“Não vejo como aceitar”, diz Celso Amorim sobre convite do “Conselho da Paz” de Trump

Atualizado em 22 de janeiro de 2026 às 16:20
Celso Amorim e Lula. Foto: Foto: Fábio Rodrigues-Pozzebom/Agência Brasil

O assessor internacional da Presidência, Celso Amorim, afirmou não ver condições para o Brasil aderir à proposta do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de criação de um “Conselho da Paz”. Em entrevista ao jornal O Globo, ele avaliou que o estatuto do órgão é confuso e representa, na prática, uma tentativa unilateral de reformar a ONU (Organização das Nações Unidas), o que considera inaceitável.

“Não dá para considerar uma reforma da ONU feita por um país”, disse Amorim. Ele aponta que o documento enviado junto ao convite amplia excessivamente o escopo da iniciativa: “A palavra ‘Gaza’ não aparece nesse estatuto. Ele se refere a qualquer conflito”.

Segundo o assessor, o formato do grupo é similar ao de um Conselho de Segurança, mas com presidência permanente dos Estados Unidos. Ele ressaltou ainda que países europeus já demonstraram resistência à proposta.

“Ele (Trump) disse inclusive que não aceita emendas. Não é possível discutir, ajustar aqui ou ali. É um contrato de adesão. Isso torna essa parte difícil. Se fosse possível separar as duas coisas, aí vamos ver. Mesmo assim, não é automático. É preciso conversar, ver se isso interessa aos próprios palestinos e a outros países”, prosseguiu.

Sobre a hipótese de o convite ser uma armadilha diplomática, Amorim minimizou. “Não acho. Ele mandou para muitos países. Seria uma armadilha para a França? Para a Itália? Não vejo assim”, disse, embora reconheça que Trump adota uma visão de política internacional centrada em si próprio.

Donald Trump no lançamento do “Conselho de Paz” em Davos, na Suíça, nesta quinta (21). Foto: Fabrice Coffrini/Getty Images

O assessor também alertou para riscos vindos da extrema-direita americana no contexto eleitoral brasileiro. “Não vejo, pessoalmente, uma interferência direta dele. Agora, a extrema-direita nos Estados Unidos é muito complexa… temos que estar preparados para isso e saber nos defender”, afirmou.

Ao comentar a situação da Venezuela, Amorim reforçou a posição brasileira. “O Brasil não reconhece governos, reconhece Estados”, disse, explicando que o país mantém contato institucional com quem exerce o poder de fato. Ele citou que houve diálogo e envio de remédios, sem avanços além disso.

Caique Lima
Caique Lima, 27. Jornalista do DCM desde 2019 e amante de futebol.