
O assessor internacional da Presidência, Celso Amorim, afirmou não ver condições para o Brasil aderir à proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criação de um “Conselho da Paz”. Em entrevista ao jornal O Globo, ele avaliou que o estatuto do órgão é confuso e representa, na prática, uma tentativa unilateral de reformar a ONU (Organização das Nações Unidas), o que considera inaceitável.
“Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país”, disse Amorim. Ele aponta que o documento enviado junto ao convite amplia excessivamente o escopo da iniciativa: “A palavra ‘Gaza’ não aparece nesse estatuto. Ele se refere a qualquer conflito”.
Segundo o assessor, o formato do grupo é similar ao de um Conselho de Segurança, mas com presidência permanente dos Estados Unidos. Ele ressaltou ainda que países europeus já demonstraram resistência à proposta.
“Ele (Trump) disse inclusive que não aceita emendas. Não é possível discutir, ajustar aqui ou ali. É um contrato de adesão. Isso torna essa parte difícil. Se fosse possível separar as duas coisas, aí vamos ver. Mesmo assim, não é automático. É preciso conversar, ver se isso interessa aos próprios palestinos e a outros países”, prosseguiu.
Sobre a hipótese de o convite ser uma armadilha diplomática, Amorim minimizou. “Não acho. Ele mandou para muitos países. Seria uma armadilha para a França? Para a Itália? Não vejo assim”, disse, embora reconheça que Trump adota uma visão de política internacional centrada em si próprio.

O assessor também alertou para riscos vindos da extrema-direita americana no contexto eleitoral brasileiro. “Não vejo, pessoalmente, uma interferência direta dele. Agora, a extrema-direita nos Estados Unidos é muito complexa… temos que estar preparados para isso e saber nos defender”, afirmou.
Ao comentar a situação da Venezuela, Amorim reforçou a posição brasileira. “O Brasil não reconhece governos, reconhece Estados”, disse, explicando que o país mantém contato institucional com quem exerce o poder de fato. Ele citou que houve diálogo e envio de remédios, sem avanços além disso.