Não se deixe enganar: Bolsonaro é a serpente que nasceu do ódio. Por Joaquim de Carvalho

Enquanto Rosa Weber encerrava a coletiva no TSE com um apelo pela paz, equilíbrio e tolerância, Jair Bolsonaro fazia um discurso, por celular, aos manifestantes reunidos na avenida Paulista, num tom desafiador.

Desafiador talvez seja um termo até ameno.

Foi uma afronta às instituições. Tão grave que decidi separar por tema e comentar, tópico a tópico.

Bolsonaro, falando por celular e sendo gravado ao mesmo tempo, que resultou em um vídeo postado na rede social, disse:

“Nós somos a maioria, nós somos o Brasil de verdade. Junto com esse povo brasileiro, construiremos uma nova nação. Não têm preço as imagens que vejo agora da Paulista e de todo eu querido Brasil.”

Ouve-se o refrão dos manifestantes:

“Um, dois, três, quatro, cinco mil, queremos Bolsonaro presidente do Brasil!”

Bolsonaro prossegue:

“Perderam ontem, perderam em 2016, e vão perder a semana que vem de novo. Só que a faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão para fora, ou vão para a cadeia.”

A fala remete ao discurso que fez na sessão da Câmara que aprovou o impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, quando disse que seus oponentes haviam perdido em 1964 e fez uma homenagem ao torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra, coronel.

Importante destacar que, como presidente da república, Bolsonaro não poderia mandar ninguém para a cadeia. Em uma democracia, este é o poder do Judiciário.

“Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria. Nós acreditamos no futuro do nosso Brasil e, juntos, em equipe, construiremos o futuro que nós merecemos. Temos o melhor povo do mundo, a melhor terra do planeta, e vamos, com essa nova classe política, construir realmente aquilo que nós merecemos.”

A Constituição proíbe, em seu artigo 5o. alguns tipos de pena, entre elas o banimento. É o que diz o inciso XLVII:

Não haverá penas:

  1. De morte, salvo em caso de guerra declarada, nos temos do art. 84, XIX;
  2. De caráter perpétuo;
  3. De trabalhos forçados;
  4. De banimento;
  5. cruéis.

É cláusula pétrea, não pode ser modificada nem por emenda constitucional. Só com uma ditadura Bolsonaro conseguiria fazer o que pretende: banir opositores.

Segue o capitão da reserva, considerado “mau militar” (“bunda suja”) até por um dos ditadores pós-64, Ernesto Geisel:

“Estou aqui porque acredito e vocês. Vocês estão aí porque acreditam no Brasil. Ninguém vai sair desta pátria, porque esta pátria é nossa.”

Ouve-se, através do celular, o grito que vem da Paulista:

“Brasiiiiilllll!”

O capitão sobe o tom:

“Não é dessa gangue que tem uma bandeira vermelha e tem a cabeça lavada.”

“Sem indicações políticas, faremos um time de ministros que, realmente, atenderá às necessidades do nosso povo”.

“Podem ter certeza. Vocês podem confiar em nós porque nós confiamos em vocês.”

“O Brasil será respeitado lá fora. O Brasil não será mais motivo de chacota junto ao mundo.”

No mesmo dia em que fazia esse discurso, o The New York Times publicou um editorial em que considera a escolha de Bolsonaro triste para o Brasil e diz que seus pontos de vista são “repulsivos”.

De volta ao discurso do candidato do PSL:

“Aqui não terá mais lugar para a corrupção.”

“E o senhor Lula da Silva, que vocês estavam esperando o Haddad ser presidente para assinar o decreto de indulto, eu vou te dizer uma coisa: ‘você vai apodrecer na cadeia’.

Da Paulista, vêm aplausos efusivos, ovação, seguida de gritos: “Mito, mito, mito”

Lula já disse que não quer indulto, porque pretende, em defesa de sua biografia, provar sua inocência. Já afirmou, mais de uma vez, que quer “julgamento justo”. Só isso.

