“Não volto ao Brasil com Bolsonaro lá. Não é seguro”, diz ao DCM ativista LGBT que mora na França

Willy Delvalle em Paris com a brasileira que não voltará mais desde Bolsonaro

Ela não quer voltar para o Brasil porque o país lhe parece mais inseguro do que nunca sob o governo Bolsonaro.

Lésbica, feminista e de esquerda. O receituário perfeito para as agressões, que ela vê como prováveis numa volta da França, onde cursa um mestrado em Sociologia do Gênero.

“O Brasil é um país fantástico que está sendo absolutamente depredado pelos seus governantes, que estão destruindo seu próprio povo”, diz ela, mais uma pessoa que teme aparecer no Brasil bolsonarista.

Na sua visão, a vitória do presidente de extrema direita é o resultado de um processo que começou com o golpe que depôs Dilma Rousseff. Processo que define como patológico: “Bolsonaro ganhou porque está havendo um adoecimento da sociedade”.

A consequência, o exílio do ex-deputado Jean Wyllys, lhe provoca tristeza. “Há uma parte da sociedade que quer nos dominar e matar”, afirma ela, que avalia como “monstruoso que o presidente de um país comemore o exílio de um congressista”.

Sua suspeita de ligação dos Bolsonaros com o assassinato de Marielle aumenta o clima de insegurança que para ela virou sinônimo do Brasil.

A jovem paraense de 27 anos falou ao DCM.

O que te faz desistir de voltar para o Brasil?

São muitos fatores. Eu nunca coloco de uma maneira completamente fechada do tipo não voltaria e ponto. Isso, pra mim, foi um acúmulo de reflexões. Mas a eleição de Bolsonaro é um desses fatores. É o governo com o maior número de militares desde o período da ditadura.

Ele foi democraticamente, entre muitas aspas, eleito. Esse é também um fator, além de todos os posicionamentos… e políticas que a gente vem enxergando desde o governo de transição, desde o Temer. O fato de ser uma mulher lésbica, o fato de ter posicionamentos feministas, por exemplo, são questões que me fazem repensar a volta.

Você tem medo de quê?

O meu medo? Eu não acho que eu tenha visibilidade política, por exemplo, para sofrer algum tipo de perseguição. Mas eu não considero o Brasil um país seguro para defensores de direitos humanos, nem para mulheres lésbicas hoje… Nós estamos falando de um país onde, por ano, mata-se mais de 4 mil mulheres. 60% desses casos são feminicídios e o número de mortes de mulheres negras, por exemplo cresce percentualmente a cada ano.

O lesbocidio no Brasil ainda é absolutamente subnotificado… Mas ainda assim, o percentual de crescimento do número de mulheres mortas por serem lésbicas é de 237% em três anos. Eu também tenho medo do desenrolar do governo Bolsonaro porque em muito pouco tempo a gente já viu políticas absolutamente drásticas serem impostas. A gente sabe que existe uma lógica de violência que vai se manter e outra que vai se reorganizar. Mas a gente não sabe de que forma e nem se ele vai terminar esse mandato ou não.

Como você reagiu à vitória de Jair Bolsonaro?

Eu chorei muito, saí para caminhar na rua. Eu estava com a minha namorada, aqui. Eu saí do Brasil em 2016, o ano do golpe. Em 2018, a Marielle foi assassinada e agora ele é presidente do Brasil. Fora outras milhões de questões que atravessam a política brasileira… A gente está vendo um ano do assassinato da Marielle, em que encontraram-se executores, mas não os mandantes. Um ano é muito tempo, diante de quem era ela, vereadora do Rio de Janeiro, um dos estados do Brasil que tem visibilidade mundial e diante da luta que ela fazia.

Eu acho que foi um tempo de muitos acontecimentos, que claramente desestabilizam emocionalmente muitas brasileiras e brasileiros. Eu lembro que quando eu saí do Brasil, já estava percebendo cortes de financiamento que aconteciam dentro de instituições de trabalho humanitário. Eu também já estava percebendo a frontalidade da violência às manifestações

Quais manifestações?

Contra o aumento do preço do transporte público em 2013. Nas manifestações contra o impeachment da Dilma. Eu recebi relatos de amigos que diziam que a PM corria com cavalos na cinelândia. Em 2017, bombas foram jogadas dentro do Instituto de Filosofia da UFRJ. Foram muitos sentimentos me atravessando nesse tempo. Ver o Bolsonaro eleito foi enxergar a continuidade do processo do golpe e vê-lo no poder foi como perceber o resultado de uma onda de ódio e autorização de violência que começa em 2016.

Como você vê a retirada da questão LGBTi das diretrizes de direitos humanos logo de início no governo Bolsonaro?

Um recado muito forte para todos nós, para todas nós, mulheres lésbicas, que fazemos parte da comunidade LGBT, é um recado muito grande. A Damares Alves ser ministra do Ministério das Mulheres, Família e Direitos Humanos. A gente sabe que famílias estão incluídas ali e quais não estão incluídas. Essa retirada implica no aprofundamento da exclusão e vulnerabilidade dessa população.

