
Não é apenas mais uma briga de internet. O novo ataque de Eduardo Bolsonaro contra Nikolas Ferreira escancara algo mais profundo: uma disputa interna que atinge diretamente o projeto político de Flávio Bolsonaro e, no limite, a própria sobrevivência do bolsonarismo como bloco coeso.
A cena lembra o poema “Quadrilha”, de Carlos Drummond de Andrade, mas numa versão com mandato e algoritmo: Eduardo odeia Flávio, que odeia Carluxo, que odeia Michelle — e todos desconfiam de todos. No meio disso, a base se fragmenta.
No domingo (5), poucas horas após Flávio pedir “pacificação” entre aliados, Eduardo fez exatamente o oposto. Compartilhou um vídeo do influenciador Kim Paim com ataques a Nikolas e reforçou a tese de que o deputado mineiro estaria, de forma indireta, impulsionando perfis críticos à família Bolsonaro.
No vídeo, Paim sustenta que Nikolas manipula o funcionamento das redes ao interagir com conteúdos aparentemente neutros, mas que ajudariam a ampliar o alcance de adversários. “Ele pega o seu imenso engajamento e empresta a quem prega voto nulo ou difama a família Bolsonaro”, afirma. Eduardo endossou: “Por isso odeiam tanto o Kim Paim”.
Por isso odeiam tanto o @kimpaim.
Vale a pena assistir tudo para entender o que está ocorrendo:https://t.co/nrbAJIKfBM pic.twitter.com/XnrAxBPNzJ
— Eduardo Bolsonaro🇧🇷 (@BolsonaroSP) April 6, 2026
A ofensiva foi um balde de água fria na tentativa de Flávio de conter a crise. Em vídeo, o senador havia apelado por trégua: “É muito angustiante ver lideranças do nosso lado se digladiando enquanto a gente tem um país para resgatar”. E alertou: “esse é o tipo de confusão que não tem vencedor”.
Mas tem perdedor e, neste momento, atende pelo nome de Flávio Bolsonaro. Sua tentativa de se consolidar como presidenciável esbarra não apenas em adversários externos, mas na sabotagem doméstica.
O “moderado” não põe ordem nem sequer em sua pocilga.
A reação de aliados escancarou o racha. O comentarista foragido Rodrigo Constantino criticou Eduardo: o gesto mostraria desrespeito à liderança do irmão. O filho de Bolsonaro logo rebateu: “Estou trabalhando para derrubar um grupo político anti-bolsonarista. Como você não tem argumentos, cria intriga”.
Eduardo Bolsonaro rebate Rodrigo Constantino:
“Não faz sentido eu ter feito tanto esforço para colocar o Flávio pra concorrer a presidente e agora querer derrubá-lo. Estou trabalhando para derrubar um grupo político anti-bolsonarista. Como você não tem argumentos, cria intriga.” pic.twitter.com/VwKVRX3RRb
— Pri (@Pri_usabr1) April 6, 2026
Já o vereador Guilherme Kilter ironizou as acusações contra Nikolas, reduzindo-as a “dar risada” e “treinar o algoritmo”.
O episódio evidencia que a disputa deixou de ser pontual e virou estrutural. Não é só treta: é uma guerra por influência, narrativa e herança política dentro do clã Bolsonaro — travada em público, amplificada pelas redes e cada vez mais difícil de disfarçar.
Como na “Quadrilha”, ninguém termina com quem começou. E, no final, sobra apenas o ódio e o cheiro de carne podre.