O Comitê de Direitos Humanos da ONU aprovou uma resolução que determina que o Brasil respeite os direitos políticos de Lula até que seu processo fosse examinado em “procedimento justo”.

A decisão, embora tenha caráter vinculante, não foi respeitada.

Bolsonaro discursa:

“Brevemente, você (Lula) terá Lindbergh Farias para jogar dominó no xadrez. Aguarde: o Haddad vai chegar aí também. Mas não será para visitá-lo não. Será para ficar alguns anos ao seu lado. Já que vocês se amam tanto, vocês vão apodrecer na cadeia, porque lugar de bandido que rouba o povo é atrás das grades.”

Bolsonaro não tem poder para condenar ninguém, mas talvez reforce o Estado policial, com o aproveitamento de Sergio Moro, o líder da Lava Jato, em sua equipe de governo.

A conta de Bolsonaro só fecha com o uso do aparelho de Estado para perseguir opositores, e Moro, pelo que já demonstrou, parece ter disposição para isso.

O filho de Jair Bolsonaro, Eduardo, que é deputado federal, disse que Moro ensinou o caminho das pedras sobre como subverter a hierarquia do Judiciário: “É igual soltar o Lula. O Moro peitou o desembargador que está acima dele, porque o Moro está com moral pra cacete. Você vai ter que ter um culhão filho da puta para conseguir reverter uma decisão dele. Ele só joga lá, quero ver quem vai dar o contrário”.

De volta ao discurso de Bolsonaro:

“Você (Lula) achava que estava tudo dominado, não estava não. Esse povo sempre se levantou nos momentos mais difíceis da Nação para, exatamente, salvá-la.”

“Vocês da Paulista, vocês que fazem manifestação em todo Brasil, vocês estão salvando a nossa pátria.”

“Não tenho palavras para agradecê-los, neste momento. Vocês estão salvando o meu, o seu, o nosso Brasil.”

O que tem a ver a multidão de seguidores de Bolsonaro com a prisão de Lula?

É uma equação que só fecha se se levar em consideração o que o filho dele, Eduardo, diz. É uma multidão disposta ao confronto, a pagar para ver, a enfrentar o que quer que seja para fazer prevalecer sua vontade.

E os analfabetos políticos ainda dizem que é o PT que dividiu o país.

Bolsonaro se torna ainda mais agressivo em seu discurso:

“Petralhada, vão todos vocês para a ponta da praia. Vocês não terão mais vez em nossa pátria, que eu vou cortar todas as mordomias de vocês.”

Ouvem-se uivos e palmas.

A imagem de Bolonaro projetada ao vivo no telão da Paulista.

“Vocês terão mais ONGs para saciar a fome de mortadela de vocês. Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil. Vagabundo vai ter que trabalhar. Vai deixar de fazer demagogia junto ao povo brasileiro.”

Com esse discurso de limpeza, Bolsonaro remete ao que disse, em uma manifestação: “O grande erro foi torturar e não matar”. Quando foi vaiado pela frase, respondeu: “Fodam-se”.

Bolsonaro, a seus seguidores na Paulista:

“Vocês (os opositores) verão as instituições sendo reconhecidas. Vocês verão as Forças Armadas altivas, que estarão colaborando com o futuro do Brasil.”

É um indicativo de que fará um governo com homens de farda, inclusive nas áreas de interesse civil. Em 1985, com a falência do regime militar, se falava na volta dos militares aos quartéis. Bolsonaro os quer de volta no cotidiano dos brasileiros.

Bolsonaro, discursando:

“Vocês, petralhada, terão uma polícia civil e militar com retaguarda jurídica, para fazer valer a lei no lombo de vocês.”

Uma das medidas em estudo é ampliar o conceito de “exclusão de ilicitude” para permitir que os policiais brasileiros, que já matam muito, matem ainda mais. Hoje, os mortos são, em geral, pobres e da periferia. Com uma diretriz de governo, a violência policial vai chegar à classe média — pode anotar.

