“Na Suécia, há milhares de mortes de covid-19 não contadas”, denuncia ao DCM cientista sueca

A epidemióloga sueca Nele Brusselaers

Uma das maiores surpresas de 2020 foi ver a Suécia ser citada por Donald Trump e Jair Bolsonaro como um modelo. Afinal, o país nordico representa tradicionalmente o oposto do que pregam os políticos de extrema direita: estado de bem estar-social, sistema de saúde universal.

Mas quando se ouve a comunidade científica que ousa falar sobre o que a Suécia está fazendo, entende-se por que a gestão sueca se tornou um modelo para o extremismo conservador.

Nas palavras da epidemióloga sueca do Instituto Karolinska Nele Brusselaers, seu país resolveu não fazer nada.

Ao Diário do Centro do Mundo, ela descreve um novo retrato daquele que foi outrora um país quase perfeito: a recusa de um confinamento generalizado, do uso de máscaras, uma mídia acrítica, cientistas comprados pelo governo e o pior crescimento de infecções de coronavírus da Europa.

Ainda assim, denuncia, “há milhares de mortes que não são contadas. Na Suécia, estão tentando fazer de tudo para os números parecerem melhores”.

Sob choque e perplexidade, ela aponta como a gestão do coronavírus em seu país se tornou um desastre nacional e internacional.

DCM: A Suécia tem conhecido um número de casos de coronavírus muito maior do que seus vizinhos, a Finlândia e a Noruega. Por quê?

Nele: Porque eles não tomaram nenhuma medida, comparado a outros países. O país não levou a pandemia a sério. Eles fazem algumas recomendações, que não estão em vigor. Eles não utilizam dispositivos legais para aplicar essas recomendações. Por exemplo, se ainda houver festas, as pessoas não são multadas.

Em diversos lugares, pessoas têm sido proibidas de usar máscaras. Conheço uma médica que foi despedida porque ela queria usar uma máscara.

Há muitas informações divulgadas pela autoridade sueca, incompletas, incorretas ou contraditórias em relação às evidências científicas disponíveis desde o início do ano.

DCM: Enquanto cidadã sueca, é surpreendente ver a Suécia, reputada por cuidar bem de sua população, cometer esses erros?

Nele: Eu ainda estou chocada sobre como a Suécia reagiu e o público está reagindo, sobre não estar revoltado.

O que é frustrante para mim é que o país tem pouca densidade, poucas fronteiras geográficas, estão longe dos lugares mais densamente povoados, não tem um grande tráfego internacional, é um enorme país. Eles não tentaram tomar uma atitude.

Eles poderiam ter feito como a Austrália ou até países asiáticos, ter uma vida relativamente normal, usando máscara, adotando o distanciamento social. Eles nunca tentaram reduzir o número de infecções. Eles sempre buscaram a imunidade coletiva. Publicamente, eles o negam desde o início.

E-mails vazados e declarações mostram que só falam numa estratégia de imunidade coletiva, dizendo que eles não deveriam ter mais mortes do que o “necessário”, mais infecções do que o “necessário”. O que querem dizer com “necessário”? “Necessário” para atingir a imunidade coletiva?

Tantas coisas têm dado errado, tantos escândalos, financeiros. Pessoas têm tido atendimento recusado. Em casas de retiro, há pessoas para quem se prescreve apenas morfina.

Eu não entendo por que a Suécia está agindo desta forma, porque não há revolta.

DCM: Você trabalha na Bélgica, um país que conhece um dos piores índices de mortalidade de coronavírus no mundo. Você ainda assim acredita que a gestão sueca é pior?

Nele: Sim. A Bélgica é 15 vezes mais densamente povoada. A Bélgica está no meio da Europa, tem fronteiras com a França, a Holanda, Alemanha…

A Bélgica não atingiu a capacidade máxima de suas UTIs. Eles implementam mais restrições na Bélgica, mas elas são menos estritas do que na primavera.

