“Não vamos arredar pé”: representante do MPL fala ao DCM sobre as novas manifestações contra a tarifa

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2013 foi o ano em que o Movimento Passe Livre tornou-se nacionalmente conhecido e houve o fator “surpresa” na dimensão das manifestações. Agora a expectativa pelo “sucesso” e adesão são altas. Conseguirão revogar novamente o aumento da tarifa que entra em vigor hoje?

O DCM conversou com Erica de Oliveira, do Movimento Passe Livre.

DCM: O Movimento Passe Livre sempre defendeu que a opção tarifa zero no transporte público é uma decisão política. O que avançou em termos políticos desde 2013? Prefeito ou governador chamaram o movimento pelo menos para comunicar e explicar a situação orçamentária?

MPL: O prefeito não consultou o movimento assim como ele não consulta a população. O movimento não é representante das pessoas então a gente nunca esperou ser consultado para nada. Mas assim como os outros aumentos de tarifa, este também foi decidido dentro de gabinetes pensando em interesses muito específicos de gente que tem muito poder.

E prefeito e governador tiveram a coragem de decretar um aumento de tarifa mesmo depois que uma auditoria comprovou que empresários de transporte ganham acima da média (de outros serviços). Mais uma vez, como várias medidas que ocorrem na cidade como um todo e não só nos transportes, a decisão foi tomada à revelia da população. A gente sempre fala que quem mais entende de transporte coletivo é o usuário porque é ele que utiliza todo dia, então é ele que tem que decidir.

Algumas precauções parecem ter sido tomadas desta vez. A época do ano, a adoção do passe livre para estudantes da rede pública e universitários beneficiários de programas como o FIES e PROUNI. Essas medidas não podem desmobilizar ou enfraquecer o movimento?

Não. No Rio de Janeiro por exemplo o passe livre para estudante já existia e isso não impediu que acontecessem mobilizações. O que reforçamos é que quem é atingido por aumento de tarifa não é só estudante, é todo mundo. Sobre a época do ano, isso já ocorreu em outras gestões, não é um elemento novo, então a gente acredita que vai fazer uma luta da mesma forma que foi feita em outros períodos.

Mas a revogação do aumento só ocorreu em junho.

Mas a questão não é ter sido junho. Há elementos mais consideráveis do que o período do ano. Em 2011 fizemos uma luta bem grande mesmo no período de férias que durou 3 meses. Acho que todos os elementos só provam uma coisa na verdade: que o prefeito está tratando explicitamente a questão da tarifa como uma questão política. Ele resolveu fazer isso tudo para que não houvessem mobilizações. Isso prova que a decisão sobre transportes não é técnica, ela é política.

As manifestações mais recentes foram puxadas pela ala direitista da sociedade. Essa parcela não pode se aproveitar dos protestos com uma finalidade outra que não a tarifa? O MPL não teme essa aproximação? 

A gente acredita que não, porque tudo que temos dito é que quem vai barrar esse aumento são os bairros, as periferias organizadas. Acho que está muito claro o motivo da luta. Estamos fazendo uma convocatória para que as pessoas se organizem independentemente do MPL. O movimento não é dono dessa luta. Que se organizem e façam essa luta contra o aumento. Então acredito que não teremos esse problema. É a força da pauta que vai se impor nesse momento.

Quase a metade do custo da tarifa para as empresas é com pessoal. Já se fala que uma nova possível revogação pode causar a demissão de cobradores. O desemprego não é um impacto muito negativo?

Quando discutimos tarifa zero sempre discutimos a questão dos cobradores e acreditamos que ele poderiam ter uma outra função dentro do ônibus. Há idosos que precisam de auxílio, por exemplo, podem dar informações ou mesmo serem remanejados. Como o sistema iria se ampliar, seria preciso mais pessoal. Então essa questão não é contraditória. A questão das demissões tem mais a ver com os interesses dos empresários em ter uma margem de lucro cada vez maior.

Como está a articulação com as outras cidades que tiveram aumento da tarifa?

O Passe Livre é um movimento nacional portanto os coletivos das cidades vão tocar suas lutas e esperamos que haja auto-organização das pessoas.

Um dos ingredientes do estopim de 2013 foi a atuação da polícia. Acredita que ela esteja melhor preparada agora?

Não queremos que a polícia bata na gente, né? Mas só poderemos ter qualquer percepção com relação a isso quando o primeiro ato estiver acontecendo. Esperamos que transcorra tudo bem, mas sabemos que a postura da polícia está para além das nossas vontades.

O propósito é o mesmo?

Não iremos arredar o pé até a revogação da tarifa.