Na era de Bolsonaro, o que resta de Leila Diniz, a “Bardot Tropical”, questiona Le Monde

Leila Diniz “dava o sinal de uma revolução sexual e moral ameaçada pela era Bolsonaro”, diz Le Monde Reprodução / Le Monde

PUBLICADO NO RFI

POR SILVANO MENDES

A revista M do jornal francês Le Monde traz uma reportagem de página inteira sobre Leila Diniz. O correspondente do veículo no Brasil apresenta um perfil da atriz de Niterói que, há 50 anos, encarnava a imagem de uma mulher livre em um país conservador.

O correspondente do Le Monde no Brasil usa como ponto de partida uma entrevista concedida por Leila Diniz ao jornal O Pasquim. No texto publicado em 1969, a “atriz mais popular do momento” desvenda sua intimidade sem pudores, conta o jornal francês. “Ela diz ter perdido a virgindade entre 15 e 16 anos, adora tomar banho de lua nua, faz strip-tease de vez em quando e diz nas entrelinhas que passa cada noite da semana com um homem diferente”, lista a reportagem.

O jornal francês relata que, durante toda a conversa, a jovem de 24 anos enfrenta, sem titubear, as perguntas indiscretas dos três jornalistas “machistas e provocadores”. Direta, ela responde de forma franca e sem medo, com os inúmeros palavrões substituídos por asteriscos na edição final e O Pasquim.

Segundo Joaquim Ferreira dos Santos, autor de uma biografia sobre Leila Diniz ouvido pelo Le Monde, “essa entrevista marcou o início da revolução sexual no Brasil. Pela primeira vez na mídia, uma mulher falava livremente de seu prazer, seus desejos e seu corpo”, contextualiza o escritor.

Lei de censura foi apelidada de Decreto Leila Diniz

A revista lembra que a entrevista da “Bardot Tropical” é publicada em plena ditadura militar, quando “o poder da igreja é esmagador, as mães solteiras são vistas como pecadoras e o divórcio é proibido”. O correspondente insiste que, apesar do sucesso da atriz na televisão e em filmes como Todas as Mulheres do Mundo, de Domingos de Oliveira, as declarações no Pasquim chocam – tal ponto que a jovem perde seu contrato na Rede Globo e chega a ter seu nome associado às medidas de censura da imprensa em vigor, apelidadas de “Decreto Lei Diniz”. Tudo isso antes da famosa foto de 1971 quando a jovem, grávida, posa de biquíni na praia de Ipanema, em uma imagem que se tornou icônica.

Um ano depois, a atriz morre vítima de um acidente de avião, aos 27 anos, “a mesma idade da morte de outras duas rebeldes, Janis Joplin e Amy Winehouse”, compara o texto. O Rio de Janeiro perdeu sua ‘garota de Ipanema’, que inspirou em seguida artistas como Erasmo Carlos e Rita Lee ou ainda o escritor Carlos Drummond de Andrade, continua o texto.

A revista resume que a atriz, com seu linguajar livre, “dava o sinal de uma revolução sexual e moral, ameaçada pela era Bolsonaro”. “Cinco décadas mais tarde, em um Brasil governado pela extrema direta, onde o fanatismo evangélico progride, o que resta de Leila?”, se questiona o correspondente do Le Monde.

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