Por que Bolsonaro ganhou as eleições?

É difícil responder a essa pergunta de uma única forma. Existe uma onda antipetista no Brasil muito forte. Isso evidentemente foi o discurso dos eleitores do Bolsonaro. Eu acho que ele ganhou as eleições porque não existia oposição política possível, infelizmente. O Lula estava preso.

Então, quem seria capaz de fazer oposição política a Bolsonaro não estava elegível. Acho que o Bolsonaro também ganhou as eleições porque está havendo um adoecimento da nossa sociedade. Um ódio que sai na urna desse jeito mostra uma sociedade que não tem olhos para os seus traumas coletivos, olhos para a memória do seu país e pra história do seu próprio povo.

Uma parte do povo brasileiro queria ou ainda quer que homossexuais morram e que as mulheres sejam dominadas?

Com certeza. A gente não está falando de mais de 4 mil mulheres mortas no país à toa, nem de um crescimento da taxa de lesbocidios à toa. Nos casos de feminicídio, mulheres são mortas por seus cônjuges ou ex-cônjuges, o que é uma realidade terrível. No lesbocídio, mulheres são mortas por homens cis-gênero.

Os dois casos são realidades que provam que ainda há uma parte da sociedade que quer nos dominar e nos matar. Isso atravessa a própria estrutura familiar, mas também outras estruturas, como instituições de governo que servem às lógicas de poder de maneira violenta. A polícia militarizada hoje no Brasil reflete essa vontade de dominação e silenciamento.

O que simboliza o encontro com Trump, que também logo no início de seu governo atacou os direito de trans no exército?

Bolsonaro e Trump se encontrarem não me causa surpresa. Acho que o fato de ter Netanyahu e Viktor Orban na posse já significa muita coisa em termos de com quem ele estaria disposto a fazer política. Nesse aspecto, ficou muito claro qual seria o multilateralismo no qual Bolsonaro estaria interessado, com quais países e de que maneira… dizimando determinados grupos sociais e restringindo direitos civis de outros.

O Brasil já é o país que mais mata pessoas trans no mundo, segundo a Transgender Europe. O encontro com Trump também é também reafirmar a violência contra a população trans, que já se encontra, no Brasil, em iminente perigo e situação de vulnerabilidade social.

Como você percebe o exílio de Jean Wyllys?

Ele tomou a decisão certa em termos de proteger a si mesmo. Em 2016, eu estive num comício domiciliar com o Jean Wyllys. Votei no Jean Wyllys em todas as últimas eleições em que estive no Brasil, é o meu representante político se exilando do Brasil, é muito triste para todas e todos nós ver um dos únicos congressistas que assume publicamente e politicamente uma sexualidade não hegemônica ter que se exilar para garantir sua segurança. Isso também tem um significado muito grande para nós da comunidade LGBT.

E como você percebe a resposta de Bolsonaro, comemorando esse exílio?

Eu nem tinha visto que ele tinha comemorado, é monstruoso que o presidente de um país comemore o exílio de um congressista que luta pelos direitos de minorias políticas, de minorias no poder. Como muitas outras declarações do Bolsonaro, são monstruosas, um insulto à comunidade LGBT e ao povo brasileiro.

Críticos disseram que a revolta das mulheres antes da eleição de Jair Bolsonaro foi invisibilizada pela mídia, que as colocou em pé de igualdade com as manifestações pro-Bolsonaro, que tinham uma quantidade absolutamente inferior de pessoas. Você concorda?

Concordo. E isso nos coloca a questão: que fontes utilizar para nos informar? A gente está vendo um presidente que foi eleito fundamentalmente por pessoas que acreditavam em notícias falsas, em fake news. A gente está diante de um questionamento sobre que fontes utilizar.

O movimento Mulheres Unidas contra Bolsonaro foi histórico, dentro e fora do Brasil, esses movimentos foram autônomos, se formaram a partir de grupos que foram criados no Facebook e que em uma semana atingiram um milhão de mulheres participando. Foi um movimento historicamente importante que resistiu mesmo depois de contas hackeadas e ameaças.

Em Paris, Jean Wyllys criticou os argumentos de que os discursos de Bolsonaro contra a comunidade LGBT sejam uma cortina de fumaça para o projeto econômico. Você concorda ou discorda?

Eu concordo. Não é uma cortina de fumaça. Acho que isso surgiu naquele momento da declaração da Damares Alves de que meninos vestem azul, meninas vestem rosa, etc. Eu acho que é um recado muito claro à comunidade LGBT. Mesmo que a tentativa fosse essa, nem serviria como cortina de fumaça diante de tudo que a gente tem visto em termos de decisão política em tão pouco tempo.

A gente viu a retirada da população LGBT das diretrizes de direitos humanos no mesmo mês da passagem da demarcação de terras indígenas e quilombolas para o Ministério da Agricultura. Tudo isso é a maneira como ele está organizando a violência à minorias políticas de forma estruturada. Isso é material e faz parte também de garantir o próprio projeto econômico e ultraliberal do governo de Bolsonaro. Que está sendo implementado por um “chicago boy” com passagem pela ditadura chilena.

