“Não é lícito calar”: a lição de um sobrevivente de Auschwitz para tempos nazi-bolsonaristas. Por Kiko Nogueira

Primo Levi

No dia 27 de janeiro é celebrado o 75º aniversário da liberação do campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau pelo Exército Vermelho.

O nazismo poderia ou deveria ser uma memória distante, mas nunca morreu.

Roberto Alvim, o secretário de Cultura de Bolsonaro que plagiou Goebbels num vídeo infame, só foi demitido porque ousou dar à coisa o nome que a coisa tem e incomodou a comunidade judaica bolsonarista.

A essência nazi continua firme e forte num chefe de estado que afirma que o “índio está se tornando um ser humano igual a nós”.

Em 1955, o escritor judeu-italiano Primo Levi (1919-1987), autor do clássico “É isso um Homem?“, suas memórias de prisioneiro sob o regime de Hiterl, publicou um ensaio chamado “Deportados. Aniversário”.

Levi discorre sobre a necessidade de lembrar e, mais importante, não calar diante do fascismo.

Reproduzo alguns trechos:

Dez anos depois da libertação dos campos de concentração, é triste e significativo constatar que, pelo menos na Itália, o assunto, em vez de ter se tornado história, está caindo no mais completo esquecimento.

Nesta ocasião, é supérfluo lembrar números; lembrar que se tratou da mais gigantesca carnificina da história, a ponto de praticamente reduzir a zero, por exemplo, toda a população de judeus de nações inteiras da Europa Oriental; lembrar que, se a Alemanha nazista tivesse tido as condições de levar seu plano a termo, a técnica experimentada em Auschwitz e em outros lugares teria sido aplicada a continentes inteiros com a conhecida seriedade dos alemães. (…)

Não é lícito esquecer, não é lícito calar. Se calarmos, quem falará? Claro que não os culpados e seus cúmplices. Se faltar nosso testemunho, num futuro nada distante os feitos da bestialidade nazista, exatamente por sua enormidade, poderão ser relegados ao rol das lendas. Falar, portanto, é preciso. (…)

Mas não será descabido mencionar outro aspecto desse silêncio, dessa reserva, dessa fuga. Que na Alemanha não se fale do assunto, que os fascistas se calem, é coisa natural que no fundo não nos desagrada. Suas palavras não servem para nada, não devemos esperar deles tentativas risíveis de justificação.

Mas que dizer do silêncio do mundo civilizado, do silêncio da cultura, de nosso próprio silêncio, diante de nossos filhos, diante dos amigos que voltam de longos anos de exílio em países distantes? Isso não se deve apenas ao cansaço, à debilitação dos anos, ao comportamento normal de “primeiro viver, depois filosofar”.

Não se deve à covardia. Vive em nós uma instância mais profunda, mais digna, que em muitas circunstâncias nos aconselha a calar sobre os campos de concentração ou pelo menos atenuar, censurar suas imagens, ainda tão vivas em nossa memória.

É a vergonha. Somos homens, pertencemos à mesma família humana a que pertenceram nossos carrascos. Diante da enormidade de sua culpa, também nós nos sentimos cidadãos de Sodoma e Gomorra; não conseguimos nos sentir alheios à acusação que algum juiz extraterrestre proferiria contra a humanidade inteira, com base em nosso próprio testemunho.

Somos filhos da Europa onde fica Auschwitz: vivemos no século em que a ciência foi vergada e gerou o código racial e as câmaras de gás. Quem pode ter certeza de estar imune à infecção? (…)

É bom que essas coisas sejam ditas, pois são verdadeiras. Mas fique claro que não significa irmanar vítimas e assassinos: isso não atenua; ao contrário, agrava mil vezes a culpa de fascistas e nazistas. Estes demonstraram para todos os séculos vindouros as insuspeitadas reservas de ferocidade e loucura que jazem latentes no homem depois de milênios de vida civilizada, e essa é uma obra demoníaca.

Trabalharam com tenacidade para criar sua gigantesca máquina geradora de morte e corrupção: não seria imaginável um crime maior. Construíram insolentemente seu reino com os instrumentos do ódio, da violência e da mentira: a ruína deles é uma advertência. 

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