‘Não é fácil, mas é possível pensar numa vitória de Boulos’, diz André Singer

Publicado originalmente na Rede Brasil Atual

“Bolsonaro diz que prefere voto em papel para preparar cenário em que se perder vai dizer que houve fraude”

Apesar da dificuldade de o candidato do Psol, Guilherme Boulos, vencer a eleição no segundo turno em São Paulo, no próximo domingo (29), a chance de vitória é real. A opinião é do cientista político André Singer, da Universidade de São Paulo. “Boulos tem uma aceitação mais ampla do que o setor inicial que o apoiava. Precisa ampliar bastante para ter condição de chegada”, disse, no programa Entre Vistas, da TVT. “A disputa é dura. Covas é prefeito (comanda a máquina da prefeitura), o PSDB tem tradição na cidade e há um eleitorado conservador importante em São Paulo. Não é fácil, mas é possível pensar em vitória.”

Para ele, o caráter político de Boulos não pode se confundir com o “radicalismo” com o qual setores conservadores, de direita e extrema direita, querem identificá-lo. “Radical é o que vai à raiz das coisas. Boulos tem uma visão radical ao compreender que boa parte dos problemas contemporâneos se devem ao capitalismo. Mas não é ‘radical’, no sentido de que compreende que só se faz política construindo maiorias, e para isso tem que ser flexível.”

O cientista político comentou a criação, nos últimos anos, segundo ele, de uma falsa polarização entre direita e esquerda, que teria sido construída com a colaboração da esquerda, mas foi criada pelo extremismo de direita. “Precisamos desfazer esse equívoco – disse, em relação à imprensa brasileira – de que há uma polarização dos dois lados, como se os dois lados fossem responsáveis por essa polarização. O radicalismo vem de um lado só. Boulos não fala em eliminar ninguém. Isso só existe em regimes autoritários, e por isso digo que nossa democracia está ameaçada.”

Eleições de 2020 e de 2022

O analista entende que, a partir da eleição municipal, ainda não é possível prever quais serão as forças que disputarão o poder no país em 2022. Embora o presidente Jair Bolsonaro tenha se saído mal em 2020, ele continua competitivo em termos eleitorais. “Primeiro porque é presidente da República. Em segundo lugar, porque, para surpresa de muitos, inclusive a minha, manteve apoio durante pandemia.”

Esse apoio popular se deve, em parte, ao auxilio emergencial, que vai vigorar até dezembro. Por outro lado, “o lulismo está de pé”, afirmou. O autor de Os Sentidos do Lulismo (ed. Companhia das Letras) ressalta que, no cenário para 2022, há “a grande incógnita” sobre se o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva será candidato ou não, “o que faria muita diferença”.

Singer saudou a renovação do pleito de 2020 com a eleição de LGBTs, muitas negras, negros e transexuais. “Isso rompe, mexe com a estrutura tradicional. Mas é importante que esses novos personagens tomem fôlego, porque a luta é longa”, advertiu.

Assista à entrevista

Para ele, as eleições municipais mostraram vitórias de direita, de esquerda e de centro, revelando “diversidade” democrática. “É importante para a democracia que as eleições tenham ocorrido normalmente, porque elas projetam uma eleição que pode também ser normal em 2022.”

O trio de partidos que se saíram melhor – DEM, PSD e PP – “fazem parte da velha direita, são a velha Arena”, avalia Singer, em referência ao partido que reuniu os políticos que deram suporte civil à ditadura iniciada em 1964 e encerrada em 1985 no Brasil. A eleição de 2020 parece ser “um rearranjo” dentro da direita.

“Bolsonaro se enfraqueceu, demonstrou não ser um homem de partido e fica mais dependente da velha direita”. A análise é semelhante à do cientista político da Universidade Federal do ABC Vitor Marchetti.

Bolsonaro e ameaça à democracia

Porém, também há motivos para preocupação, na opinião de André Singer, decorrentes dos problemas e atrasos na apuração dos resultados pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE). “Preocupa porque pode ter havido um ataque cibernético, que não está muito claro, e isso ameaça uma cláusula fundamental do processo democrático, a lisura das eleições, (que) precisam ser críveis no sentido de que não houve fraude.”

A segunda preocupação é a postura de Bolsonaro, que passou a declarar que quer voto em papel em 2022, e que não confia no atual sistema brasileiro. “Ele faz isso para preparar um cenário do tipo (Donald) Trump, em que se perder vai dizer que houve fraude.” Singer mencionou o livro Como as Democracias Morrem (ed. Zahar), de Stevan Levitsky e Daniel Ziblatt. Segundo os autores, um dos primeiros passos para isso é o perdedor não reconhecer que perdeu.

Aécio, Trump e Bolsonaro

Depois de mais de duas semanas em que o democrata Joe Biden foi eleito presidente dos Estados Unidos, o atual mandatário, o republicano Donald Trump, não admite a derrota. Ele insiste, sem apresentar nenhuma prova, que as eleições foram fraudadas, e tem perdido ações na Justiça.

Antes da potencial ameaça representada por Bolsonaro, a comparação imediata com o Brasil são as eleições de 2014, quando o então candidato do PSDB, Aécio Neves, se recusou a aceitar a vitória de Dilma Rousseff e prometeu que ela não governaria. “Foi o começo do golpe parlamentar. Não chamo o impeachment da presidente Dilma de golpe de Estado clássico”, afirmou Singer.

Segundo ele, a postura de Aécio representou “o primeiro canto da sereia golpista, no qual PSDB entrou, e acabou prejudicando o próprio PSDB”. Prova disso é que, em 2018, o partido, que sempre havia sido competitivo ficou com 5%, enquanto o PT, que perdeu, ficou com 45% dos votos com Fernando Haddad. Isso mostra que “a síndrome golpista antiga no Brasil muitas vezes prejudica o aprendiz de feiticeiro”, na opinião do analista da USP.

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