
O caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro, mais uma barbárie contra as mulheres nesses tempos sombrios em que todos os dias mais vítimas da violência de gênero são anunciadas, teve um desdobramento que desnuda não apenas o caso, mas toda uma estrutura que nos torna capazes de prever seu desfecho.
O crime aconteceu em Copacabana em fevereiro deste ano, quando 5 homens, sendo 4 adultos e um menor de 17 anos, estupraram uma adolescente coletivamente. O exame de corpo de delito apontou para lesões semelhantes à violência física, tendo sido identificado, inclusive, sangue no canal vaginal. A vítima foi brutalmente estuprada e espancada.
Os cinco eram pessoas do círculo de confiança da vítima – quase sempre assim, o que desmistifica a ideia de que estupro é geralmente cometido na rua por um estranho.
Não. Vem de onde a gente menos espera.
Ao se entregar à polícia, Victor Hugo Simonin, apontado como líder do grupo, usou uma camisa com os dizeres “regret nothing”, que significa “não se arrependa de nada”.
A frase não é “apenas” afronta à justiça de um moleque que sabe que o pai tem costas quentes e que ele portanto estará protegido e muito bem orientado, o que possivelmente – provavelmente, em um país como o Brasil – resultará na sua impunidade, já que Victor Hugo é filho de José Carlos Costa Simonin, ex-subsecretário do governo de Cláudio Castro, exonerado após investigação e repercussão do caso.
O pai, aliás, cria dessa mesma estrutura, também foi acusado de enviar mensagens de ódio a uma atriz e apresentadora.

A frase estampada na camisa do acusado é comum no movimento redpill, um bordão perverso que se dissemina em seus grupos e entre os réus de crimes ligados à misoginia, como feminicídio e estupro.
A expressão aparece com certa frequência em comunidades dessa rede, e costuma ser usada de forma irônica ou provocativa, geralmente como deboche, um bordão sarcástico que se tornou um meme interno.
Todos os envolvidos no crime parecem acreditar piamente nessa impunidade, já que apareceram em um vídeo debochando do caso.
Outras duas meninas ofereceram denúncias, o que leva o delegado que conduz o caso a crer na existência de mais vítimas do grupo, inclusive uma vítima estuprada 2023, quando tinha apenas 14 anos, que relata o mesmo modus operandi: emboscada e brutalidade.
O fato é que esses cinco monstros são sobretudo produtos saudáveis de uma estrutura patriarcal feita para odiar mulheres.
Não é, portanto, um caso isolado: trata-se de uma ação sustentada no movimento redpill, em expansão no Brasil, um movimento cujo único objetivo e desqualificar e violentar mulheres e que, a despeito disso, nunca foi criminalizado.
Nenhuma lei ou mesmo nenhum debate sério trata dessa questão: conteúdos misóginos disseminados na internet, epicentro desse chorume, não são punidos, e culminam em barbaridades como esta.
Portanto, não basta dizer que não há ninguém arrependido: ações como esta estão longe de serem casos isolados, e serão cada vez mais comuns, porque são ações sistêmicas dentro do movimento redpill.
Inclusive, outros conteúdos redpill voltaram a viralizar com a repercussão do caso. Muitos aparecem como: “treinando pra quando uma mulher me disser não”, incitando estupro e violência contra a vítima que se negar a fazer sexo com o sujeito em questão.
Na Bahia houve um caso noticiado pelos principais jornais do estado, em que o influenciador baiano @llipedaily, que produziu conteúdo semelhante, alegou ter sido “tirado de contexto”.
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Sim, o buraco é muito mais embaixo.
Não se trata de uma barbaridade fruto da mente cruel de cinco homens perversos e convencidos de sua impunidade.
Está mais para uma espécie de “tarefa” incentivada no meio redpill, um modus operandi diante sobretudo da negativa feminina a fazer sexo.
Em outras palavras, os redpills rejeitados estão tendo o estupro como ação coletivamente recomendada pelo grupo.
Ninguém parece ter enxergado o tamanho disso: um movimento misógino que se alastra mais rápido do que conseguimos acompanhar e será ainda o responsável por muitos crimes bárbaros como este, todos, é claro, contra mulheres – e deve ser por isso que ninguém faz nada.
Esse movimento precisa ser minuciosamente investigado e criminalizado, porque sustenta violências reais contra mulheres e meninas, tão reais quanto os hematomas da vítima de 17 anos.
Enquanto ignoramos a dimensão desse fenômeno, permitimos que ele se fortaleça e se repita. O estupro coletivo em Copacabana é o reflexo de uma cultura digital e social que legitima a misoginia e transforma o ódio às mulheres em prática coletiva.
Cada bordão, cada meme e cada comunidade que naturaliza a violência prepara o terreno para novos crimes. Se continuarmos a tratar essas ações como casos isolados, estaremos apenas assistindo, impotentes, à repetição de brutalidades contra meninas e mulheres, enquanto a impunidade e a estrutura que sustenta essa barbárie permanecem intactas.