Na guerra, a verdade é a primeira vítima: O Hezbollah não é organização terrorista, ao contrário do que a imprensa pró-EUA diz

Quando governador, Márcio França recebeu empresários libaneses acompanhados de um sheik que apoiava o Hezbollah, partido político como o PSL ou o PT

Uma das primeiras vítimas da guerra é a verdade. E ela já se manifesta com toda força na imprensa pró-Estados Unidos, no conflito que não é oficialmente uma guerra, embora tenha começado com um ato típico de guerra, que foi o assassinato do general iraniano Qasem Soleimani por ordem do presidente de uma potência estrangeira, no caso Donald Trump.

Um exemplo é a reportagem publicada hoje pela Veja, que fala de uma suposta preocupação do governo Bolsonaro com o terrorismo na tríplice fronteira Brasil-Argentina e Paraguai, na qual está Foz do Iguaçu.

A reportagem define o Hezbollah como uma organização terrorista, embora seja do conhecimento de todos de que se trata de um partido político muito popular, que integra o governo de coalização do Líbano, liderado por um cristão.

Diz a reportagem:

Ainda não verbalizado está o temor de que células do Hezbollah e de outras milícias xiitas se aproveitem do terreno fértil do crime organizado da América do Sul, sobretudo na Venezuela e na tríplice fronteira Brasil-Argentina-Paraguai, para se enraizar na região e apostar em atos de terror.

O temor já existia antes dos ataques recíprocos das forças americanas e das milícias xiitas no Iraque, que culminaram na morte do general Qasem Soleimani, comandante das forças especiais Quds da Guarda Revolucionária Iraniana na quinta-feira 2, durante bombardeio de um drone dos Estados Unidos. Mas agora se somam às prioridades de segurança do país, informou uma fonte de Brasília.

Desde o esgotamento financeiro do Irã, provocado pela reimposição de sanções econômicas pelos Estados Unidos em 2018, há suspeitas de que o Hezbollah e outras milícias xiitas antes providas por Teerã tenham iniciado uma busca mais intensiva de fontes de financiamento na América do Sul.

A reportagem protege a fonte, mas pela radicalismo exposto no texto sente-se o cheiro do terraplanista Ernesto Araújo ou outro entusiasta do governo Trump e alinhado a Israel. Ataques recíprocos?

O Hezbollah — palavra que significa Partido de Deus — é formado por muçulmanos xiitas com apoio do Irã e se destacou na resistência à ocupação do Líbano por Israel. Houve enfrentamentos armados na época em que Beirute era palco de guerra.

Quando as tropas israelenses se retiraram, Hezbollah ficou ainda mais popular, e se tornou um dos partidos políticos mais fortes, com a eleição de deputados e ocupação de postos importantes na administração pública do Líbano.

A União Européia resistiu à pressão dos Estados Unidos e de Israel e não considera o Hezbollah uma organização terrorista, embora admita que haja grupos armados no Hezbollah. O Conselho de Segurança da ONU também não incluiu o Hezbollah na lista de entidades terroristas.

Oficialmente, o Brasil também não considera o Hezbollah organização terrorista, como fez com a Al Qaeda e o Talibã.

O Hezbollah foi treinado pela Guarda Revolucionária do Irã, por orientação do aiatolá Khomeini, depois da revolução que derrubou o governo corrupto do xá Reza Pahlavi.

O general Qasem Soleimani comandou o treinamento, daí a defesa vigorosa que o Hezbollah faz de sua memória, com ameaças aos Estados Unidos.

Toda vez que se lê um texto jornalístico que define o Hezbollah como um grupo terrorista, deve-se acender a luz amarela. 

Muito provavelmente se está diante de um texto de propaganda, ainda que assinado por um suposto jornalista.

Em março de 2018, o governador de São Paulo na época, Márcio França, recebeu uma comissão de empresários libaneses no Palácio dos Bandeirantes, e um site evangélico, o Gospel Prime, reproduziu reportagem da Veja que cravava que um dos presentes, o sheik xiita Bilal Mohsen Wehbe, era “o principal nome do grupo terrorista Hezbollah na América do Sul”.

Bilial Mohsen é o responsável por um mesquita no Brás e, em razão disso, popular entre empresários xiitas, muitos apoiadores do Hezbollah, que é um partido político tanto quanto o PSL ou o PT. Para desqualificar o encontro, Veja recorreu a uma fonte de organização de ultra-direita, a Fundação para a Defesa das Democracias.

“É preocupante ver um membro do Hezbollah ter acesso aos mais altos níveis do governo. São internacionalmente conhecidos os vínculos dessa organização com o contrabando e o tráfico de drogas na região da Tríplice Fronteira e os efeitos sobre o Brasil. Seria prudente que os governantes se cuidassem melhor para evitar dar legitimidade para extremistas”, disse Emanuele Ottolenghi, apontado como especialista de seguranças.

Era propaganda.

Jornalistas de verdade sabem que a realidade é bem mais complexa, e o Hezbollah está historicamente ligado ao processo revolucionário que tirou o Irã das mãos de um governo corrupto subordinado aos interesses do Ocidente. Houve enfrentamento armado? Sim. São terroristas? O Hezbollah em si não.

Militantes do Hezbollah em campanha eleitoral no Líbano. Foto: Ramzi Haidar/AFP”

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