“Não vai ter golpe!” – O grito de Salvador no show de Caetano e Gil. Por Nathali Macedo

Caetano Veloso e Gilberto Gil
Caetano Veloso e Gilberto Gil

Uma boa tradução de baianidade – dentre as muitas possíveis e existentes – é cantar Luz de Tieta com Gil e Caetano no farol da Barra.

Pratiquei ontem esse celebrar baiano, quando me juntei a 150 mil pessoas – soteropolitanos, baianos do interior, sulistas, gringos, gente de todos os cantos, como é comum por aqui – que comemoravam o aniversário 467 anos de Salvador com o dueto majestoso de Caetano Veloso e Gilberto Gil (Chico, nós sentimos a sua falta).

Apesar da sonorização mal planejada que impedia que aqueles clássicos nos parecessem audíveis – o prefeito ACM Neto estava mais preocupado com fogos de artifício do que com uma sonorização decente – a energia da dupla amada foi suficiente para manter nossas mãos em riste e nosso coração suspenso.

Todas as gerações estavam ali, adorando Caetano e Gil, venerando não apenas a música, mas tudo mais o que ambos representam, e pondo em prática da maneira mais espontânea possível todo o respeito que a Bahia deve à dupla desde os Doces Bárbaros, desde o Tropicalismo, desde quando Caetano ainda era cabeludo e Gil fazia o inesquecível tributo a Bob Marley.

Salvador reverenciou os seus padrinhos, mas este não foi só um show de comemoração. Gritos de “Não vai ter golpe!” e “Odeio você, Cunha” nos lembraram, mais uma vez, que o Povo não dorme.

Quando um povo se manifesta – por livre e espontânea vontade – numa festa de largo, significa, no mínimo, que o sentimento que nos une em torno de um ideal democrático já nos é intrínseco, natural, visceral. Significa que nós somos o Brasil e finalmente nos conscientizamos disto – e ter essa certeza repentina num calor humano de 150 mil pessoas beira o inexprimível.

As figuras de Caetano e Gil não são só musicais, isso é óbvio. São, antes de tudo, a esperança de que a arte ainda está ao lado do povo.

Não são pastores de ovelhas perdidas – porque nós sabemos bem onde estamos pisando – mas são a nossa voz amplificada, são a resistência poética e não menos corajosa, eles são a Bahia e são os baianos.

Foi lindo comemorar o aniversário dessa cidade amada lembrando que um Brasil melhor se faz com resistência, com democracia e com arte – melhor ainda é lembrar disso com Three little birds (nada poderia ser mais simbólico para este momento).

A Globo não noticiará, mas não teve golpe na Bahia. Teve energia, baianidade, Luz de Tieta em um coro de 150 mil pessoas e uma voz que não se cala.

P.S Parabéns, Salvador. Seus filhos são lindos.

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