Na ONU, indígenas endereçam carta a Lula contra o marco temporal e denunciam ameaças

Atualizado em 30 de setembro de 2023 às 14:28
Secretário executivo do Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Eloy Terena, na ONU (Foto: Sara Vivacqua)

POR SARA VIVACQUA, direto de Genebra, na Suíça

Em Genebra aconteceu a 74ª Sessão do Comitê dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (CESCR). Reuniu relatores da ONU, representantes de diversos ministérios do governo Brasileiro e a sociedade civil.

Houve questionamentos e recomendações à delegação brasileira por causa de diversos relatórios sobre a implementação dos direitos do pacto apresentados por povos indígenas, ciganos, quilombolas, lideres religiosos de matriz africana entre outros grupos.

No centro das preocupações foi colocada a situação dos povos indígenas do Brasil. Lideranças indígenas do povo Arara tiveram que solicitar ao governo escolta para o retorno dos lideres por medo de represálias a ameaças de morte.

O relator especial da ONU, Michael Windfuhr, levantou expressamente a inquietação deste órgão com a tentativa do Congresso Brasileiro de ressuscitar a tese do Marco Temporal, a despeito da decisão do STF sobre sua inconstitucionalidade.

Essa tese, tendo sido declarada pelo STF como inconstitucional, não pode ser contornado por lei infra-constitucional. Mas não apenas isso: a CCJ tem como umas das suas funções o controle preventivo de constitucional de normas, e deveria ter declarado a inconstitucional.

Essa afronta intencional e imediata do Congresso à constituição brasileira foi repudiada pelas Nações Unidas, que alertou o Brasil sobre os perigos desta tentativa.

Os diferentes povos indígenas presentes instaram o presidente brasileiro a vetar a lei por considerar que o PL é inconstitucional e contrário ao interesse público.

Sara Vivacqua
Sara Vivacqua é advogada, graduada em Direito pela Ruprecht-Karls-Universität Heidelberg (Alemanha), e mestre (honours)em Jornalismo Investigativo pela Birkbeck, University of London, com menção máxima (distinction) na dissertação final sobre os povos Yanomami. Atuou como procuradora no Government Legal Department (GLD) junto ao Ministério do Meio Ambiente do Reino Unido, e é conhecida por sua atuação na campanha pela libertação de Julian Assange em Londres