A Suécia tem tantos recursos mas não quis fazer nada, tanta capacidade, tantas pessoas dispostas a ajudar…

A Bélgica está numa das piores situações desde o início, mas está gerindo (a crise) muito bem. Na Suécia, não se ouvem as autoridades, não se seguem as recomendações. Não se seguem as regras.

Os números da Bélgica parecem ruins, mas na verdade é um dos países que com mais exatidão registra o número de infecções, comparado por exemplo à Holanda ou à Suécia.

Na Suécia, há milhares de mortes que não são contadas. Mas na Bélgica são, inclusive os casos suspeitos nas casas de retiro. Na Suécia, não são. Na Suécia, estão tentando fazer de tudo para os números parecerem melhores.

Por exemplo, eles não estão contando as pessoas que morrem nos leitos depois de um mês ou estão tentando classificá-las de outro modo, para que pareçam mortes decorrentes de outras doenças.

DCM: Eles (a Suécia) estão escondendo as mortes de Covid-19?

Nele: Sim. No verão, houve mortes que levaram cinco semanas para serem registradas. Na Bélgica, os hospitais são repreendidos se não informam os números.

Essas informações não são priorizadas. Eles falam do número de mortes dos fins de semana. Eles não trabalham nos fins de semana.

Para mim é frustrante porque não há transparência nas informações para o público.

Na Suécia, a maior parte das infecções poderiam ter sido evitadas.

DCM: Os defensores da estratégia sueca apontam uma recessão econômica menor do que em outros países. Ao mesmo tempo, seus compatriotas parecem ser majoritariamente favoráveis ao que está sendo feito. Isso significa que há algo nessa estratégia que funcionou?

Nele: A economia não está indo bem. Ela está pior do que nos outros países nórdicos. Os países que adotaram o “lockdown” se recuperaram mais rápido economicamente.

A China está completamente normal agora. A Austrália está normal de novo.

Com ou sem confinamento, a economia (sueca) é atingida. Em infecções, o país está entre os piores. Em mortalidade, está entre os piores. Em hospitalizações, está entre os piores.

Muitas pessoas têm se refugiado em suas casas secundárias ou se isolado desde que tudo começou, em março, e têm tido muito medo de levar uma vida normal. Enquanto isso, no resto da Europa, a vida era digamos “normal” durante o verão.

As infecções na Suécia eram uma das mais altas do verão. Para mim, é uma loucura que muitas pessoas ainda estejam defendendo o método sueco.

A vida segue na Suécia em meio à pandemia

DCM: O governo sueco nunca mudou de estratégia. Como você avalia essa atitude?

Nele: Para mim, tem sido estranho. Os políticos dizem não saber nada a respeito, que é responsabilidade das autoridades competentes ou das prefeituras.

Há muito pouca discussão desde o início. Os debates, os argumentos políticos, pessoas sendo demitidas de seus cargos. As autoridades sanitárias dizem que não é sua responsabilidade, que apenas fazem recomendações.

Ninguém assume responsabilidade por nada. A única coisa que acontece na câmara dos deputados é dizerem que o método sueco é louco.

Não há debate suficiente, não há crítica, não há comparação. É muito frustrante.

DCM: Lena Einhorn, uma de suas colegas, que entrevistamos no DCM, nos disse que a imprensa não ousa criticar a gestão do governo sueco. Uma outra colega sua, a cientista Claudia Henson, disse à imprensa estrangeira que aceitar falar com eles era assumir um risco para ela. O que está acontecendo com o debate na Suécia?

Nele: Não havia debate. Agora, cada vez mais pessoas estão se questionando. Mas quando você questiona por que não se estão seguindo as recomendações da Organização Mundial da Saúde, você se sente uma raiva contra você.

Muitas das pessoas que estão promovendo o método sueco têm conflito de interesses. Eles recebem dinheiro do governo para promover a Suécia. Eles não são pesquisadores independentes, mas agem como se fossem.

