Não mentirás: expulsão do Podemos é teatrinho para o pastor Feliciano se filiar a partido apoiado por lobista

O pastor Marco Feliciano

Sob certo sentido, a política é um teatro, mas às vezes os atores exageram. É o que parece ter acontecido no caso da “expulsão” do pastor Marco Feliciano do Podemos.

Oficialmente, o partido presidido nacionalmente pelo senador Álvaro Dias informa que o expulsou por ter apoiado Jair Bolsonaro na eleição do ano passado. O Podemos tinha um candidato: Álvaro Dias.

Só que a expulsão já era esperada por Feliciano desde o ano passado, quando ele se aproximou do Avante, partido político que é presidido no estado por Josué Tavares, mas que tem como homem forte o ex-deputado Cândido Vacarezza, que já foi do PT.

Nos bastidores da política, já se sabia que Feliciano tinha negociado sua transferência para o partido de Vacarezza. Mas a dica foi dada por um empresário que é conhecido por intermediar negócios com o poder público, sobretudo prefeituras.

É Vladimir Ramos. Em seu perfil na rede social, ele publicou a nota em que Feliciano comunica sua expulsão do Podemos.

“Em relação à minha expulsão do Podemos, assim me manifesto:

1 – Ser expulso de um partido por apoiar o presidente Bolsonaro é para mim motivo de orgulho. Por isso, aceito a decisão.

2 – Contudo, saliento que se tratou de um processo de exceção, onde sequer fui intimado a me defender.

3 – Os motivos elencados pelo partido para me expulsar são todos mentirosos. Afinal, se fossem verdade, teriam que expulsar quase todos os deputados federais, pois, como eu, pediram ressarcimento de gastos em saude (ele faz referência ao reembolso de R$ 157 mil  por um tratamento dentário).

4 – Nesse sentido, afirmo que jamais cometi qualquer irregularidade na minha vida pública, e quem disser ao contrário será devidamente processado civil e criminalmente.

5 – Por fim, deixo claro que tudo isso é uma trama do presidente estadual do Podemos, Mário Covas Neto, que colocou o partido a reboque dos interesses de seu parente Bruno Covas.”

Ele assinou a nota de Dakar, do Senegal, onde está em viagem com o ministro das Relações Exteriores, Ernesto Araújo.

Desde que este governo teve início, Feliciano é figura carimbada nas viagens oficiais, sobretudo com Bolsonaro, onde se empenha para aparecer como papagaio de pirata, ainda que, para isso, tenha às vezes que ficar na ponta dos pés.

Um político que participou das negociações para que Feliciano trocasse o Podemos pelo Avante diz que uma das condições é que Feliciano colasse a sua imagem em Bolsonaro.

A orientação teria partido de Vladimir Ramos, conhecido na Assembleia Legislativa de São Paulo pela locação de automóveis e também por ser distribuidor de material didático para prefeituras.

Ao reproduzir a nota de Feliciano, Vladimir publicou uma mensagem cifrada sobre o destino do deputado federal.

Disse ele:

“Tem meu respeito e admiração. Podemos até ter divergências políticas, mas o Deputado Marco Feliciano é incansável na defesa dos interesses do país e da família, convarde esta decisão do presidente estadual do partido. Marco Feliciano é um deputado de posicionamentos claros e seu apoio ao presidente Jair Bolsonaro foi o pivô dessa expulsão. Que Deus abençoe Deputado Marco Feliciano!!! Voe novos ares. Acima e Avante.

Feliciano teve 239.784 votos na última eleição para deputado federal. Em 2014, disputando pelo PSC, teve 398.087. Portanto, é um político decadente em termos de votação, porém o Avante não espera que ele se eleja prefeito, mas que, apoiado no discurso evangélico e na imagem colada a Bolsonaro, ele consiga ter votação expressiva, para eleger de dois a três vereadores.

Feliciano não perde nada, já que, mesmo derrotado nas urnas, mantém seu mandato em Brasília e usa a eleição como vitrine.

Assim como é próximo do Avante, Vladimir mantém boas relações com o PRB de Edir Macedo. Em sua rede social, ele posta fotografias com políticos dos dois partidos, inclusive com o prefeito Ney Santos, do PRB, aquele que o Ministério Público acusa de integrar a facção criminosa PCC.

Segundo um político que acompanha de perto os bastidores dos dois partidos, Feliciano, com o apoio de Vladimir Ramos, vai tentar costurar uma aliança para se apresentar ao eleitor como candidato dos evangélicos.

Dificilmente terá o apoio da maioria dos eleitores do segmento, mas tentará, repetindo versículos bíblicos que foram usados na campanha de Bolsonaro.

Bolsonaro, por sua vez, caso não consiga formar seu partido a tempo de disputar a eleição do ano que vem, poderá apoiar Feliciano.

Há milhões de motivos em jogo para que Feliciano tope a empreitada.

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Nota da redação: Dois dirigentes do Avante foram procurados, entre eles o presidente estadual do partido, Josué Tavares. Mas não houve resposta. O espaço fica aberto para que todos os citados na reportagem se manifestem.

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