Não importa o que digam, PSDB é favorito ao governo paulista. Por Luis Felipe Miguel

Atualizado em 19 de junho de 2021 às 15:49
Governo do Estado de São Paulo/Divulgação

Originalmente publicado no FACEBOOK

Por Luis Felipe Miguel

Não importa o que digam as pesquisas hoje, o PSDB é favorito ao governo paulista.

Mas há dois bons candidatos à esquerda, Fernando Haddad e Guilherme Boulos, que mostram bastante potencial eleitoral. Se juntarem forças, vai haver, pela primeira vez em muito tempo, chance de mudar o jogo.

O problema é que, aparentemente, eles estão embolados na faixa dos 15% das intenções de voto. As duas últimas pesquisas, nenhuma das duas particularmente confiável, dão Haddad e Boulos no empate técnico; numa Boulos está numericamente à frente, na outra é Haddad.

Deixando de lado os números, que nem dizem tanto no atual momento, também há argumentos para afirmar que um ou outro tem maior potencial eleitoral.

Boulos tem o capital de simpatia que amealhou nas eleições municipais do ano passado, é um orador cativante, foi adotado por uma parte da elite bem pensante, não precisa se resolver com o antipetismo ainda renitente de parte do eleitorado paulista. Haddad tem mais experiência, um recall mais abrangente, um partido mais estruturado e margem de manobra para alcançar alianças mais amplas.

Se a política brasileira fosse o que era há dez anos, em condições similares, eu apostaria na candidatura de Haddad. Se fosse o que era há cinco anos, em Boulos. Hoje, eu tendo a pensar que, com as informações disponíveis, dá para dizer que eles têm chances similares – ou seja, que não dá para dizer nada.

A única certeza é que a chance tanto de um quanto de outro aumenta muito caso haja uma candidatura única à esquerda. Portanto, tentar desatar este nó é importante.

Mas o fato de ser importante não significa que vá ser alcançado. Ambas as candidaturas são legítimas e tanto PT quanto PSOL têm bons motivos para mantê-las.

Vejo muitos amigos do PSOL exigindo que o PT retire a candidatura de Haddad e apoie Boulos. Se não, seria “hegemonismo”.

Só que não é assim que a negociação política funciona. Ninguém cede a cabeça de chapa por caridade, por misericórdia. Ninguém diz pro outro partido “tá bom, você é café com leite, vou te dar uma vantagem”. Sobretudo se tratando da unidade mais poderosa da federação.

Um eventual apoio do PT a Boulos teria que vir como parte de uma negociação nacional. Não sei se o PSOL tem força para impor isso. Ainda mais agora, sofrendo defecções importantes e inclinado a apoiar a candidatura presidencial de Lula de qualquer maneira.

Mesmo que não apoie. Glauber Braga é um grande deputado, com certeza um dos melhores que temos. Mas quantos votos ele faria para presidente? Se eu tivesse que vaticinar, diria que menos do que o 0,58% que Boulos fez em 2018. Qual a bancada federal que o PSOL aspira eleger? Enfim, vocês entenderam: não dá para querer ser tratado como partido grande quando se é pequeno.

A situação do PSOL é pior ainda no Rio de Janeiro, onde se travará a eleição estadual mais importante do ano que vem. É fundamental enfraquecer as milícias em seu próprio berço.

Justamente por isso, o movimento feito por Marcelo Feixo não pode simplesmente desprezado como oportunista.

É claro que dá calafrios ver Raul Jungman coordenando a elaboração do plano de segurança pública da campanha de Freixo. A virada pragmática do deputado com certeza custará caro.

Mas derrotar o crime organizado na política fluminense é um objetivo prioritário demais para que outras considerações ganhem o peso que poderiam ter. O próprio PSOL não tem muitas alternativas além de apoiar a candidatura de seu ex-filiado.

Por isso, as reações por vezes agressivas de alguns parlamentares e dirigentes do partido à saída de Freixo foram despropositadas – na verdade, infantis. A desfiliação já era esperada há meses, não houve nenhuma surpresa. Ninguém precisava passar recibo.

Foram bem mais maduros os quadros do PCdoB diante da saída de Flávio Dino – outro que se tornara grande demais para a legenda onde estava abrigado. Desejaram boa sorte e mantiveram todas as portas abertas.

“Grande demais para a legenda”: talvez não seja exatamente este o ponto. Em seus quase 20 anos de existência, o PSOL não conseguiu se firmar como partido com identidade autônoma. Sempre foi algo do tipo “somos de esquerda mas não somos o PT”.

Se tivesse um perfil claro – se tivesse se tornado efetivamente o partido socialista que era necessário no Brasil quando ele se separou do PT – não seria tão fácil ser descartado por outra legenda.

Mas não foi o que ocorreu. O PSOL se tornou o abrigo de quem se decepcionava com o PT não por causa de sua conversão em partido da ordem, mas pela corrupção. O socialismo do nome foi diluído num vago progressismo, como costuma ocorrer no Brasil. Por fim, o PSOL virou a sede das diversas causas minoritárias e pautas identitárias – cumprindo um papel semelhante ao do antigo Partido Radical italiano.

Um papel até importante, mas que é de partido estritamente parlamentar, sem vocação para o poder (e que por isso pode permanecer sem um perfil programático claro).

E o PSOL tampouco foi capaz de assumir essa opção.

Há mesmo uma certa esquizofrenia em suas movimentações. Abre-se às mais diversas candidaturas, a fim de alcançar maior densidade eleitoral, com isso reforçando sua condição de “federação de agendas”. E depois fica numa interminável disputa interna para garantir alguma unidade de ação. Olhando de fora, a impressão que tenho é que uma parcela enorme da energia de seus militantes e dirigentes é direcionada para esta disputa interna.

Com o retrocesso político acelerado no Brasil, o PSOL foi cada vez mais se vendo constrangido a operar como uma tendência de esquerda do PT. Mas, como muitos de seus militantes têm percebido, se é para operar como uma tendência do PT, então é melhor estar de uma vez dentro do PT.

É uma pena. O Brasil precisava de um partido com compromisso socialista claro, com peso político, à esquerda do PT. Na verdade, até o PT precisa de um partido à esquerda do PT.

O PSOL tem excelentes parlamentares e intelectuais. Mas parece viver uma permanente crise de identidade.

(Como de costume, críticas são bem vindas, mas comentários depreciativos, quer ao PSOL, quer ao PT, serão apagados.)

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