Não há comprovação de segurança da polilaminina para lesão medular, alertam neurologistas

Atualizado em 23 de fevereiro de 2026 às 17:08
A doutora Tatiana Coelho de Sampaio e a polilaminina

A Academia Brasileira de Neurologia (ABN) divulgou nesta segunda-feira (23) uma nota pública afirmando que não existem publicações científicas que comprovem a segurança e a eficácia da polilaminina no tratamento de lesão medular em seres humanos.

A entidade, que reúne mais de 5 mil neurologistas no país, destacou que qualquer nova terapia precisa cumprir etapas rigorosas de pesquisa clínica, passando pelas fases 1, 2 e 3 antes de receber autorização para prescrição médica.

No comunicado, a ABN afirma que o uso de terapias experimentais deve ocorrer exclusivamente dentro de protocolos formais de ensaio clínico, com metodologia científica adequada e aprovação de comitês de ética, conforme determina a legislação brasileira.

Também nesta segunda-feira, a Sociedade Brasileira de Neurologia reforçou que lesões medulares são condições complexas, que exigem abordagem multidisciplinar baseada em protocolos consolidados e evidências robustas de segurança e eficácia.

As manifestações se somam a um editorial conjunto da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e da Academia Brasileira de Ciências (ABC), que alertou para o risco de confundir pesquisa experimental com aplicação clínica. As entidades defendem que eventuais questionamentos sobre a substância sejam discutidos com revisão por pares e transparência, evitando judicialização ou exposição midiática antes da consolidação dos dados científicos.

A polilaminina está atualmente em fase de testes de segurança na Anvisa, mas ganhou projeção na imprensa e nas redes sociais nos últimos meses.

Nota da ABN (Academia Brasileira de Neurologia) sobre a polilaminina

Relatos individuais passaram a ser apresentados como indícios de eficácia, e pacientes têm recorrido à Justiça para obter a aplicação do produto fora do ensaio clínico formal. Nesses casos, não há acompanhamento dentro de protocolo estruturado de pesquisa.

O debate ganhou força após a divulgação, no ano passado, de um estudo preliminar da Universidade Federal do Rio de Janeiro, liderado pela pesquisadora Tatiana Coelho de Sampaio, envolvendo oito pacientes.

Segundo o trabalho, seis deles apresentaram algum grau de recuperação motora. No entanto, os resultados ainda não passaram por revisão por pares, etapa considerada essencial para validar metodologia, dados e conclusões.

Especialistas lembram que até 30% dos pacientes com lesão medular aguda podem recuperar parcialmente movimentos sem uso da substância, dependendo do tipo de lesão e da resposta individual. Caso a fase 1 comprove segurança, os testes precisarão avançar para as fases 2 e 3, que avaliam eficácia, dose adequada e efeitos adversos em grupos maiores. Somente após a conclusão dessas etapas será possível solicitar registro sanitário e eventual autorização para comercialização.