Não tem tu, vai tu mesmo. Por Denise Assis

Reprodução/Fundação Fernando Henrique Cardoso
Em entrevista, FHC disse que é difícil se “autocontrolar” quando se é presidente

Publicado originalmente no Jornalistas pela Democracia:

Por Denise Assis

O PSDB encolhe. João Dória, antes com chances de chegar a 2022 fazendo figura, montado em galões de vacina, tem índice de candidato nanico (3% na pesquisa Datafolha).

Ainda assim, seu “patrono”, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, é pródigo em se colocar em cena, a despeito do salseiro em seu partido. Não só porque contou sempre com a condescendência da mídia – que nunca foi fundo em nenhuma investigação sobre ele – como também por ter senso de oportunidade. Acha de lançar livros, criar fatos, para se colocar no palco em momentos cruciais.

Ainda assim, tem errado muito nos últimos anos. A ponto de sofrer reprimendas, segundo se sabe, de ex-colegas da Sorbonne, cientes de suas manobras golpistas em 2016 e de sua abstenção na eleição que nos legou Bolsonaro. Não o perdoam.

Ficou ao lado e endossou as “denúncias de Aécio Neves – “só para encher o saco” – em 2014, quando a ex-presidenta Dilma Rousseff, democraticamente eleita, teve os seus votos contestados pelo derrotado, que se recusou a aceitar as evidências: perdeu, playboy.

Em 2018, logo após a derrota de Geraldo Alckimin pelos vexaminosos 4,76% no primeiro turno, fez questão de deixar vazar que havia votado nulo – foi aí que pegou na Sorbonne – ajudando a empurrar Bolsonaro no segundo turno, para a cadeira onde hoje ele o considera “mal sentado”.

Com os direitos políticos recuperados, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva volta ao páreo como franco favorito a derrotar Bolsonaro, com a perspectiva, (por enquanto) de batê-lo por 41% a 23% no primeiro turno e, passando para o segundo, a diferença seria de 55% a 32%. Diante de tamanha evidência, FH faz aquele número do menino que cai na quadra de saibro, rala o joelho, levanta-se, bate uma palma da mão na outra e exclama com dificuldade em prender o choro: “nem doeu”.

Ao ser questionado sobre o Brasil de hoje, responde: “o Brasil merecia estar mais bem representado ali. Farei o que puder pra que o Brasil supere isto”. Não fez em 2018. Promete que fará agora. Será? Fala deixando escapar o mesmo sentimento de inveja de  sempre e mais uma de suas estocadas em Lula: “Não quero dar conselho a ninguém, mas eu entendi que nunca mais deveria me meter na vida eleitoral”.

Esqueceu-se de emendar: “nem na vida dos outros”. E acrescentou, aumentando o tamanho de sua aposta: “Então que eu puder fazer para que ele não vença eu vou fazer”.

Nesta conversa, (entrevista concedida ao Globo), FH demonstrou o seu ceticismo quanto à construção de um candidato de “centro-direita”. “É difícil. Porque você precisa, antes de construir um centro, que essa ideia seja personificada em alguém. Há tempo para que alguém apareça ainda, mas não está claro quem vai expressar esta ideia”, admite.

Com muita relutância, assente que não vota em Bolsonaro de jeito nenhum. Seria mais simples, do ponto de vista da linguagem, ser direto e dizer que prefere votar no Lula. Mas a frase não sai. Parte para a hipótese por eliminação: “É preciso escolher. E eu não vou escolher o Bolsonaro”. Com que dificuldade pronunciou a frase!…

A mesma que levou o Estadão a jogar fora o estilo sóbrio, de jornal “elegante” – a despeito do conservadorismo crônico – e bem-informado,  para imprimir em suas páginas, nesta semana, um discurso digno de um bolsominion de boteco.

É difícil imaginar um impresso do seu porte, ignorando os fatos já debulhados e esmiuçados na Justiça, com relação à Lava-Jato e à decisão do Supremo. Ainda assim, os editorialistas não coraram ao passar recibo de ignorantes, raivosos, baixo-nível, ao estampar na página nobre, que retrata a opinião do “dono”, um texto recheado de ataques ao Lula e com a mensagem apelativa: é preciso encontrar um terceiro candidato.

Vamos e venhamos, se até FH já admitiu que esse nome não existe, e se dispôs a, mesmo por frases indiretas, votar em Lula, custoso ser o jornalão que o construirá.

Os seus colegas de impressos já perceberam que para Lula e o PT, tirar Bolsonaro agora, do páreo, não é um bom negócio. Estão batendo pesado e merecidamente – pena as que escapam – no capitão, na tentativa de viabilizar um “arrumadinho” e ver Lula enfrentando a centro-direita.

Aí sim, quem sabe, daria tempo para que um Tasso Jereissati se sobressaia na CPI do Genocídio e tope – mesmo com a sua crônica falta de apetite para o executivo – disputar. Ou, ainda, que Ciro Gomes, lá dos seus 6% passe por uma “lipoaspiração cerebral” e consiga se amoldar ao figurino bem-comportado que o Estadão sonha para levar às urnas…

Um embate entre o PT e a direitinha cheirosa não seria um jogo fácil. No entanto, essas hipóteses são, no momento, tão distantes, que dão chance a Lula de se organizar e aumentar a distância entre ele e os demais candidatos. É bom lembrar, a disputa ainda nem começou.

A mídia deve entrar com tudo para a construção da tal terceira via, mas é bem possível que o brasileiro médio já tenha entendido que a centro-direita contribuiu para a eleição de Bolsonaro, o genocida da Covid-19. E é provável, ainda, que essa percepção tenha corroído a possibilidade de se fazer qualquer acordo com ela, que ajudou a colocar no poder o responsável por 430 mil mortes.

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