Na Bolívia, os golpistas se deram mal. Aqui, golpistas sempre se deram bem. Por Moisés Mendes

Jair Bolsonaro em live que apresentaria fraudes nas eleições. Foto: Reprodução

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Por Moisés Mendes

Bolsonaro blefou mais uma vez sobre as provas que iria apresentar sobre fraudes na eleição de 2014. Na tradicional live com as bobagens das quintas-feiras, sentou-se ao lado de um sujeito apresentado como um técnico “analista de inteligência” e anunciou:

– Eduardo vai demonstrar alguma coisa.

Alguma coisa era coisa nenhuma. Nem Bolsonaro nem Eduardo, de quem não se sabe o sobrenome, nem outro sujeito que aparece simulando fraudes em urnas conseguiram provar nada.

Bolsonaro admitiu, já no meio da live, que não tinha provas, mas apenas indícios. E os indícios não eram indícios de coisa alguma.

Bolsonaro prepara, com a história das fraudes e com a insistência com o voto impresso, uma confusão como as que aconteceram em 2014 no Brasil (com Aécio pedindo recontagem), no ano passado nos Estados Unidos, em 2019 na Bolívia e este ano no Peru.

A direita descobriu que, após uma derrota, o que deve fazer é contestar o resultado e provocar o caos. A confusão desmoraliza o processo eleitoral e a democracia.

No caso boliviano, as denúncias de fraudes apresentadas pelos candidatos da direita, derrotados por Evo Morales, provocaram o golpe de novembro e depois os massacres de Senkata e Sacaba. Militares e policiais mataram 36 pessoas.

Esta semana, o Ministério Público finalmente arquivou todas as denúncias, feitas a partir de suspeitas golpistas levantadas pela Organização dos Estados Americanos.

Só que lá está havendo um acerto de contas, que já levou os ex-comandantes das três armas e os chefes da Polícia Nacional para a cadeia, junto com os civis que lideraram o golpe, e pode agora encarcerar também os denunciadores da fraude.

Esta semana, ex-funcionários do Tribunal Supremo Eleitoral da Bolívia, o TSE deles, anunciaram a criação da Associação de Ex-Autoridades Eleitorais Vítimas de Perseguição.

A entidade vai processar os acusadores das fraudes que não existiam e que resultaram numa caçada a juízes eleitorais, vogais e servidores da Justiça, muitos deles afastados dos cargos.

Todos foram acusados pela direita e pela extrema direita de favorecerem o Movimento ao Socialismo (MAS), de Evo Morales, durante a apuração.

O argumento dos acusados é o de que tiveram carreiras e reputação abaladas pelas insinuações, lideradas principalmente por Carlos Mesa, ex-presidente e candidato da Comunidade Cidadã, da direita, derrotado por Morales no segundo turno.

Os denunciadores serão processados por dano moral (causas cíveis) e também criminalmente. Os acusadores enfrentarão outros processos que podem ser movidos pelo Estado.

O procurador-geral do Estado (o Augusto Aras deles), Wilfredo Chávez, também anunciou essa semana que Mesa e outros cúmplices nas acusações serão processados pelos danos provocados pelas denúncias, principalmente o golpe e os massacres decorrentes dos tumultos provocados pela queda de Morales.

“Os que disseram que havia uma fraude monumental terão de prestar contas à Justiça, porque provocaram um golpe de Estado, luto, dor e perseguições, além de gerarem um governo corrupto”, disse o procurador.

E no Brasil? Aqui, Bolsonaro blefa todos os dias, e o ministro Luis Roberto Barroso, presidente do TSE, defende a urna, o processo eleitoral, a apuração.

Depois de admitir que não tem provas de fraudes por falta do voto impresso, o que Bolsonaro vai fazer? Deve continuar dizendo que o problema é a contagem final, que ele considera secreta.

O que vai resultar disso tudo é que, se for para o segundo turno em 2022 e perder, Bolsonaro fará o mesmo que aconteceu em todos os países com desfecho tumultuado de eleições.

Na Bolívia, os golpistas se deram mal. Aqui, golpistas sempre se deram bem.

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