O candidato ataca movimentos sociais:

“Bandido do MST, bandido do MTST, as ações de vocês serão tipificadas como terrorismo. Vocês não levarão mais o terror ao campo ou à cidade.”

“Ou vocês se enquadram e se submetem às leis, ou vão fazer companhia ao cachaceiro lá em Curitiba.”

Em geral, as ocupações têm o objetivo de lembrar que a Constituição determina que a propriedade deve cumprir uma função social. Improdutiva, não gera emprego nem renda, nem serve para moradia, só interessa à especulação.

Bolsonaro quer criminalizar o movimento social.

“Amigos de todo o Brasil, esse momento não tem preço. Juntos, eu disse juntos, nós faremos um Brasil diferente. Meu muito obrigado a todos do Brasil que confiaram seu voto em mim, por ocasião do primeiro turno.”

“Ainda não ganhamos as eleições, mas esse grito em nossa garganta será posto para fora no próximo dia 28 .

“Conclamo a todos vocês que continuem mobilizados e participem ativamente por ocasião das eleições, no próximo domingo, de forma democrática, sem mentiras, sem fake news, sem Folha de S. Paulo (com ênfase no nome do jornal).

Ouvem-se uivos através do celular.

“Nós ganharemos esta guerra, queremos a imprensa livre, mas com responsabilidade. A Folha de S. Paulo é o maior fake news do Brasil.”

Pobre Rosa Weber: ela faz um apelo pela paz, Bolsonaro fala em guerra.

Sobre a Folha, que denunciou o esquema ilegal de disparos em massa fake news através do WhatsApp, Bolsonaro prossegue:

“Vocês não terão mais verba publicitária do governo.”

“Imprensa livre, parabéns!”

“Imprensa vendida, meus pêsames!”

São frases que revelam uma ameaça à liberdade de expressão e de imprensa, e permitem a leitura inversa: Bolsonaro vai usar verba publicitária para afagar veículos dóceis.

Mais do capitão:

“Somos amantes da liberdade. Queremos a democracia, e queremos viver em paz.”

“Nós amamos as nossas famílias. Nós respeitamos as crianças. Nós respeitamos todas as religiões.”

Respeito às crianças é uma maneira indireta de propagar a mentira do kit gay, a maior fake news destas eleições.

“Nós não queremos socialismo, nós queremos distância de ditaduras do mundo todo.”

O que ele defende só será possível fora da democracia e, sem democracia, o que resta? Ditadura.

“Amigos da Paulista e do Brasil, meu muito obrigado a todos vocês.”

“E vamos juntos trabalhar para que, no próximo domingo, aquele grito que está em nossa garganta, que simboliza tudo o que nós somos, seja posto para fora.”

“Brasil acima de tudo, e Deus acima de todos.”

Brasil acima de tudo significa um país acima de Deus, mas a maioria dos evangélicos, cegos pelos preconceitos e por suas lideranças, nem percebem o significado da frase.

Faz sentido: mesmo para quem não crê, a ideia de Deus é incompatível com a tortura e o ódio.

“À vitória!”

Bolsonaro quer chegar lá sem passar por um debate com o oponente, o que seria inadmissível numa democracia plena.

Para isso, conta com formadores de opinião que manipulam fatos em sua defesa. É o que fez um tal de Murilo Aragão, que, num programa da Globonws, disse, sem contestação, que aconselharia Bolsonaro a não participar dos debates.

Poderia atrapalhar a já, na opinião dele, quase certa eleição que Bolsonaro está praticamente eleito, deu um conselho: não participar dos debates.

E mentiu que Lula não participou dos debates em 2006. Na verdade, participou, mas apenas no segundo turno, com Geraldo Alckmin.

Esta poderá ser a primeira eleição sem debate no segundo turno. E o resultado poderá jogar o país no abismo.

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