“Não pode haver recuo diante de Bolsonaro”, diz Ricardo Galvão, ex-diretor do Inpe, ao DCM. Por Zambarda

Ricardo Galvão, ex-presidente do Inpe

Ricardo Magnus Osório Galvão completou 72 anos no dia 21 de dezembro.

Quatro dias antes, ganhou um presidente de aniversário antecipado: foi eleito entre os 10 maiores nomes da ciência em 2019 pela respeitada revista americana Nature.

Seu nome apareceu no ranking porque, quando era presidente do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), ele questionou Jair Bolsonaro.

O presidente da República afirmou em 19 de julho que Galvão divulgou “dados mentirosos sobre o desmatamento na Amazônia”.

O físico respondeu no dia seguinte: “A primeira coisa que eu posso dizer é que o sr. Jair Bolsonaro precisa entender que um presidente da República não pode falar em público, principalmente em uma entrevista coletiva para a imprensa, como se estivesse em uma conversa de botequim. Ele fez comentários impróprios e sem nenhum embasamento e fez ataques inaceitáveis não somente a mim, mas a pessoas que trabalham pela ciência desse País. Ele disse estar convicto de que os dados do Inpe são mentirosos. Mais do que ofensivo a mim, isso foi muito ofensivo à instituição”.

Galvão foi exonerado em agosto.

Ele falou ao DCM sobre os bastidores do prêmio da revista Nature, incluindo uma entrevista dada em Nova York, e sua mensagem para os jovens brasileiros que se importam com a ciência no país governado por Bolsonaro.

Diário do Centro do Mundo: O senhor conhece algum caso parecido com aquele que passou diante de Bolsonaro? Voltamos pra Idade Média?

Ricardo Galvão: Não tenho conhecimento de cientistas que tiveram seus trabalhos cerceados por governos que acreditam no negacionismo científico. Não tenho informações atualizadas sobre isso. É claro que, no passado, isso era mais comum.

Há uma famosa frase de Adolf Hitler quando um físico chamado Max Planck pediu que ele parasse de demitir pessoas por razões políticas – os judeus, no caso.

Naquela ocasião, Hitler respondeu pra ele: “O governo alemão não vai mudar seus planos, e muito menos seus objetivos, mesmo que seja para satisfazer cientistas”.

Planck então respondeu: “Se a demissão dos cientistas judeus significar o corte dos trabalhos da ciência alemã, então ficaremos sem ciência por alguns anos”.

Foi um famoso caso de enfrentamento.

Tivemos muitos outros casos parecidos na história, mas no Brasil recente, antes de Bolsonaro, não. Na ditadura militar houve situações desse tipo mas por razões políticas e não por negar a ciência.

O caso mais perto que tivemos com o atual governo foi em 2008. Naquela ocasião também o Inpe deu dados do desmatamento da Amazônia e mostrou que 53% de todo o desmatamento da Amazônia estava acontecendo no Mato Grosso.

O governador da época, Blairo Maggi, atacou o Inpe da mesma forma que fez o presidente Bolsonaro agora. Ele disse que os dados eram mentirosos porque o Inpe estava a serviço de alguém que não era especificado.

A então ministra Marina Silva teve uma atuação muito forte contra aquela atitude. Por isso não foi necessário que nenhum cientista reagisse ao governador. Havia um apoio maior à ciência.

Sempre teve um ou outro que acabou atacando a ciência. Mas num governo como temos hoje, não tenho conhecimento de algo semelhante. Nem mesmo na ditadura militar.

Ricardo Galvão na Nature. Foto: Reprodução

DCM: A Revista Nature, além de ter colocado seu nome entre os maiores da ciência em 2019, te categorizou como um ‘defensor da ciência’. Faltam defensores assim na Era Bolsonaro?

Não faltam defensores da ciência no Brasil.

A comunidade científica tem sido muito atuante. O fato de ter um embate com o presidente da República que alcançou a mídia naturalmente deu uma repercussão muito grande, internacional.

Outros defensores não tiveram a oportunidade de ter uma divulgação tão vasta como eu tive. Isso aconteceu por conta da situação do desmatamento da Amazônia e a postura do presidente Bolsonaro.

DCM: O senhor esperava esse tipo de premiação da Nature? Como o senhor recebe esse reconhecimento?

Não esperava ser reconhecido dessa forma. A lista de 10 pessoas que tiveram influência na ciência em cada ano, que a Nature faz, ela homenageia cientistas que tiveram resultados significativos ou pessoas que agiram de maneira forte para promover esse conhecimento, desenvolvê-lo e divulgá-lo. Eu não esperava isso.

Há um mês, 15 de novembro, acho, eu estava em uma reunião na Universidade de Columbia em Nova York. Um repórter da revista Nature me procurou naquela ocasião. A foto que aparece na revista foi tirado no Central Park. Esperava alguma homenagem, mas não entre os 10 maiores cientistas pela publicação.

DCM: O senhor é colocado na mesma lista que a ativista Greta Thunberg. Para se tornar uma celebridade global, basta ser atacado pelo presidente do Brasil?

Não saberia dizer se a carreira das pessoas estaria garantida se elas fossem atacadas pelo Bolsonaro (risos).

Um repórter chegou a me falar que poderia surgir uma fila de pessoas que iam querer ser atacadas pelo presidente para ganharem fama. Mas não é tão simples essa questão.

