‘Entrevista com Escritores Mortos’ 22: J.D. Salinger

O americano J.D. Salinger (1919-2010), o enigmático autor do romance “Apanhador no Campo de Centeio”,  foi um soberbo frasista. Por isso o escalamos para um novo capítulo da série “Conversas com Escritores Mortos”.  Do “Apanhador …” extraímos as sentenças abaixo sobre o talento, a religiosidade e Romeu e Julieta.

Mr. Salinger, seu livro mais famoso ainda não foi adaptado para o cinema – o que é, devo dizer, impressionante. Você apreciaria uma adaptação? Teria alguma dica a dar àquele que se aventurasse a colocá-la em ação?

Se há uma coisa que odeio, são os filmes. Malditos filmes!

O que mais você odeia?

Multidões animadas. Elas costumam ser formadas por aqueles tolos que riem como hienas durante filmes, com coisas que não são nada divertidas. Juro por Deus que, se eu fosse um ator ou um pianista e todos aqueles idiotas me considerassem magnífico, eu odiaria. Não gostaria sequer que me aplaudissem. Sabe, as pessoas sempre aplaudem as coisas erradas. Se eu fosse um pianista, tocaria na porra do armário.

E quanto a religiões? Você segue alguma?

De vez em quando penso em rezar, mas então mudo de ideia. Sou meio ateísta. Eu gosto de Jesus e tal, mas não ligo muito para a maior parte das outras coisas da Bíblia.

Que coisas?

Os discípulos, por exemplo. Não gosto deles – eles me irritam, se quer saber a verdade. Até que foram bacanas depois que Jesus morreu e tudo mais, mas enquanto ele estava vivo eram tão úteis quanto uma bala na cabeça.

E quanto aos seus sonhos de infância? Você sempre quis ser escritor? Se não tivesse seguido a carreira literária, que outra escolheria?

A advocacia é legal, eu acho… Só que não para mim. Quero dizer, os advogados são bacanas quando saem por aí salvando a vida de inocentes mas, se você é um advogado, acaba não fazendo nenhuma dessas coisas. Você só enriquece e joga golfe e joga bridge e compra carros e bebe Martini e posa de popular. E, além disso, se você realmente sair por aí salvando a vida das pessoas e tudo o mais, como saber se você o faz porque realmente se importa com elas ou porque tudo o que quer é ser um grande advogado, com todo mundo te dando tapinhas nas costas e te parabenizando no tribunal quando a porra do julgamento termina, os repórteres e outras pessoas, como no cinema? E como você saberia que não é uma farsa? O problema é que você não saberia.

E quanto às mulheres, Mr. Salinger? O que tem a dizer sobre elas?

Às vezes, elas sabem nos enganar muito bem. Não é raro pensarmos que elas são espertas só porque sabem tudo sobre teatro ou literatura, mas depois percebermos que são superficiais como a grande maioria. Em geral, teríamos descoberto tudo isso mais cedo caso não as tivéssemos beijado tanto. A parte boa é que as mulheres burras costumam ser ótimas dançarinas. Jamais dance com uma mulher inteligente, é simplesmente insuportável – elas tentam te conduzir o tempo inteiro.

Há algum personagem com o qual você se identifica?

Mercúrio, de Romeu e Julieta.

Por que Mercúrio e não Romeu?

Não gosto muito de Romeu nem de Julieta. Quer dizer, eu até que gosto deles – mas, eu não sei. Eles são meio entediantes. Eu lamentei mais quando Mercúrio foi apunhalado do que quando Romeu e Julieta se mataram. Parei de gostar de Romeu naquele momento, quando o bom e velho Mercúrio foi apunhalado pelo primo de Julieta. A culpa foi toda dele. Todos aqueles Montecchios e Capuletos, eles eram legais – especialmente Julieta –, mas Mercúrio… Ele era esperto e agradável e tudo mais. O fato é que eu acho ridículo quando alguém morre (especialmente alguém agradável) e a culpa é de outra pessoa. Romeu e Julieta, pelo menos a culpa era deles.

Também lamentei por Mercúrio, Mr. Salinger. A ideia de morrer o incomoda?

Não muito. Só espero que, quando eu morrer, alguém tenha bom senso o suficiente para me jogar no rio ou qualquer coisa do tipo. Tudo menos me enfiar em um maldito cemitério. As pessoas aparecendo e colocando buquês de flores sobre você aos domingos, e todas essas idiotices. Quem é que quer flores depois de morto?

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