Na despedida, Moro cai em contradição. Por Moisés Mendes

O ex-juiz ficou na metade do caminho na hora da despedida. Chegou a insinuar que iria contar tudo, mas divagou sobre questões previsíveis a respeito das pressões políticas exercidas por Bolsonaro e caiu em pelo menos uma contradição grave.

O ex-juiz revelou confidências de Bolsonaro, que confessou estar disposto a controlar todas as ações da Polícia Federal.

Bolsonaro disse a Moro que desejava ter contato direto com o chefe da PF, que deveria ser alguém da sua absoluta confiança, para saber inclusive de relatórios sobre a evolução de investigações.

E aí Moro caiu em contradição, ao defender a autonomia da PF e lamentar que Bolsonaro queira interferir até no andamento de inquéritos de casos que têm o guarda-chuva do Supremo.

Essa é a contradição: Moro já foi colaborador no esquema de vazamento de relatórios para Bolsonaro.

Em julho do ano passado, em meio ao escândalo dos laranjas do PSL de Minas, Moro disse ter entregue a Bolsonaro relatórios da Polícia Federal sobre o caso.

A própria assessoria do Ministério da Justiça confirmou, depois de tentativas de desmentido do próprio Moro, que os relatórios haviam sido entregues a Bolsonaro e que “as informações repassadas não interferem no trâmite das investigações”.

O inquérito sobre o ministro Álvaro Antonio e seus laranjas corria, como corre, em segredo de Justiça. O ministro da Justiça não poderia ter acesso a nenhum documento. E não poderia, sob qualquer pretexto, passar informações ao presidente da República, na época ainda ligado ao PSL.

Agora pela manhã, ao acusar várias vezes Bolsonaro de interferência política, Moro tentou proteger a reputação da PF, que ele mesmo afrontou quando do caso de Minas. O ex-juiz era fornecedor de relatórios que interessavam a Bolsonaro.

Moro foi duro ao apontar Bolsonaro como um presidente preocupado com investigações policiais. Mas apenas ameaçou fazer revelações que não apareceram na hora de ir embora.

Disse que pediu ao presidente explicações para a demissão do delegado, mas em nenhum momento deu pistas de quais seriam essas motivações – mesmo que não tenham sido reveladas por Bolsonaro.

Moro não sabe que o motivo são as investigações da PF que deverão cercar os filhos de Bolsonaro no caso das fake news e possivelmente nas manifestações pró-ditadura?

O ex-juiz fez uma despedida ao seu estilo simplório de ser. Faltou quase tudo na última coletiva do homem que chegou ao governo como paladino da Justiça e sai corrido por um presidente que desde o começo só se preocupa em blindar a família.

Moro sabe muito bem que participou de um governo dominado por um grupo com envolvimento com milicianos. E saiu porque não cumpriu com tudo o que havia prometido ao chefe. Um dia saberemos o que ele não entregou a Bolsonaro.