“Não nasceu de mim, mas era meu”: advogado relata o desespero no IML dos parentes das vítimas de Paraisópolis

Moradores de Paraisópolis protestam contra o massacre causado pela PM

POR ARNÓBIO ROCHA, coordenador do Núcleo de Ações Emergenciais e de Defesa de Direitos Ameaçados da comissão de direitos humanos da OAB/SP

A única novidade desse domingo era ser o 1° de dezembro do assombroso ano de 2019, que parece ser 1808, 1850, ou qualquer ano imperial, escravocrata em que a democracia esteve por um fio.

Cedo as primeiras notícias de que houve mais uma tragédia na segunda maior favela de São Paulo, Paraisópolis, ali colada aos bacanas do Morumbi, que enfeia a paisagem com a imagem da exclusão.

A tensão aumenta a cada novo vídeo. A narrativa da Polícia Militar, de que perseguiu dois fugitivos e que estes provocaram o tumulto, se dissolveu em horas com as imagens dos celulares dos sobreviventes da tragédia.

A intensa troca de telefonemas e de mensagens com o ouvidor da Polícia, com integrantes da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP, com advogados e com jornalistas vai alterando a percepção da enorme gravidade, o clamor contra impunidade aumenta.

A noite cai, a nota da Comissão de Direitos Humanos da OAB/SP e a fala da presidente da Comissão têm grande repercussão, mais notas de entidades de Direitos Humanos reforçam a necessidade de exigir rigorosa apuração.

O fechar de domingo parece certo, entretanto somos chamados para a ação.

Os corpos das vítimas estão sendo liberados pelo Instituto Médico Legal (IML) sem a certeza de que as perícias foram feitas com os detalhes necessários para esclarecimentos.

Somos convocados ao IML, o último e mais doloroso recanto da tragédia, onde as famílias e familiares são chamados para reconhecer e levar seus mortos.

Chegando lá um grupo de jornalistas ávidos por um fiapo de história, mesmo com a gigante tragédia ali, aos seus olhos.

Damos com a falta de vontade do IML em apenas dizer como foram feitas a perícia, ainda que questionado por nossas entidades legítimas, OAB e CONDEPE.

Resposta padrão, amanhã voltem aqui, pois não tem ninguém responsável que possa falar.

Encontramos as últimas famílias, o choro desesperado de um senhor nos chama a atenção, corremos para acolhê-lo, dar água e conversar.

Rapidamente nos conta que acabou de reconhecer seu filho, ainda que “não nasceu de mim, mas era meu, apesar de descender de pai japonês, diziam que parecia comigo”.

Repete que ele faria 21 anos em janeiro.

Minutos depois uma moça grita desesperada, viu uma foto do rosto e braço tatuado de sua prima/irmã, mal completara 18 anos, estava desgarrada, não tinha pai e nem mãe, era criada pelo tio, que chega depois.

Mesmo com insistência, não somos atendidos.

A veia de advogado fala mais alto, de próprio punho registramos nossos protestos pela recusa do IML em fornecer informações precisas e essenciais ao caso.

A comoção da madrugada segue uma dor e um resto de noite insone, como dormir diante de tão dilacerante tragédia, pensar naqueles jovens encurralados numa viela estreita, numa correria insana, acabam por morrer, naquilo que seria apenas um baile funk, de celebrar a alegria, dos mais simples, periféricos e pobres de um sociedade que os excluiu.

A vida acorda mais triste e o peso de nossas responsabilidades aumenta a cada dia, a pela dignidade humana, pelos direitos fundamentais e humanos, que o Estado chegue aos mais pobres, não por balas, mas por inclusão e paz.

A utopia nossa de que dias/madrugadas assim possam acabar é posta em xeque.

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