O próprio primeiro-ministro disse que apenas está seguindo as autoridades competentes. Ele é o primeiro-ministro! Do que ele está falando?

Há um ambiente muito hostil. Por exemplo, o vice-reitor do Instituto Karolinska recomendou o uso de máscaras durante as aulas quando o distanciamento social não era possível.

Então já se mudou de discurso no sentido de que antes se dizia que não havia evidências para a eficácia do uso de máscara, em meio a uma pressão política.

As pessoas ainda não estão usando máscaras quando estão numa mesma sala na universidade Karolinska, uma das principais em medicina do mundo.

A maioria das pessoas segue trabalhando de casa quando há a recomendação, mas ninguém usa máscara.

Há tantos interesses políticos. Para mim, é chocante ver que pesquisadores, professores da Karolinska, e de outras universidades, corroborarem o que a Agência Nacional de Saúde diz. Cientistas têm dito que a Agência Nacional de Saúde é a autoridade e sabe o que está fazendo!

A mídia não tem sido objetiva e tem apoiado o método – ou não método – sueco. Em outros países, ela mostraria como é melhor no exterior. A mídia sueca nunca deu um panorama geral.

DCM: O presidente do Brasil, assim como dos Estados Unidos, apresentam a Suécia como um modelo de sucesso para justificar suas respectivas gestões da crise sanitária. Depois dos altos índices de mortes de Covid-19, como você vê a referência ao seu país?

Nele: Em setembro e outubro, houve novamente vozes dizendo “olha a imunidade coletiva na Suécia”! Depois, os números começaram a subir.

Na Suécia os números parecem melhor do que em outros países. A densidade populacional é tão baixa e a sociabilidade é menor do que em outros lugares do continente. É a mesma pandemia.

Não se reduz o número de infecções não fazendo nada, porque senão coloca-se o sistema de saúde em colapso. É uma pandemia. Cresce exponencialmente se nada é feito.

Para mim, muitas pessoas são responsáveis por muito sofrimento. Quando Donald Trump diz algo, milhares de pessoas vão ouvi-lo.

Para mim, a Suécia tem minado todos os esforços de outros países.

DCM: Surpreende-lhe que a Suécia seja usada por personalidades como essas, Donald Trump e Jair Bolsonaro, para justificar suas respectivas políticas?

Nele: Antes dessa pandemia, a Suécia era um Estado modelo, um país rico, um sistema de saúde, um Estado de bem-estar social…Essas personalidades são semelhantes, Jair Bolsonaro e o presidente Trump, colocam a economia e ganhos pessoais na frente da saúde e do bem-estar da população.

Eu sou também uma médica e vejo essa pandemia sob uma perspectiva pessoal: as pessoas estão ficando doentes, tendo sintomas mais duradouros, na família ou em colegas, e precisamos de um sistema de saúde.

Essas pessoas (Bolsonaro e Trump) não veem a saúde de outras pessoas como uma prioridade. Claro que a economia é importante e precisa-se considerar todo o contexto.

Na Suécia, as pessoas têm medo de ir aos hospitais porque ninguém está tomando precauções, não se está usando máscaras. É tão chocante ver tantas informações erradas sendo difundidas pelas autoridades. Isso provoca mais estragos do que a pandemia.

DCM: Considerando o que você observa na Suécia, o que você aconselharia a países como o Brasil, em que certos estados conhecem um aumento no número de casos de Covid-19 e outros, diminuição?

Nele: Testar, rastrear, isolar.

Usem máscara e distanciamento social. Todos nós queremos voltar a uma vida normal… Usar uma máscara não machuca, não é muito grande para colocar e realmente reduz o número de infecções. Evitem aglomerações dentro de casa. E é claro: o auto-isolamento.

Não são medidas caras. Ninguém quer ter um “lockdown”, mas se todo mundo tentar… Na Ásia, funcionou, apenas usando máscaras e tendo cuidado.

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