O que te parecem as suspeitas de ligações da execução de Marielle Franco com a família Bolsonaro? São suspeitas que fazem sentido para você?

São suspeitas que fazem tanto sentido que… A questão não é respondida até hoje. Nós temos um milhão de suspeitas. Não sei o quanto eu poderia falar sobre as minhas suspeitas. Um ano depois, essa é uma questão não respondida. Isso tem um significado latente.

Marielle Franco dizia que a revolução seria feminista e negra no Brasil ou ela não seria. O que você pensa sobre isso?

Estou absolutamente de acordo. O Brasil é um país onde a gente vê a taxa de feminicídio de mulheres negras crescer mais do que 15% e a taxa de feminicídios de mulheres brancas decrescer 8%. Precisa-se sempre fazer uma análise interseccional da violência.

A revolução feminista será negra ou não será e no Brasil há várias mulheres negras nesse momento lutando e movendo estruturas de poder como Talíria Petrone, Érica Malunguinho, muitas… ou como falava Audre Lorde, eu não sou livre enquanto todas nós não formos livres. A vida da Marielle foi brutalmente interrompida, mas sua luta e voz de fato virou semente e ecoa no mundo inteiro.

O que é o Brasil hoje: é uma democracia ou não é?

Não é. Não é do ponto de vista concreto. O que é uma democracia? Regime político onde existe força institucional? Onde o povo seja soberano? Existe uma configuração política nessas eleições que mostrou que o Brasil já não era uma democracia. Já não era uma democracia desde 2016 por causa de um golpe planejado e que ficou claro para todos que foi planejado, um golpe jurídico-institucional, um governo de transição com um percentual de aceitação que beirava o 1%, 0%, e passamos por uma eleição em que a oposição foi calada, foi colocada atras das grades, um processo com uma celeridade nunca antes vista, por um juiz que hoje é ministro da justiça.

O que te faria voltar para o Brasil?

(longo silêncio) Um silêncio de horas (risos). A minha família, tirando meus pais e irmão, mas a maior parte da minha família é eleitora do Bolsonaro, então eu também não sei ainda como seria voltar para o Brasil diante disso. O Brasil é um país fantástico que está sendo absolutamente depredado pelos seus governantes, que estão destruindo seu próprio povo. Isso é muito triste. Eu não sei se eu voltaria ainda. Essa é uma grande questão pra mim, não resolvida. Eu mesma nunca tinha parado para me fazer essa pergunta e verbalizar dessa maneira, o que me faria voltar… é uma questão enorme, imensa. Eu vejo amigos meus que hoje que estão encontrando maneiras de sair do Brasil ou que gostariam de sair.

E eles vão para onde?

Alguns não têm destino claro. Outros vão para alguns países da América Latina. Poucos vêm para cá, para a Europa.

Que países da América Latina?

Uruguai. Eu acho que nesse momento estou atravessando de maneira forte a noção de que o pessoal é político. Eu falei pra você que eu ainda hesito em falar sobre isso. Esses dois últimos anos foram um momento de tomada de consciência pra mim de que o pessoal é político.

Como você lida com sua família bolsonarista?

Eu não lido. Nós não nos falamos. Eu deixei de falar com boa parte dos membros da minha família.

Você falava com eles antes?

Falava com mais frequência.

Foi uma surpresa pra você o posicionamento político deles?

(silêncio) Foi uma surpresa porque ficou evidente. Ao mesmo tempo não consigo dizer que foi um choque, uma completa surpresa. Mas ver concretamente que eles estão concordando com um presidente que diz que ser gay é falta de porrada. Aquilo que nunca foi dito se torna concreto num voto de frente pra urna. Os posicionamentos se tornaram muito mais evidentes e concretos.

Como algo voltado contra você?

Exato.

Você acha que é uma boa estratégia, a não comunicação, com eles?

Eu acho que é uma estratégia de proteção. Eu acho que é difícil dizer é uma boa ou má estratégia. Cada um vai passar por isso de um jeito. Pra mim, é uma estratégia válida de proteção, provavelmente não a única daqui pra frente.

Proteção emocional, física?

A priori emocional.

Eles tentaram falar com você desde então?

Não.

Ficou claro para eles que você não queria contato?

Acho que sim. Eu não precisei dizer nada. Acho que talvez os meus posicionamentos em redes sociais já estivessem dizendo o suficiente. Foi um afastamento que eu vi. Mesmo minha hesitação em ir ao Brasil agora existe a partir desse ponto de vista, depois da eleição do Bolsonaro. Não acho que eu sofreria uma agressão física, também não consigo garantir que não sofreria. Mas agressão verbal, muito possivelmente.

O que você vê no horizonte político e social do Brasil?

Um horizonte de luta é o que eu vejo. E a questão é também ter consciência de quem está fazendo essa luta.

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