Na sabatina com Bolsonaro, o melhor foi ver a Globo cair como moralista sem moral. Por Joaquim de Carvalho

Atualizado em 29 de agosto de 2018 às 12:40

Bolsonaro se comportou na sabatina da TV Globo como um aluno desbocado, que não aceita reprimenda de professores.

A rigor, nesse ponto, ele está certo.

A Globo não tem autoridade moral nem jornalística para questionar quem deve ou não ser presidente da república.

Ela pode fazer esses questionamentos?

Claro que pode, mas quem se senta na bancada não precisa tratar os apresentadores como representantes do poder moderador do país.

A Globo age como partido político e merece ser tratada como partido político.

O grupo empresarial — família Marinho — ajudou na trama que levou ao suicídio de Getúlio Vargas, ao golpe de 1964, à eleição de Fernando Collor e de Fernando Henrique Cardoso.

Tentou minar o governo Lula, massacrou Dilma Rousseff e se aliou à justiça para levar Lula à prisão, a partir de um boato que circulava no Guarujá — o de que Lula seria dono de um triplex —, e que o jornal O Globo transformou em reportagem.

No melhor momento da sabatina de hoje, quase deu pena de Renata Vasconcellos, ao levar uma invertida de Bolsonaro quando repetiu um bordão que se ouve com frequência da boca de brasileiros despreparados, sem noção de que, ao fim e ao cabo, todos estamos sujeitos a dar explicações sobre a origem de nossos recursos.

Ao questionar Bolsonaro a respeito das declarações misóginas dele sobre as diferenças de salários entre homens e mulheres, o candidato do PSL apontou um exemplo diante dele.

Bonner ganha muito mais do que Renata Vasconcellos. Ele receberia algo em torno de 1 milhão de reais por mês. Já Renata Vasconcellos teria remuneração na faixa dos 300 mil reais.

— Eu poderia até como cidadã e como qualquer cidadão brasileiro fazer questionamentos sobre os seus proventos, porque o senhor é um funcionário público que ocupa um cargo há 27 anos e eu, como contribuinte, ajudo a pagar o seu salário. O meu salário não diz respeito a ninguém.”

Bolsonaro lembrou que não é bem assim.

“Vocês vivem em grande parte aqui de recursos da União. São bilhões que recebem da União, sistema Globo de recursos da propaganda oficial do governo”, disse.

Bonner falou algo inaudível, e Bolsonaro aliviou:

“Bem, vamos lá…”

Bolsonaro poderia ter dito que receber como PJ, caso de Renata Vasconcellos e Bonner, é fraude e prejudica as contas públicas.

Se tivessem a carteira assinada, Renata e Bonner recolheriam de impostos 27,5%.

Mas, como pessoa jurídica, pagam muito menos.

Dependendo do enquadramento da empresa, entre 6 e 16%.

Além disso, ajudam a Globo a sonegar impostos. O salário que a empresa paga a Renata e a Bonner é considerado despesa com fornecedor, e contribui para um recolhimento menor de impostos.

Portanto, ao dizer, como uma coxinha moralista, “eu pago seu salário” e não devo satisfação a ninguém, demonstra ignorância que não se espera de uma jornalista.

Além disso, se Bolsonaro quisesse ou soubesse explorar o assunto, poderia dizer ainda que a Globo já foi flagrada em um caso de sonegação de impostos, o da aquisição dos direitos de transmissão da Copa do Mundo de 2002.

Poderia ainda contar que seu vice-presidente de Relações Instituições, chamado de senador da Globo em Brasília, pressionou a Câmara para incluir na atual lei eleitoral um artigo que lhe garante transformar em crédito tributário o horário da propaganda eleitoral.

Desde 1997, quando a lei foi aprovada, a Globo já obteve em desconto de impostos ou venda de crédito tributário algo em torno de 3 bilhões de reais.

Desde essa época, embora seja concessão pública, recebe indiretamente pela propaganda política, que deixou de ser horário gratuito de propaganda eleitoral.

Ela ganha, o governo perde receita.

Bolsonaro é uma desgraça como político, mas hoje, involuntariamente, deu uma contribuição importante ao debate político sobre o papel da Globo na democracia.

Que outros candidatos sigam por esse caminho.

A Globo é uma moralista sem moral.