“Não desperdicem esses dias difíceis”, diz Papa Francisco

Papa Francisco acena para a multidão na Praça de São Pedro Foto: FILIPPO MONTEFORTE / AFP

PUBLICADO NO UNISINOS

“Nestes dias difíceis, podemos reencontrar os pequenos gestos concretos da proximidade em relação às pessoas que estão mais perto de nós, um carinho em nossos avós, um beijo nas crianças, nas pessoas que amamos. São gestos importantes e decisivos. Se vivermos esses dias assim, eles não serão desperdiçados”.

Papa Francisco vive seus dias no Vaticano, acompanhando de perto as notícias referentes à emergência do coronavírus, e há dois dias ele foi a Santa Maria Maggiore e à igreja de San Marcello al Corso para rezar. O jornal Repubblica conta o que esses dias lhe estão ensinando.

A entrevista com o Papa Francisco é de Paolo Rodari, publicada por La Repubblica, 18-03-2020. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis a entrevista.

Santo Padre, o que você pediu quando foi orar nas duas igrejas romanas?

Pedi ao Senhor para parar a epidemia: Senhor, pare-a com a sua mão. Eu rezei para isso.

Como se podem viver esses dias para que não sejam desperdiçados?

Precisamos reencontrar a concretude das pequenas coisas, das pequenas atenções em relação aos que estão próximos, familiares, amigos. Entender que nas pequenas coisas existe o nosso tesouro. Existem gestos mínimos, que às vezes se perdem no anonimato da vida cotidiana, gestos de ternura, de afeto, de compaixão, que, no entanto, são decisivos, importantes. Por exemplo, um prato quente, um carinho, um abraço, um telefonema … São gestos familiares de atenção aos detalhes do dia-a-dia que fazem a vida ter sentido e que exista comunhão e comunicação entre nós.

Não costumamos viver assim?

Às vezes, vivemos entre nós apenas uma comunicação virtual. Em vez disso, deveríamos descobrir uma nova proximidade. Uma relação concreta feita de atenção e paciência. Muitas vezes, as famílias em casa comem juntas em um grande silêncio que, no entanto, não é causado pela escuta recíproca, mas pelo fato de os pais assistirem televisão enquanto comem e os filhos ficam no celular. Parecem uns monges isolados um do outro. Ali não há comunicação; ao invés disso, escutar-se uns aos outros é importante porque se compreendem as necessidades do outro, as carências, os esforços, os desejos. Existe uma linguagem feita de gestos concretos que devem ser salvaguardados. Na minha opinião, a dor destes dias é para essa concretude que deve abrir.

Muitas pessoas perderam entes queridos, muitas outras estão lutando na linha de frente para salvar outras vidas. O que pode lhes dizer?

Agradeço a quem se dedica dessa maneira pelos outros. São um exemplo dessa concretude. E peço que todos estejam próximos daqueles que perderam seus entes queridos, tentando acompanhá-los de todas as maneiras possíveis. O consolo agora deve ser o empenho de todos. Nesse sentido, fiquei muito impressionado com o artigo escrito no República por Fabio Fazio sobre as coisas que ele está aprendendo nestes dias.

O que em especial?

Muitas passagens, mas em geral o fato de que nossos comportamentos sempre influem sobre a vida dos outros. Ele está certo, por exemplo, quando diz: ‘Tornou-se evidente que quem não paga impostos não comete apenas uma infração, mas um crime: se faltam leitos e respiradores, a culpa também é dele’. Essa coisa me impressionou muito.

Quem não acredita como pode manter a esperança nos dias de hoje?

Todos são filhos de Deus e são olhados por Ele. Mesmo aqueles que ainda não encontraram Deus, aqueles que não têm o dom da fé, podem encontrar ali o seu caminho, nas boas coisas em que acreditam: podem encontrar força no amor pelos próprios filhos, pela família, pelos irmãos. Pode-se dizer: ‘Não posso rezar porque não acredito’. Mas, ao mesmo tempo, pode acreditar no amor das pessoas estão ao seu redor e ali encontrar esperança.

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