Não faz sentido Serra estar solto e Paulo Preto preso. Por José Cássio

Paulo Preto e Serra

Além da desconfiança de que Gilmar Mendes se move para livrar Paulo Preto, o operador tucano preso pela PF nesta terça na 60ª fase da Lava Jato, outro fato chama a atenção na operação denominada “Ad Infinitum”: por que José Serra, ex-prefeito entre 2005 e 2006 e ex governador de São Paulo entre 2009 e 2010 não tem o nome envolvido no escândalo?

O atual senador pelo PSDB poderá alegar que tem foro privilegiado.

Ainda poderá dizer que o esquema investigado nesta fase operou entre 2010 e 2011 – e 2010 foi o ano em que ele renunciou ao governo para se candidatar à presidência da República.

Ok, vamos considerar.

Um outro objetivo da operação, porém, não deixa dúvidas: é o que informa que ela apura um complexo método de lavagem de dinheiro envolvendo repasses do chamado Setor de Operações Estruturadas da Odebrecht para que “a empreiteira desse dinheiro a campanhas eleitorais”.

Em janeiro, a Justiça suíça autorizou o envio de informações bancárias ao Brasil para compor investigação que apura supostos repasses para campanhas do PSDB e do senador tucano por meio de instituições financeiras locais.

A decisão final, tornada pública no dia 10, ocorreu após os suíços rejeitarem um recurso que pedia a suspensão da cooperação entre as procuradorias dos dois países.

Essa frente de apuração investiga a delação de diretores da Odebrecht sobre quatro contas atribuídas a Paulo Preto no valor de R$ 113 milhões.

O montante que estava na Suíça foi posteriormente transferido, segundo a polícia, para contas em um banco das Bahamas e motivou a quebra do sigilo bancário do testa de ferro tucano, o bloqueio de valores nas contas suíças e o compartilhamento dos documentos obtidos pelas autoridades do país europeu.

A decisão faz parte de um processo que corre em segredo de Justiça e que acabou tornado público quando foi anexado por advogados em um inquérito em curso no Supremo Tribunal Federal (STF) que já investiga Serra.

Autorizada pelo ministro Edson Fachin, o mesmo que vai relatar a operação de hoje, para desespero de Serra e Gilmar Mendes, essa investigação apura o pagamento de propina pela Odebrecht durante as obras do trecho sul do Rodoanel Mario Covas.

Diretor da Dersa entre 2007 e 2010, levado para dentro do governo de São Paulo por Aloysio Nunes, Paulo Preto é acusado de diversos crimes.

Ele está implicado também em denúncias de montagem de cartel de empresas entre 2004 e 2008, período em que Serra era prefeito de São Paulo, Kassab vice e Aloysio chefe da Casa Civil, para direcionar projetos viários em troca de propina.

Novamente preso nesta manhã, Paulo Preto foi levado para Curitiba. A PF também cumpriu mandados de busca e apreensão em endereços ligados a Aloysio Nunes.

Tranquilo Serra não está. Sabe que, a despeito do nome da operação, “Ad Infinitum”, que pode muito bem ser entendida como ‘vamos até o infinito sem nunca achar um tucano de rica plumagem’, em algum momento terá prestar contas ao país.

Seu parceiro Kassab teve de se afastar do cargo de chefe da Casa Civil do governo Doria por causa de investigação da mesma natureza.
Hoje foi Aloysio quem teve os endereços vasculhados e, finalmente, Paulo Preto ficará encarcerado por mais que isso incomode certas autoridades.

A Lava Jato finalmente pode mostrar que não é um projeto de poder em desfavor do PT e seus satélites.

Basta provar que a operação desta manhã não é mais uma cortina de fumaça, comandada nas entrelinhas por Sergio Moro e cia, para desviar a atenção da opinião pública para a palhaçada que virou o Brasil sob Bolsonaro.

 

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