Nada vai melhorar para os negros: a única certeza do genial clipe de Childish Gambino. Por Sacramento

Muito tem se falado e especulado a respeito do videoclipe de “This Is America”, obra do rapper, ator, roteirista e norte-americano Donald Glover, a.k.a Childish Gambino.

No rastro das quase 70 milhões de visualizações desde o lançamento no Youtube, há cinco dias, surgiram análises, artigos, elogios de sumidades da música e das artes, vídeos com as reações das pessoas ao assistirem o clipe e listas com as mensagens explícitas ou subliminares contidas na obra.

Há elementos que podem ser interpretados como alusões à Bíblia, ao levante de Soweto, à cultura armamentista dos Estados Unidos e ao ativismo do comediante Richard Pryor. Gambino explorou desde as bases do racismo norte-americano, ao encarnar o personagem Jim Crow, quanto episódios recentes como o massacre de Charleston e o filme “Corra”.

A mensagem mais inconveniente, contudo, aparece sem disfarce poético, quando Gambino foge apavorado de uma multidão de brancos nos segundos finais da música. A perseguição é o aviso de que tudo continuará igual ao começo do vídeo, onde negros são executados, caçados e espancados.

Não há pessimismo na mensagem de “This Is America”. Trata-se de constatação da realidade, nada mais que isso. As evidências estão em toda parte, seja nos Estados Unidos ou no Brasil.

Figuras como a do capitão-do-mato, o negro que perseguia outros negros nos tempos da escravidão, continuam ativas, embora o chicote tenha dado lugar às palavras. O último famoso a encarnar esse papel foi o rapper Kanye West, que compartilhou no Twitter o clipe de Gambino mas parece não ter prestado atenção na história.

West, simpatizante de Donald Trump, disse em entrevista recente ao TMZ que a escravidão foi uma “escolha” dos negros a ela submetidos.

Para piorar, a execução de negros pela polícia continua endêmica nos Estados Unidos. O caso mais recente a ganhar repercussão mundial foi a morte de Stephon Clark, alvo de 20 disparos ao ser abordado pela polícia de Sacramento, na Califórnia. Ele estava desarmado.

Por aqui, o conservadorismo ganha terreno, a ponto de existir o risco de punição ao professor que condenar a escravidão. A ameaça, exposta em matéria do The Intercept Brasil, depende do avanço do projeto de lei Escola Sem Partido.

Com o crescimento do pensamento reacionário, é improvável que as estatísticas das mortes de jovens negros caiam a níveis aceitáveis – se é que existam índices aceitáveis quando se fala de homicídios.

Daqui a uns dias o barulho em torno do clipe de “This Is America” irá diminuir até desaparecer. Pode ser que a música também seja esquecida. Mas há indícios suficientes para fazer acreditar que a mensagem do videoclipe vai durar por muitos anos.

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