Na véspera de ser transferido para a reserva por Bolsonaro, general disse que estava alinhado aos governadores. Por Joaquim de Carvalho

General Miotto homenageou Mourão recentemente

Dois dias antes de ser transferido para a reserva por Jair Bolsonaro, num decreto publicado hoje, o general Geraldo Antonio Miotto deu entrevista à radio Gaúcha em que considerava o enfrentamento ao coronavírus “uma guerra” e declarou que as tropas do Sul estavam trabalhando de acordo com as diretrizes dos governos dos Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. Ele era o comandante militar do Sul. Na entrevista, não mencionou o governo federal, conforme se pode conferir no áudio da entrevista abaixo:

Na entrevista, o general parece entusiasmado e cheio de planos e disposição, com um comportamento que em nada se parece com o de um oficial que seria aposentado dois dias depois. Quem conhece os bastidores das Forças Armadas diz que a aposentadoria do general Miotto é parte da rotina. No dia 31 de março, é normal que muitos oficiais passem para a reserva, desde, é claro, que reúnam condições para tanto – pelo menos 30 anos de serviço.

Miotto tem muito mais do que isso — 47 –, pois, para efeito de aposentadoria, se considera como tempo de serviço os anos em que cursaram a academia. Mas ele, aos 64 anos, não tem idade ainda para a aposentadoria compulsória. Poderia permanecer mais seis anos na ativa.

Se vai vestir pijama mais cedo por represália por contrariar a linha de Bolsonaro, que considera a doença do coronavírus “um gripezinha” ou “um resfriadinho”, é difícil que venha a se saber pela boca dele.

Pelo que se conhece da disciplina militar, dificilmente falará algo contra a decisão.

No Exército, é rato encontrar indisciplinados como Bolsonaro, que, em 1986, conseguiu espaço na revista Veja para publicar um artigo em que atacava o comandante do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, comando que que na época tinha status e título de ministro.

Miotto nada falará, mas, mesmo para um leigo, soa estranho que, no meio de uma “guerra”, o presidente demita aquele que estava claramente empenhado em derrotar o inimigo.

 

 

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