Musical sobre Silvio pode captar R$ 10 milhões na Lei Rouanet: cadê o surto dos bolsominions? Por Nathalí

Quem quer dinheiro?

Esperei por algum tempo pelo gancho perfeito para escrever sobre a Lei Rouanet, reclamação recorrente de dez entre dez ex-coxinhas-agora-bolsonaristas no Brasil. “Vai acabar essa mamata! Esses artistas comunistas vão ter que trabalhar!”

Eis que a Paris Filmes, que produzirá o filme “Silvio Santos vem aí”, foi autorizada a captar 10 milhões de reais pela Lei Rouanet, e parece o momento perfeito para atualizar a lista oficial de comunistas brasileiros.

Com base nos critérios bolsonaristas, artistas recebem diretamente dinheiro da Lei Rouanet. Para eles, trata-se de um gigantesco esquema de propina dos comunistas a artistas vagabundos mamando nas tetas do Estado.

Seria então Silvio Santos o maior comunista deste país?

Não. É a produtora Paris Filmes que captará para produzir um filme sobre Silvio Santos, e não o próprio Silvio e, diferentemente dos bolsonaristas esquizofrênicos, nós não distorcemos a verdade quando nos convém.

Aliás, dentre todas as fake news absurdas que fomos obrigados a testemunhar este ano – quem, pelo amor de Deus, é estúpido o suficiente para acreditar em kit gay? -, as falácias em torno da Lei Rouanet são aquelas que denunciam mais claramente a ignorância latente dos eleitores de Bolsonaro, que aparentemente não entenderam como ela funciona.

A Lei Rouanet autoriza a captação de recursos advindos de empresas privadas – e não do poder público – que receberão, em troca, incentivos fiscais. É a iniciativa privada quem libera o recurso à produtora previamente aprovada em edital e respeitando critérios técnicos e leis fiscais.

No entendimento limitado dos bolsominions, entretanto, o dinheiro público está sendo usado para financiar produções artísticas de ideologia comunista (risos), e até Madonna e Roger Walters garantiram uma boquinha – o fato de não serem brasileiros e não poderem legalmente beneficiarem-se com a Lei é um mero detalhe para eles.

A questão, para nós, não é se Silvio Santos será ou não beneficiado pela produção do filme. O que nos interessa, antes disso, é: qual a necessidade de uma grande produtora como a Paris Filmes ser beneficiária da Lei Rouanet?

Quantas peças de teatro, oficinas de arte e espetáculos de dança poderiam ser produzidos por pequenas produtoras/coletivos culturais com os milhões empregados em produzir um filme biográfico sobre Silvio Santos, um empoeirado saudosista da ditadura?

Minha crítica a esta lei é diferente da crítica dos bolsonaristas, mas nem por isso deixa de existir: não é a primeira vez que uma grande produtora é autorizada a captar quantias obscenas pela Lei Rouanet, o que denuncia o desvirtuamento do objetivo primeiro de sua criação, fomentar a cultura produzida em escala micro, por pequenas produtoras e coletivos, que encontram entraves financeiros em sua produção.

Que tipo de entrave financeiro teria a Paris Filmes para produzir um filme biográfico sobre a imagem desgastada de Silvio Santos? Qual é o sentido de incentivo fiscal para a produção de um filme sobre um milionário que lança aviõezinhos de dinheiro?

“Nós não vemos os outros como eles são, vemos os outros como nós somos.”

É entre os bolsonaristas que o nepotismo da família Bolsonaro é assustadoramente naturalizado; são eles que consideram natural que Sergio Moro ganhe um Ministério no governo do opositor do homem que perseguiu; são eles que tratam como privada a coisa pública, e lutam com todas as armas pela manutenção dos privilégios de quem sempre esteve no poder.

Artistas e pequenos produtores incentivados pela Lei Rouanet não passam de vagabundos; grandes apresentadores e donos de emissoras de TV beneficiados pela Lei Rouanet são nobres artistas.

O que, afinal, os separa?

A primavera fascista começou: a trilha sonora é Lobão, o herói é Sergio Moro e o principal propagandista oficial, Silvio Santos.

Que fase.

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