No caso da Greta, que saiu na Time e na Nature, é preciso lembrar que, há cerca de três anos, ela está fazendo um trabalho espetacular.

Ela teve um diálogo direto com os jovens que tem a idade dela. São pessoas que terão protagonismo muito importante na preservação do meio ambiente, das florestas tropicais. Ela atingiu um grupo que não era atingido pelos cientistas e nem pelos ambientalistas.

Ela mereceu por isso. No meu caso foi um embate muito grande e também pesou minha trajetória. Sou membro da Academia Brasileira de Ciências, Academia Paulista de Ciências e sou professor da USP. O fato de eu ter enfrentado o presidente chamou atenção para tudo o que já tinha feito.

DCM: A união de cientistas e universidades para ajudar a diminuir os retrocessos do governo?

Acredito que sim. Foi nesse caso que, sem falsa modéstia, minha atuação fez diferença. Na minha opinião, o negacionismo que estava cada vez mais exacerbado nesse governo não tinha recebido a sua devida resposta, da comunidade como um todo. Mesmo a Academia Brasileira de Ciências que eu faço parte estava sendo um pouco cuidadosa.

Porque é um novo governo.

A ciência, de certa forma, depende do governo. Já nas eras de Dilma Rousseff e Temer, nós tivemos uma diminuição de investimentos para a área científica, inclusive no caso das bolsas. A comunidade científica já estava elaborando um diálogo com esse novo governo e fazer ver as suas necessidades.

O ministro de Ciência e Tecnologia, o Marcos Pontes, abriu um diálogo nesse sentido. Era um diálogo bem próximo com o presidente da Academia Brasileira de Ciências.

Mesmo assim, as universidades já deveriam ter respondido com mais força ao governo. Quando mostraram que é um governo contrário ao aquecimento global, ao monitoramento do desmatamento da Amazônia, a reação deveria ter sido um pouquinho mais forte.

No final de julho, a Academia Brasileira de Ciências mandou um ofício ao presidente Bolsonaro chamando atenção sobre os ataques ao Inpe desde o começo do ano.

E não houve resposta.

A minha resposta, e parte do que fiz, e pensei muito antes de dizê-lo, é mostrar que chegamos num ponto em que não pode haver recuo. Não pode haver meios-termos. Chamei atenção para o caminho que esse governo estava seguindo.

Acredito que essa foi a minha melhor contribuição para defender a ciência.

DCM: A comunidade científica internacional deveria pressionar mais Bolsonaro, com as ameaças envolvendo a Amazônia?

Não, acredito que a comunidade precisa mostrar os dados que mostram o tamanho do problema. Há problemas da comunidade científica em outros cantos do mundo, como nos países árabes.

Não cabe à comunidade pressioná-lo, mas sim aos presidentes dos países que sofrem com os riscos da irresponsabilidade de Bolsonaro com a Amazônia. Deve-se fazer uma pressão construtiva para o governo mudar.

DCM: O que o senhor diria para os jovens que querem estudar, se graduar ou buscar pós-graduação mesmo com o corte das bolsas?

Essa é uma pergunta muito relevante. Te agradeço por fazê-la. Nós temos que nos conscientizar, e os jovens também precisam, de que momentos difíceis sempre acontecem. Quando fiz minha universidade, eu comecei em 1966 e terminei em 69. Era o período militar.

DCM: O senhor pegou o período do AI-5, correto?

Peguei o AI-5 sim. Vi vários professores importantíssimos, gente que eu admiro profundamente, como o professor José Leite Lopes, infelizmente já falecido, e outros que foram perseguidos. A ciência, por razões políticas, era perseguida, não por razões de ciência. Os militares na ocasião não eram negacionistas.

Esses altos e baixos sempre existiram na ciência. Em todos os lugares do mundo.

Gosto de dar exemplos. Existiu um botânico soviético que tinha a maior biblioteca de sementes do mundo na década de 30. Ele foi preso e morreu de inanição porque o regime soviético não gostou do trabalho dele. Ao invés de pesquisar sementes, o governo da época alimentaria o povo e o partido não precisaria do trabalho dele. Essas lutas sempre existiram.

O que a juventude tem que saber é que todas as mudanças saíram da juventude. Acabei de receber uma mensagem de um colega meu, professor Constantino de Sales do Rio de Janeiro, que lembrou uma mensagem da literatura.

Ela afirma: ‘Os homens sensatos são aqueles que aprendem com o mundo e vivem segundo essas regras. Os insensatos são aqueles que não se acomodam e lutam contra essas regras. O progresso do mundo nós devemos aos insensatos’.

Os jovens precisam entender que não podem, de forma alguma, se acomodar com a situação de agora. O progresso brasileiro de forma sustentável, com uma economia que seja socialmente justa, incluindo domínio soberano da tecnologia, vai estar sempre baseado na ciência e na inovação. Não há outra maneira de fazer isso.

Os jovens precisam acreditar. Para os que estão ainda no colegial, eu aconselho procurar saber mais a ciência. Infelizmente, o nosso ensino é muito ruim tanto nas escolas públicas quanto nas privadas. Os alunos não contam com laboratório e tudo é muito teórico.

As pessoas precisam buscar saber mais e o que há na internet é muito grande. Por isso, complemente o que se vê na escola. Não busque apenas joguinhos, mas procure ver as aulas que estão online e experiências para fazer. Se motive pela ciência.

O Brasil depende muito dos jovens e dessa mentalidade progressista com a ciência.

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