantenhamos relações abusivas, sem paixão ou fadadas ao fracasso. Faz com que aceitemos o que vier, porque, afinal, “homem é artigo de luxo” e principalmente porque não aguentamos mais ouvir esta fatídica pergunta nos almoços de família ou encontro de amigos. Ou, pior ainda: faz com que muitas mulheres mantenham relações heterossexuais ainda que relações lésbicas lhe dêem mais prazer e identificação íntima, como foi o caso das duas entrevistadas no experimento.

Precisamos de uma cultura e instrução que o sistema (não por acaso) não nos dá para que percebamos que, não, nós não precisamos de um homem, ainda que sejamos heterossexuais. Nós precisamos daquilo que nos faz feliz: uma solteirice bem vivida, dedicação a si mesma, a busca por uma relação construtiva e respeitosa ou um relacionamento lésbico, se assim nos apetecer.

A sociedade patriarcalista está interessada em mulheres que estejam cada vez mais convencidas de que precisam de um homem. Para uma mulher lésbica, sair do armário é mais do que uma libertação necessária: é um ato político.

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