Naldo, Moranguinho e nós: por que as mulheres reatam com seus agressores. Por Nathalí Macedo

Após denunciar agressões do cantor Naldo, a vítima Ellen Cardoso, a “Moranguinho”, reatou a relação.  

“Não julguem”, pediu, ao comunicar a decisão em uma rede social.  

Não julgar as escolhas de outras mulheres foi a primeira lição que o feminismo me ensinou – já não problematiza-las, desconfio, equipara-se a um pecado contra a liberdade de expressão e, sobretudo, contra as outras mulheres.  

A despeito do direito de Ellen de relacionar-se com quem quer que queira – mesmo que a pessoa em questão seja um agressor que canta muito mal -, é preciso dizer que ela não é a única: muitas mulheres reatam relações abusivas por muitos motivos diferentes, todos relacionados ao abuso.  

Ninguém “gosta” de apanhar – a não ser em situações muito específicas, é claro (BDSM, por exemplo). De resto, o que existe não são mulheres que “gostam” da violência física e psicológica: existem as mulheres que não conseguem se desvincular do ciclo da violência.  

Funciona mais ou menos assim: ele agride. Ele vai preso. Ele paga fiança, é liberado no mesmo dia e volta ao convívio com a sociedade, que o espera de braços abertos (nota: o show de Naldo no seu dia de saída da prisão lotou a casa).

Ele chora e diz que vai ser diferente (nota 2: não vai), que ama a companheira e que foi só um momento de descontrole (depois a louca sou eu).

Ela sente o peso do lugar de vítima, os julgamentos alheios à sua condição, e se lembra que o seu abusador é também o homem com quem viveu momentos bons. Ela cede. Ele muda nas primeiras semanas. Ele agride. (looping). 

Vendo de fora, sair desse ciclo parece fácil, mas estamos falando de sentimentos e impressões pessoalíssimas. Moranguinho, por exemplo, diz que “queria de volta o Ronaldo que conheceu, sem fama, sem dinheiro”.  Claramente, um desejo inconsciente de quem não está pensando muito bem.  

Mulheres imersas na violência psicológica são, frequentemente, incapazes de pensarem com clareza: muitas vezes, compreendem o ciclo, mas cedem ao romantismo que lhes foi compulsoriamente embutido ao longo da vida. A isso a psicologia chama de dependência emocional.  

A mulher não gera o problema do abuso ao reatar com o seu abusador: ela está, na verdade, ainda submetida à dependência que o abuso lhe causou – quase uma Síndrome de Estocolmo – (e talvez continue pelo resto da vida, caso não encontre um bom terapeuta).  

Não julgamos, Ellen: Reatar com o ex-abusador não é crime – é, no máximo, um mau exemplo. Mas convém dizer: O Ronaldo que você conheceu não vai voltar a existir fora do seu delírio, posto que, na verdade, nunca existiu.  Era mero produto do seu romantismo.  

O homem com quem você se casou é este mesmo que você está vendo: o da violência psicológica, física e, não duvido, o que partilhou com você alguns momentos bons (nota 3: momentos bons não tornam boa uma relação ruim).  

Homens abusadores não são um problema tão simples: vídeos com choro sem lágrimas na internet não resolvem.  

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